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Estrelas de cinema (16)

por Pedro Correia, em 05.02.13

 

A BANALIZAÇÃO RETÓRICA DO REAL

**

 

Onde foi parar a ficção? A pergunta começa a ter razão de ser face aos filmes em cartaz nestas semanas que antecedem a distribuição dos Óscares. Lincoln segue a trajectória final do mais amado presidente norte-americano. O Impossível é a reconstituição fiel do drama vivido por uma família espanhola que sofreu na pele, na carne e no sangue o trágico maremoto de 26 de Dezembro de 2004 - acompanhado com emoção em todo o mundo. Argo relata-nos uma operação de resgate de cidadãos dos EUA na Teerão pós-Xá totalmente baseada em acontecimentos reais, como aliás o filme faz questão de acentuar. 00.30 Hora Negra suscitou polémica precisamente pelo seu carácter realista, de estrita colagem aos factos.

Todos estes filmes têm pelo menos dois traços comuns: assentam em pressupostos "verídicos" e estão nomeados em diversas categorias na corrida aos Óscares. De repente, também no cinema as utopias parecem ter passado de moda. O produtor, o realizador, o exibidor e os espectadores exigem uma espécie de caução do real para determinar a qualidade de um filme. E é mesmo possível detectar uma "estética de telejornal" em vários dos títulos em exibição precisamente numa era em que, simetricamente, os telediários abandonam em grau crescente a sua tradicional missão de difusores de notícias de interesse geral para se concentrarem em micro-relatos do quotidiano que apelam mais à emoção do que à razão, utilizando recursos técnicos muito próximos da ficção filmada.

 

Esta colagem da Sétima Arte à realidade, num progressivo desinteresse por enredos ficcionados, está igualmente presente em Seis Sessões, outro filme que se apressa a deixar claro - do princípio ao fim - que pretende ser apenas um "reprodutor de factos" comprovados, numa espécie de banalização retórica do real como matriz fundamental do cinema contemporâneo.

É um trabalho essencialmente assente na prestação dos actores - com destaque para o trio principal, composto por John Hawkes, Helen Hunt e William C. Macy, sem esquecer uma boa galeria de secundários - e que abre estimulantes pistas de reflexão sobre as vias bifurcantes do amor e do desejo. O filme parece, no entanto, comprazer-se na sua própria mediania de teledrama vocacionado para transformar o extravagante em exemplar - e nesse plano cumpre o que promete.

A retina do espectador reterá o esforçado desempenho de Hawkes, que talvez merecesse a nomeação para uma estatueta. E sobretudo a actuação de Helen Hunt, um prodígio de contenção e subtileza. Ela está, aliás, nomeada para um Óscar - mas como actriz secundária num papel que nada tem de secundário nem em tempo de presença em cena nem em relevância dramática. Mistérios que a Academia de Hollywood tece: nesta sua insaciável sede de tudo rotular, não são raras as vezes em que atribui um rótulo que mistifica mais do que identifica.

 

 

Seis Sessões (The Sessions, 2012). De Ben Lewin. Com John Hawkes, Helen Hunt, William H. Macy, Moon Bloodgood, Annika Marks, W. Earl Brown.


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