Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Péssimo ou forward to the past e back to the future

por José António Abreu, em 31.01.13

Vejamos então, da frente para trás para que os nossos cérebros extenuados possam ir suavemente relembrando os gloriosos pormenores do passado recente. Os governos de José Sócrates constituíram o paradigma da teimosia suicida, tendo conduzido o país ao limiar da bancarrota. A curto prazo dificilmente serão ultrapassados em arrogância, miopia, estupidez. O governo de Santana Lopes foi um curto mas intenso concentrado de trapalhadas acerca do qual (e das quais) quanto menos se disser, melhor. O governo de Durão Barroso começou com o discurso certo e, perante a resistência dos poderes instalados e uma comunicação social ignorante e hostil, acabou em desistência e fuga. Os governos de António Guterres aproveitaram a abundância de dinheiro barato proporcionado pela descida das taxas de juros para distribuir benesses e fazer crescer o Estado. Fugiram sempre de qualquer medida que suscitasse pigarreio à oposição ou às corporações (as quais, pelo papel cada vez mais decisivo do Estado na economia, se iam tornando mais fortes) como o diabo foge da cruz (analogia em honra do catolicismo de Guterres que, talvez por causa dele, foi até agora o único a admitir pecados) e acabaram no famoso – mas largamente ignorado – discurso do pântano. Os governos maioritários de Cavaco Silva aproveitaram a abundância de dinheiro europeu para estabelecer o modelo baseado no Estado e nas obras públicas que nunca mais foi possível alterar. Ah, e também o modelo da arrogância, que Sócrates emulou e – no que parecia impossível – melhorou através da injecção de uma dose cavalar de histrionismo. O governo minoritário de Cavaco Silva foi excelente a aproveitar o trabalho do governo anterior (já lá vamos) e as primeiras consequências da entrada na então CEE. O governo de Mário Soares e Mota Pinto enfrentou uma situação de pré-bancarrota com coragem e determinação mas também mais instrumentos do que hoje se encontram disponíveis e um Estado que, por menos pesado (cerca de 36,5% do PIB), gerava menos inércia. O governo de Pinto Balsemão levou o país ao limiar da bancarrota e o melhor que se poderá dizer é que o fez com mais ingenuidade e muitíssimo menos arrogância do que o de Sócrates. O governo de Sá Carneiro e Freitas do Amaral estabilizou o sistema político ao demonstrar que a direita (uma direita muito centrista mas era a possível) podia ocupar o poder. A nível económico, porém, não merece os mesmos elogios, tendo aproveitado a retoma que se seguiu à pré-bancarrota de 1978 para políticas eleitoralistas (sensivelmente o mesmo que Cavaco faria em 1985). Os governos de Maria de Lurdes Pintassilgo, Mota Pinto e Nobre da Costa foram períodos da mais pura e inadulterada confusão política e económica. Por culpas próprias e inevitabilidades dos tempos conturbados que se viviam, os primeiros governos de Mário Soares (em 1978, com apoio parlamentar do CDS), conduziram o país ao limiar da bancarrota. Com os governos de Pinheiro de Azevedo, Vasco Gonçalves e Adelino da Palma Carlos não vale a pena perder tempo, até porque o meu cérebro extenuado foi ficando cada vez mais extenuado, encontrando-se agora tão lento como um computador de 1995 tentando correr o Windows 8. Ou se calhar o Vista. Ou o cérebro de António Guterres tentando calcular uma percentagem do PIB.

 

Primamos a tecla » de modo a fazer avanço rápido até ao presente e sejamos claros: como tanta gente afirma com admirável convicção, o governo actual é péssimo. Honestamente: péssimo. Usa e abusa dos aumentos de impostos, garante o que devia saber não poder garantir, adia medidas que não devia adiar, tem ministros que não deviam ser ministros há cerca de um ano e melhor seria nunca o terem sido, permite excepções a regras anunciadas como universais, faz reformas tímidas quando pagaria quase o mesmo preço fazendo reformas a sério, permite, por culpa própria, especulação em torno de processos que deviam ser transparentes, etc, etc. E, contudo, sendo péssimo, numa perspectiva de mérito (ou, se preferirem, da relação esforço desenvolvido / dificuldades encontradas), trata-se provavelmente – e ponderei o que vou escrever durante, sei lá, para cima de cinco segundos – do melhor governo que tivemos nas últimas duas dúzias de anos, quiçá em toda a Terceira República. Por mim, apenas o do Bloco Central e o primeiro da AD podem disputar-lhe o lugar. Os restantes ou foram catastróficos ou governaram em tempo de vacas gordas sem pensar no futuro – e assim é fácil. Apesar de todos os seus erros – muitos, enormes –, este é o único desde há décadas que se encontra verdadeiramente a procurar corrigir o modelo de funcionamento da economia portuguesa no sentido da sustentabilidade. Coisa de somenos, está bem de ver, destinada, como a história do pós-25 de Abril amplamente demonstra, ao mais tonitruante aplauso público e retumbante sucesso.

 

Mas, na realidade, nem precisamos de ficar pelo 25 de Abril. Atendendo a que os governos imediatamente anteriores ao dito também não eram recomendáveis, para encontrar melhor (ou menos mau) teremos de recuar até... até... credo, é demasiado deprimente pensar nisso. Tal como constatar quão repletas de nada as alternativas permanecem, incluam ou não esse estandarte da boa gestão da coisa pública (é o que ouço dizer) chamado António Costa, devidamente acolitado pelos saudosistas do grande flâneur dos boulevards parisienses.


18 comentários

Sem imagem de perfil

De anonimo a 31.01.2013 às 14:32

O Custo de oportunidade Big Brother Brasil. Texto excelente. Vale a leitura em http://www.universidadedavida.com.br
Sem imagem de perfil

De JS a 31.01.2013 às 14:48

Entretanto os dois perfilados potenciais herdeiros desta (excelente mas angustiante) lista de executivos nacionais -executivos que nomeiam tudo e todos na função pública e vastos arredores neste País- esclarecem que: "não foram discutidos lugares".
É como quem diz: "não temos estado a pensar noutra coisa"...
Ps._ Mais uma vez 30.000 escassos militantes vão decidir o que compete ser decidido pelos 9 milhões de eleitores. Vergonha.
Imagem de perfil

De José António Abreu a 31.01.2013 às 19:36

JS:
Não acho que as escolhas internas nos partidos tenham que ser decididas pela totalidade dos eleitores. Acho é terrível que a lógica político-partidária nem com crises destas se altere.
Sem imagem de perfil

De JS a 31.01.2013 às 23:25

Sim Que os militantes escolham o chefe do seu partido, correctíssimo. Mas só isso ....
Sem imagem de perfil

De Tiro ao Alvo a 31.01.2013 às 15:06

Acompanho-o, jaa, nesta sua leitura dos nossos governos (e desgovernos) dos últimos trinta e tal anos.
Imagem de perfil

De José António Abreu a 31.01.2013 às 19:38

Lá diz o ditado: mais vale bem acompanhado do que só.
Sem imagem de perfil

De Helena Ferro de Gouveia a 31.01.2013 às 16:06

Se fosse possível carregar na tecla DELETE ...

Partilho grande parte da sua análise. E acrescento que não haverá um português que recuse "reformas", até as aplaude, desde que, claro, não comecem pela sua actividade mas pela do vizinho.

Durante demasiado brincou-se em Portugal ao feudos (juízes, professores, farmacêuticos, autarcas, militares, sindicalistas, etc.)e o futuro das próximas gerações foi hipotecado pelo egoísmos da geração actual. Foi preciso o susto, o bater no fundo, para que as "conquistas da Revolução " (os direitos adquiridos e o caldeirão de privilégios, regalias, regimes de excepção, etc, etc) fossem questionadas, para que os portugueses em geral ( e não apenas) políticos percebessem que têm que mudar de vida.

Apesar de óbvios, direi para ser benévola , erros de casting ( fundo sem poço diz-lhe algo ;) ?) e de um caminho por vezes errático este Governo está como diz a procurar a via da sustentabilidade.

Note-se que não votei no actual governo, nem em nenhum executivo português desde que optei pela emigração.
Imagem de perfil

De José António Abreu a 31.01.2013 às 19:44

Muitos cidadãos e, mais grave, muitos políticos ainda não perceberam. Começando pelo PS socrático (e até pelo PS de Seguro, embora este se encontre entalado entre a realidade e os amigos de Sócrates), passando por muitos elementos dos feudos que mencionou e acabando em sociais-democratas como Menezes e Jardim. Aliás, logo que pareça haver folga o espectáculo recomeçará.

Fundo sem poço? Hmmm, não faço ideia mas vou perguntar ao Rui Rocha, que acho que escreveu qualquer coisa sobre o assunto. ;-)
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 31.01.2013 às 17:17

"Encontrou-se, em boa política, o segredo de fazer morrer de fome aqueles que, cultivando a terra, fazem viver os outros." (Voltaire)




Alexandre
Imagem de perfil

De José António Abreu a 31.01.2013 às 20:00

Alexandre:

O problema das citações retiradas do contexto (e o contexto de Voltaire era o absolutismo) é que admitem várias interpretações. Eu posso ler o seu comentário de pelo menos duas maneiras:

- Como uma crítica ao percurso que nos trouxe aqui, por ter sido caracterizado por um conluio políticos - empresários do regime, todos com visão de curto prazo. Com a ressalva de que a maioria do povo pareceu gostar, tendo ignorado os avisos de que a situação era insustentável, concordaria consigo.

- Como uma crítica às políticas do actual governo, que aumentam o desemprego, cortam salários e pensões, etc. Factualmente, não há como negar. O problema é que, quando se chega ao ponto a que chegámos, não há correcção indolor (veja, por exemplo, a tabela do post abaixo sobre outros processos de correcção orçamental). Seguir no mesmo caminho, como Sócrates fez em 2010, só adia e agrava o problema porque mantém todos os defeitos da economia. Um exemplo entre muitos possíveis: por que há-de uma empresa de construção civil dedicar-se a outras áreas de actividade ou apostar na internacionalização se o Estado lhe continua a garantir serviço? Claro que teria sido muito melhor fazer a correcção durante o governo Guterres (Pina Moura chegou a ter um plano que nunca foi implementado) ou durante o governo Durão Barroso ou até durante o governo Sócrates, porque (1) o problema era menos grave e (2) havia mais folga para acudir às pessoas que perdessem o emprego. Acabámos por ter de fazer tudo no último instante. É, evidentemente, mais duro.

http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/5086691.html
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 01.02.2013 às 14:45

Concordo com a sua interpretação, sobre o meu comentário.
Sabemos o que se passou no tempo do "fugitivo" e as consequências do esbulho que fizeram ao país e aos portugueses.
Concordo com o que se procura fazer, para corrigir "a-balburdia-dos-anos-no-oeste" (2005-2010).

A citação (absolutismo) será um pouco abrangente, mas eles andam por aí, como camaleões, não param, deslizam, saltam e "entram" nas ondas como bons surfistas !

Alexandre
Sem imagem de perfil

De ghj a 31.01.2013 às 19:38

Este governo é péssimo. Toma a medicação que lhe prescrevem externamente e não é, em parte, senhor de si por isso o país não sofre os maus tratos de um louco furioso, como acontecia com de Sócrates, mas é, mesmo assim, péssimo. E Relvas está lá para nos lembrar o tipo de gente a que estamos entregues.
Valha-nos o estarmos com soberania limitada.
Imagem de perfil

De José António Abreu a 31.01.2013 às 20:02

Eu sei. Está no post. E, ainda assim, na minha opinião é dos menos maus desde sei lá há quanto tempo. O que diz muito sobre a nossa capacidade para nos governarmos.
Sem imagem de perfil

De Paulo Abreu e Lima a 31.01.2013 às 22:26

C'um carago, JAA, convergimos na mesma linha política e, pelo que já li e comentei, económica. Se algum dia falássemos, nem de mulheres poderíamos discutir, só digladiar - também prefiro as ruívas...

Vá aparecendo mais vezes, qu'isto precisa d'ordem.
Imagem de perfil

De José António Abreu a 01.02.2013 às 08:18

Eu escrevi que sinto atracção por ruivas, não que as prefiro. Tudo depende das ruivas, das louras e das morenas em questão. É tudo muito relativo... ;-)
Sem imagem de perfil

De jj.amarante a 01.02.2013 às 00:44

Pela minha parte eu considero este governo como o pior que tivemos desde o 25/Abril: http://imagenscomtexto.blogspot.pt/2012/10/o-pior-governo.html
Imagem de perfil

De José António Abreu a 01.02.2013 às 08:47

jj.amarante:

Grande parte, se não todas, as acusações constantes do seu texto têm razão de ser mas:
- Como já escrevi milhares de vezes, os políticos (todos eles) mentem quando em campanha eleitoral (e até depois delas mas já lá vamos). Na situação em que nos encontrávamos, era preciso alguma ingenuidade para acreditar que não se aproximava uma forte dose de austeridade que, evidentemente, incluiria aumento de impostos e cortes na função pública (de salários e/ou de pessoal) e nas prestações sociais. Grande parte da culpa das mentiras dos políticos, aliás, é da incapacidade dos eleitores em aceitarem que, por vezes, o cenário não é cor-de-rosa (no pun intended) e em confiarem em quem não o esconde (como, até certo ponto, Manuela Ferreira Leite fez em 2009, com os resultados conhecidos).
- Não há processos de ajustamento tão fortes como o nosso sem quedas do PIB de 8% ou 9% ou 15%, e sem taxas de desemprego elevadas. Isto com ou sem moeda própria. Veja, por exemplo, a tabela linkada na resposta a um comentário anterior. Que o governo, frequentemente acusado de não apresentar uma luz ao fundo do túnel, apresente números optimistas é, por um lado, uma tentativa de incutir confiança nos mercados e nos cidadãos e, por outro e mais uma vez, uma forma de acção típica de um mundo em que as pessoas não querem a verdade mas querem sentir-se ofendidas pela mentira.
- Com todos os erros (parte por culpa própria, parte por constrangimentos constitucionais, parte porque a inércia neste país é monstruosa), mantenho o que escrevi: atendendo às circunstâncias, este governo é provavelmente o melhor que tivemos na Terceira República. É o único que parece ter percebido que tem verdadeiramente de corrigir as distorções introduzidas na economia ao longo das últimas décadas e centrá-la nos sectores que fazem entrar dinheiro no país. Isso causa problemas e desemprego nos outros sectores? Infelizmente, claro que sim. Mas ficar pelas palavras, como é nosso costume, e continuar a queimar dinheiro público pedido emprestado em projectos sem rentabilidade só afundaria o buraco em que nos meteram.
Sem imagem de perfil

De PALAVROSSAVRVS REX a 02.02.2013 às 01:33

Subscrevo este post na íntegra e aplaudo-o. Depois da minha subscrição e do meu aplauso, o meu sofrimento e o de milhares permanece, é certo, mas fica iluminado e aberto à esperança, jaa.

Abraço grato.

Comentar post



O nosso livro



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D