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O caso da enfermeira.

por Luís Menezes Leitão, em 10.12.12

 

O caso da enfermeira revela a meu ver duas coisas. Em primeiro lugar, uma grande ingenuidade da própria, e em segundo lugar uma enorme falta de sensibilidade dos jornalistas, que, ao se depararem com essa ingenuidade, deveriam ter imediatamente posto termo à brincadeira. 

 

Há uns anos aconteceu um episódio absolutamente ao inverso. O papa João Paulo II telefonou para um hospital suíço, apresentando-se com um "daqui fala o papa". A resposta que ouviu da enfermeira foi: "se o senhor é o papa eu sou a imperatriz da China". Passando algum tempo a situação foi esclarecida. Era mesmo o papa que pretendia saber notícias de um bispo suíço, seu amigo, que tinha sido internado de urgência nesse hospital. Naturalmente que a reacção normal de qualquer enfermeiro é duvidar que está a falar com uma pessoa famosa. A enfermeira Jacintha Saldanha era ingénua ao ponto de admitir que a rainha lhe ligaria pessoalmente para saber da Duquesa de Cambridge e cometeu a atitude — grave para os padrões de um hospital — de transmitir dados de saúde dos pacientes ao telefone. Provavelmente por isso estaria na iminência de receber uma punição disciplinar severa.

 

Quanto aos jornalistas, quiseram fazer de facto uma brincadeira. Segundo eles, estavam à espera que lhes desligassem o telefone na cara. Mas quando isso não aconteceu, a meu ver deveriam ter terminado imediatamente com a brincadeira, antes de lhes revelarem os dados de saúde. Não só tinham o dever de não explorar a vida privada de terceiros, mesmo pertencendo à família real, como também tinham obrigação de saber as consequências para a enfermeira da sua actuação. Não podiam prever a sua morte, mas podiam prever as consequências disciplinares e de vexame público à escala global que a enfermeira sofreria.

 

Efectivamente, a enfermeira tornou-se alvo de chacota mundial pela sua ingenuidade. Mesmo que o hospital não a tivesse sancionado, sabia que nunca poderia dissociar do seu nome a indiscrição que tinha cometido em relação a uma paciente famosa. E neste mundo indelével da internet até lhe seria negado o direito a esquecer esse episódio infeliz da sua vida. Não sei se se suicidou por esse motivo, mas acho muito provável que o tenha feito.

 

É por isso que acho absolutamente impróprio o comportamento dos jornalistas que quiseram explorar essa ingenuidade da enfermeira para efeitos de diversão dos seus ouvintes. Pirandello fez uma vez uma análise do D. Quixote de Cervantes, que acho absolutamente apropriada a este caso. Segundo ele o D. Quixote tem cenas absolutamente hilariantes, mas os leitores não riem, e é nisso que está o génio de Cervantes. Tal sucede porque a figura de D. Quixote provoca nos leitores um enorme sentimento de piedade e essa piedade impossibilita o riso. Foi esse sentimento de piedade que me parece que faltou aos jornalistas neste episódio.

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30 comentários

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De Pedro Barbosa Pinto a 10.12.2012 às 18:42

IRRA!
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De Cristina Torrão a 10.12.2012 às 18:50

Nesta fotografia, ela tem uns olhos tristes. Muito tristes!
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De Maria Madeira a 10.12.2012 às 19:03

Acho lamentável a situação. Mas tenho uma opinião um pouco diferente em relação a tudo isto, e vale o que vale.

Primeiro acho muito estranho que uma gravidez, apesar de ser uma gravidez «real» suscite tanto interesse nas pessoas. Posso estar a ser ingénua, mas realmente existem assuntos, que por muito que tente compreender, não compreendo. Burrice provavelmente. Telejornais em horário nobre a «abrir» com as indisposições e idas ao médico e coisas semelhantes, não têm a meu ver qualquer interesse. Mas isto sou só eu, que não acho particularmente interessante a vida de princesas e reis e rainhas e tudo o que use coroa no alto da cabeça.

Em relação à enfermeira não entendo o motivo do suicídio (se é que foi suicido ) quando se tem dois filhos. Mais importante é estar vivo para acompanhar e ajudar os filhos, que qualquer tipo de vexame, que numa dada altura se atravesse no caminho. A vida não é justa. Nunca foi e palpita-me que nunca o será. Cabe-nos a nós estabelecer prioridades. E a prioridade neste caso seria não abandonar os filhos. Os outros que se lixem (perdoe-me a expressão).

Em relação aos radialistas, acredito francamente que estivessem à espera que lhes desligassem o telefone na cara, ou então que falassem primeiro com um qualquer superior hierárquico. Não estiveram bem. Com certeza que não. Ninguém tem dúvidas disso. Acho que o futuro já se encarregou de lhes organizar a vida, e mostrar, e provavelmente de forma bastante dura, que num dado momento no passado, embora a intenção fosse outra, não procederam da melhor forma.
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De Luís Menezes Leitão a 11.12.2012 às 12:38

Concordo inteiramente com o seu post e também acho que ninguém se deveria suicidar quando tem dois filhos que necessitam de apoio. Mas imagine a situação de uma mãe que provavelmente vai perder o emprego que tinha num hospital e que seguramente mais nenhum hospital irá contratar no futuro por ter cometido uma indiscrição em relação a uma paciente famosa. Imagine que essa mãe vai ter que explicar aos filhos que tudo isso aconteceu por ter sido ingenuamente apanhada numa brincadeira. Uma pessoa frágll se calhar não resistiria.
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De Pois a 11.12.2012 às 12:49

E imagine que, de cada vez que fosse atender o telefone, algum colega mais engraçadinho lhe dissesse sempre "Se calhar é a Queen" ou lhe passassem telefonemas dizendo "A Queen quer falar contigo". Seria de arruinar o sistema nervoso a qualquer pessoa...
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De Maria Madeira a 11.12.2012 às 21:28

Quando se tem filhos, penso que é nos filhos que se deve pensar sempre. Se essa foi a nossa escolha. E a nossa escolha, também tem de passar por explicar, que os pais também erram, e que por vezes não se orgulham que num determinado momento da vida não foram brilhantes. Mas viver é isso mesmo. Passar aos filhos a ideia de que, mal a vida, duma forma algo caprichosa resolve rir na nossa cara, nós baixamos os braços e desistimos e até desistimos para sempre, não me parece digno e merecedor de alguém que ande com a palavra mãe ou pai pendurada ao pescoço.

É a tal história e perdoe-me a frase feita: se a vida nos dá limões...
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De Subscrevo a 10.12.2012 às 20:52

E mais, os meus olhos nem puderam acreditar no que li aqui em post anterior sobre este triste acontecimento.
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De Isabel T. a 10.12.2012 às 20:52

Já ouvi e li muitas opiniões sobre este caso,mas esta é sem duvida a mais justa.(a meu ver ).
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De c. a 10.12.2012 às 20:57

Parabéns pelo texto.
Uma mínima discordância: a Duquesa de Cambridge tem direito à sua intimidade, mas a sua saúde (e a da criança que espera) não é privada.
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De Luís Menezes Leitão a 11.12.2012 às 12:39

Não ocupando ela qualquer cargo público, a sua saúde e a da criança é indiscutivelmente matéria privada.
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De Anónimo a 11.12.2012 às 13:32

Tem cargo público, é a Duquesa de Cambridge, mulher do herdeiro do trono, até indicação em contrário, será mãe de futuro herdeiro, com actividade pública relevante, dentro daquilo que são as funções da posição de nobreza que ocupa: tem direito à sua intimidade, mas a sua saúde (e a da criança que espera) não é privada, no mínimo é do interesse de Estado, que é o Reino Unido
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De A Bomboca Mais Gostosa a 10.12.2012 às 22:29

Como concordo. Fiquei mesmo com pena da senhora. É verdade que foi de uma ingenuidade tremenda, mas as brincadeiras têm limites.
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De Patrícia Reis a 10.12.2012 às 23:21

De manhã, muito cedo, o que se escrevi nos blogues e jornais on line era uma versão com menos pormenores, mas estou com a Maria: não entendo a importância da gravidez, não entendo a teoria do suicídio (apesar dos olhos tristes, sim, muito tristes) e não entendo a opção dos senhores da rádio. Seja como for, pela manhã escrevi um post sobre o que se lia nos jornais on line e levei muito nas orelhas por dado ao post o tag: jornalismo de merda. Depois de ler este post e os comentários, mantenho o tag (e estou muito mais tranquila, afinal não estou maluca da cabeça).
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De Teresa Castelo a 11.12.2012 às 08:24

O post da Patrícia, apesar de ter saído um bocadinho "torto", teve a vantagem de colocar as questões certas. Por causa dele procurei informação em fontes mais próximas e credíveis e, veja só, ainda nem sequer se sabe se a Jacinta se suicidou.

Também não foi Jacinta quem deu as informações, mas sim a colega. Jacinta apenas atendeu o telefone, acreditou que era a Rainha de Inglaterra quem telefonava e passou a chamada. 2 dias depois foi encontrada morta. É apenas isso que se sabe. Tudo o mais são conjecturas.

http://www.bbc.co.uk/news/uk-20673899
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De Luís Menezes Leitão a 11.12.2012 às 12:42

Era a ela que competia fazer a triagem das chamadas, pelo que foi ela a cometer a indiscrição e quem seguramente iria ser responsabilizada. É verdade que sobre a sua morte só podemos fazer conjecturas, mas isso é assim relativamente a qualquer facto de não presenciámos. Podemos presumir o que se passou, tirando ilacções de factos conhecidos para demonstrar factos desconhecidos.
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De Pedro Almeida a 10.12.2012 às 23:31

Não sei até que ponto esta situação per si seria motivo suficiente para decisão tão radical, o mais provável seria ela já sofrer de uma depressão profunda e isto ter sido apenas a gota de água fatal.
No entanto, quem faz este tipo de brincadeiras tem que ter consciência não de que isso levaria a um suicídio, mas que talvez pudesse mesmo levar a alguém perder o seu emprego, essa hipótese já me parece bastante realista.

Quando eu era muito miúdo e na escola faziamos umas viagens de estudo/lazer, uma das recomendações que as educadoras sempre nos faziam antes de sairmos para a rua era a de que não se brinca com quem está a trabalhar, fosse o homem do talho, o varredor ou o polícia.
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De Brown Eyes a 11.12.2012 às 01:17

Brilhante este post!
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De Daniel Ferreira a 11.12.2012 às 07:22

"Não sei se se suicidou por esse motivo, mas acho muito provável que o tenha feito."
A não ser que tenha dons de adivinhação, ou formação em psicanálise, não pode tomar esta assumpção.

Acredito que esta "brincadeira" tenha despoletado algo sentimento individual anterior da Jacinta, que, a bem dizer, qualquer contrariedade mínima poderia despoletar.

A "brincadeira" é de mau gosto?! Talvez
A morte é culpa deles?! Nem por sombras
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De Luís Menezes Leitão a 11.12.2012 às 12:45

Eu, no caso deles, sentiria culpa pela morte da Jacintha, embora efectivamente a sua morte tenha sido decisão da própria. Mas o que é habitual na nossa sociedade é ninguém assumir a culpa de nada. Nem por sombras!

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