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Terríveis de tão azuis que são

por José Navarro de Andrade, em 02.02.13

 

Contrariando a prédica do Padre Américo, todos os rapazes bons um dia poderão ser maus.

Quem na manhã de 22 de Junho de 1951 olhasse para o portão da MGM poderia assistir a uma estranha cena. Louis B. (nunca se soube o que era este “B”) Mayer, o Júpiter de Hollywood, ali estava de pé, na beira do passeio, à espera de um táxi. Ao tentar entrar nos estúdios, foi informado pelo porteiro que estava interdito e que a MGM queria o automóvel mais o motorista de volta; este e os outros cinco Chryslers guardados lá em casa. Desta maneira infame acabava um reinado de 27 anos de glória e fortuna máximas. À frente daquela que fora a fábrica de filmes mais luxuosa e popular do cinema americano, estava agora o introspetivo Dore Schary. Mudanças iam ser feitas.

Como bom produtor moderno, Schary queria o dois em um: modernizar e poupar. Calha que estes dois propósitos são muito amigos, visto que tanto no cinema como na vida o realismo é bem mais económico do que a fantasia, mesmo quando sendo, na maior parte das vezes, menos útil à sociedade.

Por essa altura, nos franzinos Universal Studios James Stewart debitava uma corda de westerns verdadeiramente interessantes em parceira com Anthony Mann, um realizador capaz porém perfunctório, como eram todos os que não pertenciam ao pequeno punhado que ostentava the name above the title. Para provar o seu ponto Schary pediu-os emprestados só por um filme: Naked Spur.

Naked Spur (1953) é uma peça bizarra da filmografia da MGM se o pusermos entre Singin’ in the Rain (1952) e The Band Wagon (1953), ambos musicais extraordinariamente à antiga, como se neles se cantasse “ó tempo volta para trás…” Todavia, Naked Spur fará sentido se alinhado com The Asphalt Jungle (1950) o taciturno filme (literalmente) negro de John Huston e com The Bad and the Beautiful (1953) de Minnelli, um melodrama em que Hollywood se desmascara a si próprio.

O programa de Naked Spur consiste em retirar o western das catacumbas bíblicas de John Ford e sobre aquela paisagem fronteiriça, onde as conversas decorriam aos tiros, contar histórias sem heróis nem vilões, mas protagonizados por personagens tão confundidas pela vida quanto os seres humanos. Homens com “psicologia” como era dito na gíria da época.

A surpresa de Naked Spur seriam os olhos azuis de James Stewart, o bom do Stewart, agora já não do azul transparente e franco dos puros como sempre os havíamos visto, mas de um lápis lazúli carregado de frieza, remorso e rancor.

Estes olhos encontram réplica perfeita em Janet Leigh, detentora dos mais belos cabelos curtos de Hollywood. Ela ganharia aqui o carisma singular e inquietante que viria ser tão bem explorado por Orson Welles em The Touch of Evil e Hitchcock em Psycho. A sua presença passiva-agressiva (estudara psicologia antes de cair na vida de actriz) com uma tensão sexual ao mesmo tempo reprimida e à flor da pele (os avós maternos eram de origem dinamarquesa), são o combustível para a obstinação crescente e crescentemente desvairada de Stewart.

O filme não termina como deve ser, ou seja com a redenção, mas com um acomodamento: depois de todas as restantes personagens devidamente mortas e os corpos arrastados pela versão colorada do Estige abaixo, Stewart e Leigh abandonam o Oeste e partem para a Califórnia, com a esperança de que o passado não os persiga.

Mas será que os olhos de James Sewart continuarão a ser azuis de maus?


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