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Como desperdiçar clientes em tempos de crise

por José António Abreu, em 15.02.13

Folheio a Ler numa tabacaria. Há mais de ano e meio que não a compro. Passo os olhos por dois artigos, um sobre Joyce Carol Oates, o outro, de Rogério Casanova, sobre O Bom Soldado Svejk. Em condições normais, qualquer deles seria suficiente para eu gastar cinco euros. Reparo no editorial. João Pombeiro despede-se. Escreve: Por decisão da administração do Grupo Bertrand Círculo (do qual faz parte a Fundação Círculo de Leitores), decisão que respeito integralmente, deixo hoje a direção da LER. Vou às últimas páginas verificar a tiragem da revista. 10000 exemplares. Há um ano e meio era de 12000. Resultado da crise? É possível. Tenho pena? Não. Certas dificuldades são merecidas. Como noutros casos (imprensa escrita, maioria das editoras de livros), a adopção do Acordo Ortográfico terá originado poucos ou nenhuns efeitos positivos (quem é que passou a comprar a Ler porque nela se aboliram as consoantes mudas?) mas vários efeitos negativos. Um (posso garanti-lo), cem, talvez dois mil efeitos negativos. Em época de crise, provocar clientes é capaz de não ser grande ideia. Fica, a partir deste meu cantinho de irrelevância, uma mensagem para o futuro diretor da Ler ou para a «administração do Grupo Bertrand Círculo»: revertam a decisão e a revista ganhará de imediato mais um leitor. Talvez cem, quiçá dois mil.


24 comentários

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De c. a 15.02.2013 às 19:44

Deixei de comprar a ler quando começou a ser em acordês. Já foi há um ano?
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De José António Abreu a 15.02.2013 às 22:38

E meio. Um ano e meio super-divertido a todos os níveis. ;-)
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De c. a 15.02.2013 às 19:48

P.S. Sobre o número dos leitores deve haver engano: com o "português unificado" deve vender-se muito no Brasil.
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De José António Abreu a 15.02.2013 às 22:41

É provável. Aliás, acho que foi depois de folhear um número que a Dilma decidiu suspender o acordo.
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De pedrojordao@gmail.com a 15.02.2013 às 20:19

É preciso sublinhar que a decisão sobre a aplicação do AO foi tomada ainda antes da saída de Francisco José Viegas da direcção da LER. E que, como se suspeitava e entretanto se confirmou, a saída de João Pombeiro acontece apenas porque, depois de ter sido uma nulidade na sua aventura política, Francisco José Viegas resolveu reocupar o lugar como se fosse um trono, subitamente desaparecendo os problemas de saúde que ainda há meses o impediam de continuar no cargo que livremente escolheu no Governo. Por isso, há um problema no texto que estou a comentar: ou se presta a conclusões injustas para com o director cessante ou parece fazê-lo.
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De José António Abreu a 15.02.2013 às 22:49

Pedro:
Não me parece que no post se façam juízos de valor sobre o trabalho de João Pombeiro. Se a revista estava melhor ou pior do que nos tempos de FJV, não sei: como refiro logo no início, há ano e meio que não a leio, apenas a folheio quase todos os meses. E também não sei que papel teve Pombeiro na decisão de adoptar o Acordo. Mas sei que a decisão lhe é anterior - está no post que linko, onde anunciei ir deixar de comprá-la.
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De João Campos a 15.02.2013 às 21:42

Há alguns anos, quando a Ler regressou com o Francisco José Viegas como director, ainda comprei os primeiros números. Mas cedo desisti, e ainda antes do flagelo ortográfico. Não é revista para mim: os raríssimos artigos sobre a literatura que me interessa são tão curtos e tão mal informados que a coisa se torna ridícula. A título de exemplo, leia-se o micro-resumo de "A Game of Thrones", de George R.R. Martin, publicado na edição de Fevereiro de 2012 (num artigo sobre o top de vendas, se não me engano):

"Começa a saga de Lorde Eddard e do seu senhor (sem anéis). Pode não ter hobbits, mas há «o anão Tyrion, a ovelha negra do clã Lannister."

Se uma revista literária "de referência" produz um resumo destes, podemos suspeitar de que a dita "referência" anda muito longe daquelas páginas.
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De José António Abreu a 15.02.2013 às 23:05

Ah, João, para além de todos os enviesamentos ligados aos géneros considerados menores, que já por várias vezes abordaste no Delito, creio que uma revista portuguesa vive da colaboração de um grupo restrito de pessoas (não há dinheiro para grandes grupos), escolhidas por uma mistura de mérito, amizade e cunhas. Isso leva a que quase inevitavelmente certas pessoas acabem a escrever sobre temas que não dominam. É um pouco como ler os testes da Proteste: se perceberes do tema, detectas uma série de incorrecções. Ainda assim, talvez porque os meus interesses estejam mais dentro dos interesses desse grupo de colaboradores do que os teus, eu apreciava a revista. Para mim, bastariam Rogério Casanova, Bruno Vieira Amaral e José Riço Direitinho para a comprar - desde que estivesse escrita em português pré-acordo.
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De João Campos a 16.02.2013 às 00:00

"creio que uma revista portuguesa vive da colaboração de um grupo restrito de pessoas (não há dinheiro para grandes grupos), escolhidas por uma mistura de mérito, amizade e cunhas"

Tens aqui um resumo assustadoramente certeiro do que é a imprensa em Portugal.
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De Octávio dos Santos a 16.02.2013 às 01:02

Proteste em que também é utilizado o «acordês»... aliás, depois de 20 anos como associados, eu e a minha esposa desistimos da DECO por causa disso. Porque é inadmissível que uma entidade que se diz «da defesa do consumidor» se tenha convertido de um dia para o outro a uma anormalidade sem fazer - ou, pelo menos, sem divulgar - um estudo sobre as características e as consequências, as vantagens e as desvantagens do dito cujo, como faz para tantos produtos, serviços... e legislação.
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De Bic Laranja a 15.02.2013 às 21:48

Ponha-me na conta.
Cumpts.
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De José António Abreu a 15.02.2013 às 23:07

Feito. Mas não espere receber juros.
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De maldito acordo! a 15.02.2013 às 21:50

E se deitarem às urtigas tal desacordo contem também comigo.
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De José António Abreu a 15.02.2013 às 23:08

Boa. Já somos três.
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De Pedro Correia a 15.02.2013 às 23:02

Subscrevo, JAA. Só o fim do acordês obrigatório e compulsivo me faria voltar a comprar uma revista na qual já tive o gosto e a honra de colaborar ('pro bono') quando ali ainda se escrevia em português correcto.
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De José António Abreu a 15.02.2013 às 23:09

E vão quatro. Se esta caixa de comentários correr bem, Pedro, talvez se arranjem clientes para uma revista concorrente. :-)
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De Ana Vidal a 17.02.2013 às 20:16

Somos cinco. Também deixei de ler a Ler pela mesma razão, e tenho pena porque era uma revista de que eu gostava bastante. Quanto ao AO nos livros, só abro uma excepção para o Mia Couto. De outra forma não o leria de todo, o que seria um desgosto ainda maior do que lê-lo em acordês.
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De Antonio a 15.02.2013 às 23:16

Também eu. E como a Ler, assim fiz com outras publicações. Nem por isso leio menos, poupo é mais. Há boas revistas e jornais que se mantiveram firmes na defesa da Língua.
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De José António Abreu a 15.02.2013 às 23:34

Ah, sim, o caso da Ler incomoda-me particularmente por ser uma revista que trata de questões ligadas com a língua e que comprava regularmente (do Jornal de Letras, nunca fui leitor regular) mas também deixei de comprar outras: a Blitz, por exemplo, ou algumas ligadas aos automóveis. Hoje em dia compro a Sábado quase todas as semanas, o Público de vez em quando (à sexta, quase sempre) e o Jornal de Negócios de longe a longe. Em português, creio que é tudo.
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De Vasco a 15.02.2013 às 23:27

No outro dia comprei um livro em acordês sem me aperceber. Gostei tanto do livo que me esqueci de verificar a Língua em que foi ortografado. 35 euros. Nem costumo gastar tanto dinheiro num livro. Cheguei a casa e reparei que estava ortografado naquela "coisa". Foi para o lixo. Deitei-o fora. 35 euros para o lixo.
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De José António Abreu a 15.02.2013 às 23:38

Vasco: se calhar tinha sido preferível conter o horror por umas horas, dirigir-se à livraria onde o comprou e dizer: "Ooooops, afinal já o tenho. Posso trocar por um com as letras todas?" ;-)
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De Vasco a 16.02.2013 às 12:02

Não dava. Tinha de o deitar fora: o prazer de o enfiar no lixo (ou como diria o Viegas, "tomar no lixo") era a única forma de compensar o desgosto por ter sido ludibriado.
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De Teodora a 16.02.2013 às 02:28

Eu, pessoalmente, pegaria no livro e ostentando uma certa indignação o devolveria explicando a verdadeira razão porque o fazia...
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De Vasco a 16.02.2013 às 20:54

De que serviria devolver um livro a um funcionário da FNAC por motivos de ortografia? Devolvê-lo ao editor já seria outra história, mas desperdiçar um segundo de vida com a Leya é pedir de mais a uma pessoa que gosta de livros.

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