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Então não se está mesmo a ver?

por José Navarro de Andrade, em 29.11.12

Jackson Pollock, "Number 8", 1949

 

A arte contemporânea é difícil.

Talvez esta dificuldade tenha começado a sério com Jackson Pollock cujo trabalho consistia resumidamente em atirar com pinceladas de tinta contra a tela e deixar que ela escorresse. Para complicar vieram críticos dizer que se tratava de gestualismo, elaborando teses sobre as maravilhas dos resultados. E mais bizarro ainda, os seus quadros começaram a valer milhões e são disputados por todos os museus.

Perante isto uma pessoa tende a pensar três coisas: 1) que também eu sou capaz de fazer isto; 2) o que quer isto dizer? (porque as coisas nunca são o que são e só somos espertos se percebermos o que está por detrás delas); 3) que é evidente haver um sistema, mais ou menos perverso, feito de galeristas, colecionadores, críticos, museus e leiloeiros, que promove e consagra uns artistas e ignora outros, quando parece não haver qualquer distinção entre os “bons” e os “maus”.

A arte contemporânea é difícil porque só de olhar para ela não conseguimos discriminar o génio da impostura. E quando chegamos ao capítulo das “instalações” ou das “performances” a confusão aumenta desmesuradamente. Por exemplo, a não ser pelo nome dos envolvidos (artistas e patrocinadores) ou pelo volume dos recursos disponíveis, como haveremos de diferenciar qualitativamente isto (aplausos) disto (vaias)?

Por isso a maior dificuldade da arte contemporânea foi posta do lado do espectador não do artista. Até porque, como se sabe, o bom-gosto foi a coisa mais bem repartida pela humanidade, pois cada um está muito satisfeito com a parte que lhe coube. Como evitar a tentação da chacota? Como pode alguém não se indignar pela maneira como “eles” gastam o nosso dinheiro nestas coisas? Como não ver que tudo não passa de um bando de parasitas e oportunistas? Como não ter a certeza que estes gajos andam a gozar connosco?

Há uma forma de tentar resolver o problema só que é talvez tão difícil como a arte contemporânea:

Deixar-se intrigar, o que implica não ficar muito agarradinho às certezas adquiridas; procurar cultivar-se, o que obriga a ver, ler, discutir, ouvir, interrogar – uma trabalheira; suspender o juízo, duvidar dele, até que saiba um pouco mais.

E ainda assim a arte contemporânea continua a ser muito difícil.

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9 comentários

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De marta a 29.11.2012 às 14:14

a metáfora da aldeia da roupa branca: tudo o que aqueles micros hão-de gravar é o vernáculo próprio das gentes nortenhas, que muito provavelmente recairá sobre o próprio autor da instalação... nunca dali sairá uma beatriz costa lavadinha e afinadinha :) e parece que estou a ouvi-los: o car...piiiiiiiiiiii do cabr..piiiiiiiii deste mangano ainda nos fod....piiiiii mais o caminho com estas porr......piiiiiiiii destas cadeirinhas! fod.......piiiiiiiiiiiii

(eheheheh, há gajos malukos e depois há os outros, que pagam aos gajos malukos, eeheheheh)
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De José António Abreu a 29.11.2012 às 14:54

A não necessidade (ou, pelo menos, a dispensa) de explicações longas, presunçosas e incoerentes talvez seja um começo.

Já agora, a série Unilever é patrocinada pela Unilever. Se alguma empresa privada quiser patrocinar o artista das camisas e dos dióspiros, que esteja à vontade, não?
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De da Maia a 29.11.2012 às 15:53

"Beauty is in the eye of the beholder", adaptado ao comércio artístico contemporâneo:
"Art value hids in the pocket of the buyer".
Houve uns gajos na Holanda do Séc. XVII que de uns bulbos de túlipa fizeram fortunas. São praticamente os mesmos tipos que decidem quem merece aplausos ou vaias artísticas, o que vale e o que não vale, quem tem crédito bancário e quem não tem... já andam nisto há alguns séculos e sabem muito bem o que fazem. Seguem dentro de alguns limites, mas por vezes abusam... foi o caso da arte moderna.

De resto, estou de acordo até ao parágrafo final... as tangas constituem uma arte em si mesmo, e não se aplicam só a quadros, a ciganice retórica é velha.

Para que conste, pendurava este do Pollock na sala, se tivesse crédito para o sacar de quem o tem. Eu não tenho, mas há quem tenha, e não é porque o tenha, é porque os outros estão convencidos que o tem.
E isto não é ciganice retórica...
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De Dacordo a 29.11.2012 às 16:30

Concordo, mas realmente "suspender o juízo, duvidar dele, até que saiba um pouco mais" quando se topa com um cromo de anedota como aquele que se inspira nos dióspiros (ou se dióspira nos inspiros, já nem sei ao certo) é pedir um pouco "desmasiado".
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De CeC a 29.11.2012 às 18:46

Convenhamos, José, que juntar num texto Pollock - do qual me admito eterno fã; tendo por casa o seu 'delicioso' nº 32, que mais parece um embate de dripping com um estilo de caligrafia abstracta - com arte plástica "sem sal" como "Vi:Ela Sentada", acaba por ser bastante díspar.

Admito que a minha ponderação e apreciação da arte contemporânea se mantém num balançar entre um subtil estoicismo e um arrepiante jogo dos sentidos. Muito ao jeito dos cheiros que nos afectam as memórias, também a arte tem uma capacidade inata para nos estimular não só recordações como também de romper os limites da nossa percepção. Imagino que para que tal efeito ocorra não só terá de haver uma aprendizagem empírica - como bem referiu - como igualmente uma impactante noção de auto-conhecimento.

Em jeito de agradecimento pelo tema - e espero que mais vezes o traga à baila - partilho alguns artistas contemporâneos que tenho acompanhado nos últimos tempos, e que se não os conhecer ficam apresentados:
Irena Gendelman
Lucio Olivieri
Ng Woon Lam
Hilo Chen
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De Luís de Aguiar Fernandes a 29.11.2012 às 19:23

E dessa dificuldade surgem questões como aquela de que falei aqui: http://manifestacaoespontanea.blogs.sapo.pt/78075.html .
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De fgh a 29.11.2012 às 21:04

O seu post é um bom exemplo de como se podem misturar perguntas pertinentes com outras totalmente irrelevantes.
Mas como fala de arte e bom gosto...
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De Ana Vidal a 29.11.2012 às 22:22

Há outros critérios, patrício. Mais anarcas, claro, mas também mais seguros: se a arte é uma provocação às emoções, um desafio ao auto-conhecimento e ao conhecimento do mundo, e um convite a pormos em questão os velhos dados adquiridos (é assim que eu a vejo, pelo menos), que cada um se guie pelo seu próprio gosto ou desgosto, ou seja, por aquilo que o toca particularmente. Bem sei que há os consensos dos gurus de serviço (que tendem a ser mais benevolentes quanto mais tempo passar sobre os nomes e as respectivas obras), e que o mercado de arte tem as suas próprias regras e interesses. Mas, se a ideia é a fruição e não o investimento, então não é assim tão difícil escolher.

(claro que tens razão no que dizes: procurar, ver e conhecer o mais possível, alarga os horizontes e facilita a escolha)
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De lucklucky a 30.11.2012 às 02:22

A maior parte da arte "contemporânea" não o é. É apenas novidade, choque por si mesmos ou natureza/acaso.
Não tem qualidades para além disso.
O quadro de Pollock é um exemplo disso.

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