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Um facto

por José António Abreu, em 30.12.12

«Quero confessar-me, senhor padre… Não tenho a certeza de ser capaz… Poderá, senhor padre…? Tenho um marido…»

…?

«Peço desculpa? Oh, não, de forma nenhuma. Claro que somos casados. O órgão tocava e eu usava um véu branco, comprido. Havia incenso e lírios. E eu disse ‘sim’, e toda a gente estava feliz, e a mamã chorava e…»

…?

«Só um momento. Já lá chego. Eu era pobre. Tinha olhos grandes e tranças compridas. Ele chegou num carro. Era grande e tão forte. Foi comigo até ao cimo de uma colina e, na sua voz clara, forte, falou acerca do futuro. Tinha tantos planos. Eu brincava com os botões reluzentes do seu uniforme. Eu gostava de lhes tocar com a minha face e de me ver reflectida neles como num espelho.»

…?

«Sim, sim, senhor padre. Claro que sabia que era vaidade. Peço perdão. E então casámos.»

…?

«Não, de maneira nenhuma. Ele não mudou depois do casamento. Ele sempre foi firme mas também muito atencioso. Claro, tivemos os nossos desentendimentos mas nada de grave. Estávamos quase sempre juntos, ele praticamente nunca me deixava.»

…?

«Mas, senhor padre, como pode dizer isso? Francamente… Sim, ouvi falar disso mas ele não é assim. Nunca. De maneira nenhuma.»

…?

«Talvez. Não sei. Mas quem se veio confessar sou eu, não é ele. Eu é que estou aqui a precisar de ajuda… Preciso do seu conselho… Preciso de con… solo… Não, não estou a chorar. Agarre-me na mão, senhor padre.»

…?

«Sim. Claro que me casei com ele por estar apaixonada. Onde é que errei? Pergunte a qualquer pessoa sobre ele. Todos lhe dirão como é respeitado, capaz, digno.»

…?

«Perdão?»

…?

«Não, nunca. A sério, nunca. Nunca lhe fui infiel, nem sequer nos meus pensamentos. Tenho sido uma mulher fiel. Acredita-me, senhor padre?»

…?

«Não.»

…?

«Não.»

…?

«Mais uma vez, não.»

…?

«Então a que propósito vem isto? Padre, estou aqui… Não, é impossível acreditar. Depois de sete anos a viver com ele…No Verão passado fomos de férias. Eu convenci-o a descansar um pouco. Ele tem um emprego importante, muito trabalho, enorme responsabilidade, o país inteiro… Uma manhã, ao pequeno-almoço, estávamos sentados um em frente do outro. Atrás dele havia uma janela aberta. Através dela eu conseguia ver o jardim, árvores… O papel de parede da sala tinha um padrão de florzinhas, dezenas de milhar de florzinhas cor-de-rosa. Quando ele levantou o copo eu olhei para ele. Não havia nenhuma intenção especial no meu olhar. E então apercebi-me…»

…?

«O que vi? Como foi possível que, durante sete anos, tenha partilhado a mesa e a cama com ele e só agora… Aconselhe-me, senhor padre, porque se é um pecado…»

…?

«Foi só nessa altura que percebi que ele era feito de plasticina.»

…?

«Sim. Todo ele. É todo artificial. Inclinei-me para ver. Os meus olhos deviam estar muito abertos de espanto porque ele pousou o copo e perguntou calmamente: ‘O que se passa?’ Não, desta vez não estou enganada. Ele sempre foi feito de plasticina. Todo ele! Como, oh, como é que nunca reparara antes? E agora o que vai acontecer?»

…?

«Uma anulação do casamento? Mas, senhor padre, isso é impossível – temos filhos!»

 

Sławomir Mrożek, conto Um Facto, inserido na colectânea O Elefante.
Traduzido por mim, com base na versão inglesa da Penguin (tradução a partir do polaco por Konrad Syrop).


9 comentários

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De dfg a 30.12.2012 às 01:35

O conto condiz com o nome do tradutor. Coincidência que não é, aliás, rara.
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De José António Abreu a 30.12.2012 às 09:38

Talvez. Eu acho que a frase "Ele tem um emprego importante, muito trabalho, enorme responsabilidade, o país inteiro…" dá um segundo significado à coisa. Que transforma uma história aparentemente tonta numa sátira aos líderes políticos (neste caso, atendendo à referência ao uniforme, com antecedentes militares). Mas, enfim, mesmo que essa interpretação tenha razão de ser, não corta necessariamente a possibilidade de ser um conto 'xaroposo'.
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De dfg a 30.12.2012 às 18:03

A syropada reside nessa descoberta súbita de que o marido é um idiota (em si um lugar comum - e habitual). Não acredito que esse tipo de descobertas maritais não sejam precedidas de premonições.
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De José António Abreu a 30.12.2012 às 20:06

Atendendo às ilusões que tanta gente parece manter sobre tanta gente, não tenho a certeza... Quanto ao lugar-comum, é verdade mas talvez se possa dar um ligeiro desconto considerando que o conto tem cerca de 60 anos. (Sendo já na altura um lugar-comum, sê-lo-ia um pouco menos...)
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De José António Abreu a 30.12.2012 às 20:34

E, já agora, veja se prefere, do mesmo autor e livro:

Uma desilusão amorosa: quando um necrófilo descobre que a parceira está apenas em coma.
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De dfg a 31.12.2012 às 03:14

Prefiro... mas é uma malvadez a fechar o ano.
Apenas uma observação: e crê que há 60 anos as pessoas viviam na idade da inocência? Nunca houve tal coisa. Não há começos puros, simplezas, primevas coisas chãs.
Um bom ano de 2013.
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De rmg a 30.12.2012 às 21:32


Confirmo agora que é um adepto do humor negro .

De resto já suspeitava pois este escritor , há 60 anos , era ele próprio um bom exemplo desse tipo de humor como pessoa .
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De José António Abreu a 30.12.2012 às 22:35

Eu não lhe chamaria humor. Algumas posições dele eram pura e simplesmente asquerosas. Mas, enfim, há inúmeros bons escritores (e até grandes escritores) cujas ideias políticas, sendo de esquerda ou de direita, estavam longe de ser recomendáveis.
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De rmg a 30.12.2012 às 23:30


Por isso falei em adepto , um adepto não é um jogador .
Mas este não é decerto um bom nem muito menos um grande escritor , se fôsse já teríamos dado por isso todos aqueles que lêem livros há mais de 50 anos (nessa altura em francês , era o que havia).

A propósito deste caso não percebi ainda se , neste afã de descobrir "talentos perdidos" que vem atacando as editoras (o mesmo se passa com a música) tudo o que vem à rede é peixe e quanto mais "choque" melhor .
O problema é que o "choque" se banalizou e já nada choca , excepto porventura a estupidez quando levada a extremos ...

Quanto às ideias políticas pouco recomendáveis estamos de acordo , venham de onde vieram .
Mas o seu post falava deste senhor e não de outro .
E portanto é deste que eu falo .
Se um dia falar de outro no extremo político / moral / ético oposto comentarei exactamente o mesmo .
Uma boa noite para si

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