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Muito cedo na vida é demasiado tarde

por Pedro Correia, em 20.12.12

Despedi-me ontem de uma tia na solidão cinzenta e gélida do crematório dos Olivais. Enquanto espreitava em fundo a estrutura arquitectónica que Santiago Calatrava concebeu para a Gare do Oriente e a feia floresta de cimento em que se transformou o Parque das Nações, ia pensando nos retratos que me habituei a ver desta tia nos velhos álbuns de família. Era uma mulher muito bonita, que nas décadas de 40 e 50 posava para as máquinas fotográficas como réplica das estrelas de Hollywood tão populares nessa época.

Olho hoje estas imagens e parecem-me saídas de uma era muito mais remota, envolta em névoa, em flagrante contraste com estes vertiginosos dias que vivemos.

 

Eram quatro irmãs - entre elas a minha mãe. Elos de uma família muito unida, embora espalhada pelas mais diversas paragens do globo. Esta tia era a primogénita - e também foi a primeira a partir, em sintonia com um princípio que devia ser obrigatório: sai mais cedo de cena quem primeiro cá chega.

Infelizmente não foi assim no caso dela: há quatro anos, de forma inesperada, morreu-lhe um filho, o mais velho, o primeiro de um clã de dez primos direitos de que faço parte, espécie de irmãos em segundo grau - sempre nos vi assim, sempre assim nos verei.

Quando o Zé embarcou na grande viagem sem regresso todos percebemos que ela, de algum modo, desistiria também de viver. A natureza é inclemente por definição. Mas nada é tão impiedoso como uma mãe que se vê condenada a enterrar um filho.

Ela assim o fez - destruída por dentro, aparentemente indestrutível por fora. Desde aí foi-se deixando entregar à morte aos poucos, como se cada folha suplementar do calendário já não lhe pertencesse por inteiro.

"Somos pó", ensinou-nos o salmista. Do pó viemos, ao pó voltamos.

 

Enquanto o sacerdote recitava as palavras que dos padres sempre se esperam, eu ia lembrando as imagens desta tia nos álbuns fotográficos. Em criança, adolescente, jovem adulta. Com os pais e as irmãs. Em Coimbra, na Figueira, nos anos felizes decorridos sob o sol africano, nas férias esporádicas na aldeia da Beira Baixa. Na última fotografia em que as quatro estão juntas, no dia do casamento dos meus pais, na Sé de Castelo Branco.

Tempos felizes, perpetuados nestas imagens a preto e branco. Com sorrisos rasgados para a eternidade, no tempo em que os dias se mediam pela imensidão dos sonhos. Elas voltaram a reunir-se muitas vezes depois disso. Mas nunca mais as quatro em simultâneo, nunca mais com uma máquina fotográfica a servir de testemunha, nunca mais com aqueles irrepetíveis rostos juvenis transbordantes de felicidade.

 

Partiu de vez, esta tia professora. Mas já tinha partido antes, de algum modo, sem se conformar com a despedida do filho piloto da Força Aérea, que não esperou por ela para abraçar a eternidade.

Na minha infância, só esporadicamente a encontrei. O meu avô era militar, revejo-o de farda imaculada nas fotografias, cumprindo várias comissões em África. As filhas receberam no berço este vírus da errância. Desde miúdo me habituei a ter parentes no Brasil, na América, em Cabo Verde, em Angola ou Moçambique. Uma das minhas tias nasceu em Malange, outra casou na Beira. Os meus pais viveram em locais tão diversos como a Alemanha ou Timor. As casas de todos nós tornaram-se inesgotáveis repositórios de recordações colhidas em cada destino perseguido e encontrado. Portugueses, cidadãos do mundo: transporto comigo este código genético, como uma espécie de tesouro íntimo. Vale mais do que todo o dinheiro à face da Terra.

 

Enquanto os funcionários da agência funerária desempenhavam a sua missão com sóbrio zelo, eu ia-me lembrando de duas prendas de aniversário que esta tia me deu. Um livro quando fiz nove anos, outro quando fiz dez. Antes disso, depois disso, ela estava a milhares de quilómetros de distância - em Díli, em Vila Luso, na Cidade da Praia - porque o marido, também militar como era o pai dela, meu avô, estava quase sempre longe. E ela esteve sempre com ele: foi um casamento de meio século, daqueles à moda antiga, que só se desfaziam quando um deles se cansava de viver.

Duas singelas prendas que jamais esqueci.

Não era muito de oferecer presentes, a minha tia. Mas por vezes basta um livro passar de uma mão adulta para uma mão de criança para que esta se lembre vida fora desse objecto como uma janela aberta aos inesgotáveis mistérios do mundo.

 

No crematório, tudo se conclui com eficiência mecânica: minutos volvidos, eis-nos devolvidos ao frenesim rotineiro da cidade. Encaminho-me a pé para o Parque das Nações pensando numa frase de Marguerite Duras: "Muito cedo na vida é demasiado tarde." Uma frase que fica a ecoar dentro de mim como um doloroso dobre de sinos neste agreste e melancólico Natal.

 

Imagem: interior do crematório dos Olivais, Lisboa (do blogue Lisboa S.O.S.)

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27 comentários

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De maria torres a 20.12.2012 às 22:39

Os meus sentimentos, doi perder alguem que amamos ainda para mais em época de festas em que se reune a familia. Por coincidencia, ou devido à pequenez do mundo, minha mãe e minhas irmãs também nasceram em Malange. Como se chama sua tia nascida em Malange?
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De Pedro Correia a 23.12.2012 às 21:03

Chama-se Sílvia Mendes Correia (nome de solteira). Obrigado pelas suas palavras.
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De anabela a 20.12.2012 às 22:40

Um texto belíssimo.

Um abraço Pedro.

Anabela
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De Pedro Correia a 23.12.2012 às 21:07

Obrigado, Anabela.
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De CNS a 20.12.2012 às 23:40

Belíssimo, Pedro.
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De Pedro Correia a 23.12.2012 às 21:09

um postal de despedida para alguém que nunca o lerá. (obrigado, Cristina)
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De da Maia a 21.12.2012 às 00:18

Bonito opúsculo de memória partilhada.
Digo bonito, porque tem o tom familiar adequado.
E por ser familiar, não lhe posso dar parabéns, mas apenas agradecer a abertura de sentimentos.
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De Pedro Correia a 23.12.2012 às 21:09

Eu é que agradeço as suas palavras, Da Maia.
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De Ana Vidal a 21.12.2012 às 00:25

Um Natal mais triste para ti, num ano já tão difícil. Mas pelo menos recheado de boas memorias.
Um beijo, Pedro.
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De Pedro Correia a 21.12.2012 às 13:12

Obrigado, Ana. Aproveita bem esta pausa natalícia. Beijinho.
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De Desconhecido Alfacinha a 21.12.2012 às 08:34


Meu caro,

Forte abraço.

(Tomei chá com a M. Isabel G. à 15 dias. Falamos - preocupados - de si)
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De Pedro Correia a 23.12.2012 às 21:10

Agradeço-lhe a preocupação, meu caro. Um abraço amigo.
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De Leão do Fundão a 21.12.2012 às 10:45

Amigo Pedro:

Os meus Sentidos Pêsames. (Dia 15 também perdi a mais velha das minhas tias (97 Anos).Foi sepultada num cemitério de aldeia lá da Gardunha.

Um abraço e um 2013 melhor que 2012

Leão do Fundão
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De Pedro Correia a 23.12.2012 às 21:13

Bonita idade, 97 anos. Na vertente da Gardunha - que tão bem conheço - a Senhora sua tia abraçará melhor a eternidade, creio bem.
Agradeço e retribuo as suas palavras de condolências, meu caro. E também eu faço votos para que o nosso 2013 seja melhor que 2012.
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De Eduardo Louro a 21.12.2012 às 15:43

Parabéns e pêsames são como a água e o azeite. Não se misturam, não dá para misturar.
Mas não sei - Pedro - dar-lhes os pêsames pelo falecimento da sua tia sem lhe dar os parabéns por este belíssimo texto.
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De Pedro Correia a 23.12.2012 às 21:16

Muito agradecido, caro Eduardo.
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De Nuno Pereira a 21.12.2012 às 16:32

Apesar da nostalgia e da dor de perder uma pessoa da família, Natal é sempre Natal!

O Natal mexe com o mundo!
Pára guerras, aproxima ferozes inimigos.
Amansa as multidões
E eleva os nossos corações!
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De Pedro Correia a 23.12.2012 às 21:17

Pudesse sempre ser assim, caro Nuno.
Feliz Natal.

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