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ARGO

por Ana Vidal, em 30.01.13

 

Não fora a garantia de ser uma história verídica e eu diria que ARGO era mais uma dessas xaropadas inventadas pelos EUA para enaltecer a pátria e manter os níveis do orgulho nacional, tal é a concentração dos clichés habituais: a supremacia americana a vencer em todas as frentes, da heroicidade à inteligência, da abnegação ao humor, da moral à razão. Mas, por incrível que pareça o happy ending, os factos aconteceram mesmo e os protagonistas estão bem vivos para contá-los. Comprovam-no também as imagens do genérico final, comparando fotografias retiradas do filme com outras, reais, das mesmas situações (a propósito, esta sequência faz-nos tirar o chapéu à excelência do casting). ARGO dá-nos conta de uma curiosa história de espionagem, ocorrida com um grupo de diplomatas americanos encurralados em Teerão, logo após a revolução de 1979 que depôs o último Xá da Pérsia, Mohammad Reza Pahlevi, e instalou no Irão a "democracia" do Ayatollah Khomeini. É também um tributo à cooperação diplomática entre países, e esse foi um dos motivos para que o presidente Clinton tornasse público, muitos anos depois, um incidente até aí mantido secreto e guardado a sete chaves pela CIA. A história - mais uma prova de como a realidade ultrapassa tantas vezes a ficção em matéria de improbabilidade - é mirabolante e deliciosa. Não quero estragar-vos a surpresa, não a contarei aqui. Dir-vos-ei apenas que vale a pena ver o filme: a reconstituição da época é rigorosa e funde-se muito bem com os vários excertos de documentários reais, usados para reforçar a ideia de autenticidade. 

 

Registei um pormenor, entre tantos outros, porque me incomodou: ajudado pelos parceiros ocidentais de quem fora aliado durante todo o seu reinado, o Xá foge do Irão in extremis, como é sabido, trocando pelo exílio a prisão ou uma execução sumária. Parte num avião privado," de tal maneira carregado de ouro que mal conseguiu levantar do chão". Não consigo deixar de pensar que é nestes momentos, exactamente nestes momentos, que se revela um carácter. Quantos dos seus apoiantes mais fiéis, deixados para trás e entregues à fúria dos revoltosos para uma justiça apressada e mais do que duvidosa, teriam cabido naquele avião em vez do ouro, em igual peso? E quantas vezes, durante os parcos meses que decorreram entre esse episódio e a sua morte no exílio, rodeado de um luxo tão exagerado como inútil perante um cancro, terá pensado o Xá nesse seu gesto? 

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