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Estrelas de cinema (17)

por Pedro Correia, em 10.02.13

 

 A IMAGINAÇÃO JÁ NÃO É O QUE ERA

***

Sejam bem-vindos de regresso ao cinema antigo, que nos mostra um mundo a preto e branco, em que bons e maus são facilmente reconhecíveis. O sucesso de Argo explica-se por isto: a nostalgia que tantas vezes sentimos de voltar a ver uma história bem contada, com protagonistas destituídos de dilemas morais, sem as tortuosas errâncias de fidelidade que caracterizam as personagens de um Graham Greene ou de um John Le Carré.

Este filme não engana ninguém: cumpre os objectivos com uma eficácia digna de aplauso. Herdeiro directo do chamado cinema político norte-americano dos anos 70, mas com muito mais certezas que dúvidas, conta-nos a história de um agente da CIA que resgata um reduzido grupo de compatriotas refugiados na embaixada do Canadá em Teerão nos meses de loucura colectiva - e homicida - que se sucederam ao derrube do Xá, em Janeiro de 1979.

Com um ritmo trepidante, uma notável fluência narrativa e uma meticulosa reconstituição daqueles dias de som e fúria que marcaram a transição entre um trono milenar convertido em inaceitável símbolo do despotismo e uma revolução que prometia ser fiel à voz da rua mas não tardou a silenciá-la por sua vez, Argo é um daqueles filmes que sabem o que querem e para onde vão. Rodado com mão segura por Ben Affleck, que aqui se confirma como cineasta de mérito e actor de gama muito mais vasta do que sugeriam as comédias românticas em que se vinha enredando com excessiva frequência.

A qualidade do desempenho deste actor-realizador pode ser avaliada pela credibilidade da sua caracterização como operacional da CIA dos anos 70 disposto a desrespeitar instruções dos superiores hierárquicos para levar por diante aquilo em que acredita - e sobretudo pelas cenas em que apenas se exprime pelo silêncio. Não conheço, aliás, melhor maneira de avaliar uma interpretação cinematográfica.

 

Argo podia ser apenas mais um título no já longo rol de filmes e séries que aproveitam o acesso a material desclassificado dos ficheiros secretos da CIA e que têm servido de algum modo para reabilitar a imagem da agência, diabolizada nos anos de chumbo da Guerra Fria. Ao contrário do FBI, desde sempre idolatrado nas películas de Hollywood, a agência sediada em Langley nunca caiu nas boas graças da Meca do cinema. Até hoje.

Que isso aconteça aqui graças a uma operação de "espionagem" real que recorre a uma fictícia produção hollywoodiana como pretexto para o resgate dos reféns (com John Goodman e Alan Arkin insuperáveis em contraponto cómico ao tom dramático do filme) é um prodígio de ironia do argumento, inspirado num livro de Antonio Mendez, o agente que protagonizou o arriscado episódio aqui revivido. Prova evidente - uma mais, entre tantas outras - que o cinema imita crescentemente a vida. Longe vão os dias da Sétima Arte como "fábrica de sonhos". Tão distantes como a era dos espiões com dúvidas existenciais.

Sejam bem-vindos ao tempo das novas certezas e da vida filmada a imitar em cada fotograma a vida real. Como se o artifício tivesse passado irremediavelmente de moda e a imaginação, que em certo período já remoto alguns quiseram levar ao poder, tivesse emigrado para parte incerta.

 

 

Argo (2012). De Ben Affleck. Com Ben Affleck, Bryan Cranston, Alan Arkin, John Goodman, Victor Garber, Tate Donovan, Clea DuVall, Scott McNairy, Rory Cochrane, Christopher Denham, Kerry Bishé.


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