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Procurai, que diabo!

por Gui Abreu de Lima, em 12.12.12


A tua guerra, essa luta que travas contra todos a quem chamas oponentes, é só tua. Começou, eras menino. Houve uns olhos que te olharam e a denunciaram, um coração em desespero que a partilhou contigo, uma boca que não conseguiu calar a voz amargurada da angústia. Há muitos homens em combate como tu. Que arremessam pedras, disparam tiros e põem bombas durante uma vida inteira. Em toda a esquina topam o inimigo, em cada alma auguram o traidor. Carregam desde meninos a dor de alguém que amaram, devolvem-na ao mundo, espalham-na à volta, sem nunca duvidarem do que sentem. Erguem o indicador sobre quem estiver à mão, ignorando nesse gesto os quatro dedos que apontam em sua direcção. Vem de longe a guerra. Destrói o teu mais intenso amor, a tua paz, a fraternidade que tanto apregoas. Há muito, muito tempo, eras tu tão pequenino, e foi profundamente injusto, insano, inconsequente.

Homens, procurem a origem do vosso inferno. A razão da vossa guerra. Revejam o que vistes em meninos. De que misérias fostes testemunhas caladas, entre os jogos de bola, o caminho da escola, os fins de tarde, as manhãs de sábado, os passeios de domingo, a ida à missa? Na vossa cama, à mesa de jantar, no silêncio aterrador da madrugada? Do que sentistes, talvez não tereis lembrança. Ou surgirão vagas recordações de uma criança amedrontada. Mas ficai certos: dentro de vós, como num papiro milenar, estão todas as vivências impressas ao pormenor. Têm a forma de terríveis consequências e poder sobre a vossa condição. Desabrocham como ervas entre as vossas opiniões, acções, reflexões. Toldam o timbre das vozes e manipulam os gestos mais naturais. Homens, não se detenham. Procurai a origem do vosso inferno, a razão de toda a guerra.


6 comentários

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De Bartolomeu a 13.12.2012 às 08:55

Este post merece um comentário em rima:

Quando o meu tempo findar
Não enterres o meu corpo.
Entrega-o sim, mas ao mar
Sê do meu desejo arquétipo.

Não quero que bichos o comam,
Nem que a terra o desfaça.
Quero que os fundos recolham,
Os restos d'esta barcaça.

Quero o seu descanso eterno,
Entre as algas e corais.
Como que ao ventre materno,
Voltando pelos seus ais.

Quando o meu tempo findar.
Entrega-o naquela morada.
Sem esquife, ou cortejo a acompanhar.
Só o corpo, nu, sem mais nada!

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De Gui Abreu de Lima a 13.12.2012 às 12:05

bonito, obrigada, Bartolomeu. mas não esperes pelo fim, nem que te dispam quando essa hora chegar. tira a roupa enquanto cá andas, tira-a tu, mostra os pêlos do peito, pá, mesmo que os não tenhas :)
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De Bartolomeu a 13.12.2012 às 14:25

Não sei se sucedeu por acaso; a minha melhor experiência física e espiritual, sucedeu precisamente na praia do Meco.
Desde muito cedo, despi-me de tudo o que me impedia ver o mundo e quem o preenche, de forma natural.
Tive um excelente mestre, o meu pai. Homem simples e com uma visão claríssima. Tomara eu...
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De Gui Abreu de Lima a 13.12.2012 às 16:01

nota-se que você é sortudo e precoce. bem aventurados os que deram os primeiros passos sem nevoeiradas.
eu cá, embora teoria não me falte - mas como diz o escritor de hoje, Wilhelm Dilthey, «Tudo o que o homem é, só o experimenta através da história.» -
só aprendo se virar e revirar bem as pedras do meu caminho. e ainda que os outros lá topem uns bicharocos, parecem-me sempre inofensivos, taditos. até morderem, pois :)

um abraço !
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De Anónimo a 14.12.2012 às 13:22

http://www.youtube.com/watch?hl=en&v=CkmIbjJr1n0

xu@c!
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De Gui Abreu de Lima a 14.12.2012 às 15:06

Zelinha, Zelinha, bota pa quebrar ... o gelo ;)

beijo-le @nómino, também

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