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Seguro deve escutar González

por Pedro Correia, em 03.12.12

 

A esquerda radical nunca perdoou o reformismo de Mário Soares. O fundador do PS descolou o partido da órbita comunista, integrando-o ainda antes do 25 de Abril como força autónoma da oposição à ditadura. Após a Revolução dos Cravos, Soares liderou o PS no combate ao extremismo esquerdista - e foi mil vezes atacado por isso. Enfrentou com sucesso as tentativas do PCP de hegemonizar a esquerda portuguesa, fez alinhar os socialistas com a social-democracia europeia, opôs-se aos militares radicais que após 1976 pretenderam manter a tutela sobre o poder civil, decretou políticas de contenção financeira quando esse era um imperativo patriótico destinado a evitar a bancarrota, encaminhou o País para a integração europeia e nunca hesitou em separar águas na defesa permanente da democracia representativa.

Este é o Soares que todos conhecemos. Já o Soares dos últimos anos, que parece querer transformar o PS numa espécie de partido irmão do Bloco de Esquerda, está irreconhecível. Porque desmente a todo o passo a sua própria biografia política - uma biografia que sempre se opôs ao "frentismo" de esquerda, ao aventureirismo extremista e a todas as tentativas de cortar o passo à democracia representativa, nomeadamente através da diminuição do papel do Parlamento no conjunto das instituições políticas portuguesas.

 

O Soares de 2012 diz coisas semelhantes às que o PCP disse dele quando foi Governo, entre 1976 e 1978, primeiro, e de 1983 a 1985, depois - dois mandatos que decorreram sob o signo da crise financeira e da intervenção de emergência do FMI para sanear as contas nacionais. Também os comunistas disseram então que Soares queria "destruir a democracia". Também os comunistas se apressaram a passar certidões de óbito aos governos que liderou. Também os frentistas de esquerda chegaram a propor Executivos "de iniciativa presidencial" sem o recurso a eleições, como mandam as boas regras democráticas. Também a esquerda radical lhe apontou por diversas vezes a porta da rua, para "mudar de política".

Bem fez António José Seguro, através do seu líder parlamentar, ao lembrar ao fundador do PS que os governos não caem por pressão das ruas ou de cartas abertas: a democracia tem regras próprias que devem ser respeitadas. Era isso, aliás, que o Soares das décadas de 70, 80 e 90 defendia - por vezes contra fortíssima pressão partidária e mediática. É isso que, estranhamente, o Soares de 2012 parece ter deixado de defender.

 

Tudo isto sucede quando outra figura de referência do socialismo europeu, Felipe González, recomenda aos socialistas espanhóis um percurso inverso ao que Soares hoje defende: em vez de um partido a caminhar cada vez mais para a esquerda, o homem que há 30 anos levou o PSOE a um triunfo esmagador nas urnas aconselha os seus pares a retomar a "vocação de maioria" para recuperar o centro.

"O PSOE [Partido Socialista Operário Espanhol] perdeu a vocação de maioria e tem de recuperá-la. Tem de conseguir isto encarando a sociedade e auscultando as suas necessidades. Não de forma sectária, mas com espírito de consenso." Palavras de González que Seguro deve escutar com atenção. Por estarem em linha com as teses do Mário Soares que venceu eleições em 1976, 1983, 1986 e 1991. Não com o Soares que saiu derrotado das presidenciais de 2006 e desde então parece caminhar em colisão com a rota que sempre traçou.

 

Imagem: Felipe González e Mário Soares (2010). Um quer hoje os socialistas a virar ao centro, outro defende um PS ainda mais à esquerda

 

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12 comentários

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De Emaudio a 03.12.2012 às 19:03

O Marocas defende um PS mais à esquerda ou debita baboseiras próprias de um geronte patarouco?

E depois em 1985 era ele quem dizia " Há pessoas em Portugal que vivem mal? Pois há! E não houve sempre? Há pessoas que passam necessidades? Pois há! E não passaram sempre?"

Mas vá lá, vá lá que ultimamente não o tenho ouvido a elogiar Hugo Chávez. Ah, é verdade, e deixou de falar do Hollande, porque será?
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De Pedro Correia a 04.12.2012 às 23:41

"Os problemas económicos em Portugal são fáceis de explicar e a única coisa a fazer é apertar o cinto" (Mário Soares, DN, 27 de Maio de 1984)

"A terapêutica de choque não é diferente, aliás, da que estão a aplicar outros países da Europa bem mais ricos do que nós” (Mário Soares, RTP, 1 de Junho de 1984)
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De Por Supuesto a 03.12.2012 às 19:22

Ora, vê-se perfeitamente que González liga muito mais ao smartphone que ao vizinho da esquerda (dele).
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De Pedro Correia a 04.12.2012 às 23:42

"Portugal habituara-se a viver, demasiado tempo, acima dos seus meios e recursos" (Mário Soares, RTP, 1 Junho 1984)

"O importante é saber se invertemos ou não a corrida para o abismo em que nos instalámos irresponsavelmente" (idem, ibidem)
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De portuguesacoriano a 03.12.2012 às 23:12

"Por qué no te callas ?"
Ora, esta ainda é fresca e é daquelas que pecam por não vingarem em força. Digo isto porque; condições mais favoráveis para tal, aos 36 anos ainda não tinha visto. (nada pessoal)
As teses não são nem nunca serão estáticas, as teses são teorias que, ou pertençam ao passado ou poderão eventualmente pertencer ao futuro. HOJE é presente, o presente é feito de pratica, uma acção que na sua maior parte é uma consequência, nada mais.
Pergunto para que serve atirar "pedras", para quê apontar culpas e culpados? Sim, creio que os há em sobra, tantos que ainda não consegui conhecer nada nem ninguém que não carregue uma parte disso.
Temos um problema, um problema sério, temos de o resolver.
Vivemos sim, com um estado social exagerado, abusado sem rumo e sem consciência. Vivemos sim, num pais com uma economia rarefeita a pormenores, e que tentam fazer destes, exemplos de uma boa estrutura, quando nem há estrutura.
Vivemos sim, num mundo globalizado, quando só agora, a caminho do fundo, nos demos conta disso.
É tarde, e ao mesmo tempo acredito que nunca é tarde. Unidos conseguimos subir, se não o fizer-mos agora, inevitavelmente vamos acabar por ter de o fazer. Para isso é preciso o quê? Chegar à fome e à Guerra, à morte e à destruição? É isso que somos: animais?
Nasci, e vivo nos Açores, estou um pouco afastado do centro, mas daqui não me sinto menos Português que qualquer um que mostre o que quer fazer por este país, aquele que tiver um plano e que seja Homem para nos unir na sua concretização, que se chegue à frente, ajudarei no que estiver ao meu alcance.
Agora, culpando ou desculpando por isto ou por aquilo, num andamento sem destino e de má toada... Não, não alinho em jogo sujo.
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De Pedro Correia a 04.12.2012 às 23:43

"[O desemprego e os salário em atraso], isso é uma questão das empresas e não do Estado. Isso é uma questão que faz parte do livre jogo das empresas e dos trabalhadores (...). O Estado só deve garantir o subsídio de desemprego" (Mário Soares, JN, 28 de Abril de 1984)
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De portuguesacoriano a 05.12.2012 às 12:33

A rota de colisão do Sr. Soares só demonstra que ideologias politicas são um mito e nada mais.
Ele, tal como toda a esquerda esta se aproveitando e simultaneamente alimentando a ira das massas para com isso levar o PS de novo ao poder. Ora numa crise destas, deviam estar todos unidos, mais depois de todos terem assinado o mesmo memorando e de todos terem errado nos termos desse mesmo memorando, pois deviam era ter vergonha em vez de andarem a fazer politica de porcos.
Pessoalmente acho que as reformas que este Governo, no qual penso que você faz assessoria, são boas e imponham-se já há muito tempo, mas estou convencido que elas pouco ou nada avançam e os lóbis continuam instalados. Estarei errado, quando julgo que a única coisa que se consegue são privatizações e rapar receitas a um povo pobre, o que consequentemente leva à destruição da economia interna?
Numa crise assim é estupidez a esquerda deslocar-se para o seu extremo, mas também foi, e é burrice da direita andar constantemente a apontar a culpa da esquerda, porque ao fim e ao cabo, todos os governos, depois de 74, contribuíram para o nosso presente.
Outro aspecto de toda esta trapalhada tem a haver com nosso P.R , quanto a mim devia ter um papel mais activo na união de todas as forças politicas e sociais, ao primeiro sinal de hostilidade devia ter chamado todos os que assinaram o maldito memorando e dar-lhes um grande puxão de orelhas, mas não, não o fez, com isso permitiu, a meu ver, para o desentendimento actual.
Agora a rota esta traçada, se não conseguirem implementar a reformas e relançar a economia até as próximas eleições é esquecer, pois todo este sacrifício será em vão, e nem tão cedo o PSD voltara a ser eleito.
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De Pedro Correia a 05.12.2012 às 16:46

"Pedi que, com imaginação e capacidade criadora, o Ministério das Finanças criasse um novo tipo de receitas, daí surgiram estes novos impostos" (Mário Soares, 1ª Página, 6 Dezembro 1983)
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De portuguesacoriano a 05.12.2012 às 20:30

Já li o post (esta bem trabalhado) e tambem li os links.
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De singularis alentejanus a 04.12.2012 às 10:00

Este senhor é como um qualquer produto de supermercado, está fora de prazo. Envie-se para o lixo, ou minimamente para a reciclagem.
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De Pedro Correia a 04.12.2012 às 23:44

"Anunciámos medidas de rigor e dissemos em que consistia a política de austeridade, dura mas necessária, para readquirirmos o controlo da situação financeira, reduzirmos os défices e nos pormos ao abrigo de humilhantes dependências exteriores, sem que o País caminharia, necessariamente para a bancarrota e o desastre"

(Mário Soares, RTP, 1 de Junho de 1984)

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