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De vez em quando, sigo de relance uma telenovela portuguesa - daquelas que me garantem ter "imenso sucesso" e serem acompanhadas devotamente, noite após noite, por audiências dos mais diversos segmentos sociais.

Tendo sido espectador regular das primeiras telenovelas que se produziram em Portugal - Vila Faia, Origens, Chuva na Areia -, sinto curiosidade em perceber a evolução do fenómeno. Mas facilmente me decepciono. E volto a passar meses sem espreitar nenhuma.

 

Em primeiro lugar, há muito mais glamour do que havia nos tempos pioneiros da Vila Faia. Agora elas são quase todas muito novas, muito giras e muito produzidas. Não há caras feias, quase não se vislumbra ninguém com rugas e as variações geracionais dos protagonistas são mínimas. Não estamos perante um simulacro da realidade: estamos perante a sua distorção.

 

Em segundo lugar, vejo pouquíssimos actores - daqueles calejados em anos de trabalho nos palcos ou na tela. Os papéis parecem exigir apenas intérpretes muito jovens, de carinhas larocas, gente 'formada' nas passarelas da moda e não no Conservatório, numa espécie de Morangos com Açúcar em versão perpétua.

 

Em terceiro lugar, todas as personagens falam com sotaque de Lisboa - muito 'tá em vez de está, muito te'fone em vez de telefone. A direcção de actores que tão bem fez trabalhar sotaques e pronúncias na primeira telenovela da SIC, A Viúva do Enforcado, andou para trás de então para cá e hoje é possível escutarmos uma pretensa açoriana ou uma suposta portuense dizer 'chtamoch em vez de estamos ou mêmo em vez de mesmo, como se fosse transplantada do eixo Lisboa-Cascais.

Disparate? Pois é. Mas ninguém parece reparar. E dirigir actores dá trabalho, leva tempo e custa dinheiro: o melhor é não se pensar nisso.

 

 

Em quarto lugar, reparo que o verdadeiro protagonista é o sofá da sala. Vivem quase todos em casas com salas enormes, mobiladas com sofás a perder de vista, onde 80 por cento dos diálogos se desenrolam. Curiosamente, parecem morar todos em vivendas ou duplexes: se repararem com atenção, encontram sempre uma escadaria interna no décor. Outra curiosidade: não existem átrios, antecâmaras ou corredores: por mais luxuosa que seja a residência, entra-se directamente da porta da rua para a sala de estar.

 

Em quinto lugar, e apesar de quase todas as cenas ocorrerem dentro de portas, o guarda-roupa é sempre próprio de quem está fora. Nada de roupões, de T-shirts de alças, de pijamas, de calções, de pantufas ou chinelos. Elas estão sempre em casa de vestido e salto alto, eles jamais despem o casaco ou afrouxam sequer o nó da gravata. Todos são incapazes desse gesto tão comum (e para mim obrigatório) que é descalçar os sapatos da rua assim que entram em casa.

 

Em sexto lugar, abundam padres de sotaina e cabeção, à moda antiga, sopeiras fardadas e até mordomos de libré, como nos filmes ingleses dos anos 30. Nada mais démodé, em perfeito contraste com o tom pretensamente modernaço da maior parte das telenovelas.

 

Em sétimo lugar, é frequente ouvirmos os patrões tratar os empregados por tu, como se fossem todos antigos latifundiários alentejanos antes do 25 de Abril. Nada mais anacrónico.

 

Em oitavo lugar, é impressionante o número dos que não trabalham. Aliás, o mundo do trabalho está praticamente ausente das telenovelas. À luz do dia, as personagens passam o tempo a entrar e a sair das respectivas casas. Raras vezes o local de trabalho é ponto de encontro e são escassos os protagonistas que desenvolvem alguma actividade profissional credível. Há dias vi até um "jornalista" estendido no inevitável sofá a dizer à mulher ou namorada que acabara de escrever uma "crónica" que lhe dera imenso trabalho e estava já a pensar na "crónica" do dia seguinte embora estivesse com uma aflitiva falta de tema. É tocante esta forma como o quotidiano dos jornalistas surge nas novelas da TV - qualquer semelhança com a realidade não passa de coincidência.

 

 

Em nono lugar, os diálogos. Têm todos a espessura de uma banal troca de mensagens de telemóvel. Recentemente, ouvi numa telenovela da Globo a expressão "custar os olhos da cara" e achei quase insólito que surgisse num diálogo de ficção televisiva. Porque as telenovelas portuguesas só raras vezes - quase por descuido - recorrem às saborosíssimas e tão genuínas expressões idiomáticas do nosso idioma, sedimentadas através das gerações: preferem os diálogos sincopados, cheios de termos monossilábicos, na concisa fraseologia lisboeta contemporânea, incapaz de ultrapassar uma centena de vocábulos.

Daí proliferarem diálogos do género:

- Como 'tás?

- 'Tou bem. E tu?

- Tudo OK. 'Bora lá?

- Fixe. 'Tou nessa.

Já para não falar no clássico dos clássicos do género: entra Beltrana na casa de Sicrano e diz: "Temos de falar".

 

Em décimo lugar, os pequenos-almoços. Só nas novelas televisivas há tempo, oportunidade, sincronia e paciência para todos os ocupantes da mesma casa tomarem a primeira refeição do dia pausadamente sentados em lautas mesas onde nunca faltam grandes jarros com sumos de frutas tropicais, como se estivessem hospedados em hotéis de luxo.

Ah, estas inesquecíveis cenas de pequeno-almoço: são um must divertidíssimo, embora absurdo, destas ficções que pretendem 'copiar' a realidade e afinal estão irremediavelmente longe dela.


54 comentários

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De Helena Sacadura Cabral a 26.11.2012 às 12:22

Pedro, eu que tinha deixado de ver telenovelas - confesso que, antes, só via brasileiras - depois deste teu texto, que me fez rir de verdade, fiquei altamente habilitada a discutir com quem quer que seja o tema da produção nacional.
Absolutamente delicioso!
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De Pedro Correia a 27.11.2012 às 01:55

Helena: só para ler este teu risonho comentário já valeu a pena ter escrito o texto.
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De Alexandre Carvalho da Silveira a 26.11.2012 às 15:04

Pedro, por uma questão de higiene mental não vejo telenovelas, mas acredito que o que escreveu corresponda à realidade telenovelistica das nossas tvs. Afinal estamos em Portugal, e gostamos de fazer tudo pela rama, e com o menor esforço possivel.
Quanto à Gabriela, já não concordo nada consigo. Admito até que esta versão esteja mais de acordo com o livro do Jorga Amado. Mas quando a 1ª versão foi feita, ele estava bem vivo e creio até que acompanhou a feitura do respectivo guião, que foi muito condicionado pela censura então em vigor no Brasil.
Comecei, cheio de expectativa, a ver esta nova versão da Gabriela, que depressa me desiludiu. Desde logo pelos actores, e falo apenas do Cor. Ramiro: o Faguntes é um excelente actor, mas não chega aos calcanhares do Paulo Gracindo, que construiu um personagem inesquecivel.
O que escreveu no "primeiro lugar" do post, assenta que nem uma luva a esta nova Gabriela.
Talvez um post sobre a Gabriela, esta e a outra, não fosse má ideia.

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De Pedro Correia a 27.11.2012 às 01:54

Caro Alexandre: sobre a 'Gabriela', tenciono escrever em breve. Já percebi que poderá haver polémica, o que é bom.
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De cr a 26.11.2012 às 15:48

O que eu adoro mesmo, é os tipos a transportarem grandes malões de viagem só com um dedo....

Na verdade também acontece por vezes nos filmes, eu até entendo que os actores não sejam obrigados a carregar malas com 20 kilos, mas pelo menos poderiam ter uma meia dúzia de kilitos, assim é que não.

Gostei da sua descrição. Em cheio!
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De Pedro Correia a 27.11.2012 às 01:51

Obrigado, CR. Essas das malas é já um clássico - e, como bem aponta, não exclusivo das telenovelas. Quando vejo isso num filme acho sempre graça. Tal como me divirto ao ver a cerveja a 'subir' num copo ou o cigarro maior na cena seguinte do que na cena anterior.
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De Visitante a 27.11.2012 às 10:28

http://pedrogarciarosado.blogspot.pt/2012/11/um-retrato-da-ficcao-televisiva.html
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De Pedro Correia a 27.11.2012 às 23:07

Obrigado pela dica. Não sabia que o Pedro Garcia Rosado tinha um blogue: vejo que surgiu recentemente. Já o inscrevi na barra lateral do DELITO.
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De Gaffe a 30.11.2012 às 11:12

Nenhuma telenovela (falo das portuguesas em particular) tem como objectivo retratar a realidade.
Roland Barthes fala deste fenómeno (em "Mitologias") com enorme clareza, trazendo para esta lide a "cozinha" que é fotografada pelas revistas da especialidade (ou pela Vogue) onde nada se prende com a realidade bruta, mas que colmata com eficácia aquilo a que chamou "manque", falta, falha.
A superação da frustração pode, segundo o autor, levar à craição do "mito".

É imprescindível ler este livrinho para se compreender bem melhor o fenómeno telenovelas.

É apenas uma sugestão.
:)
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De Pedro Correia a 01.12.2012 às 01:58

E que sugestão, 'Gaffe': só por si, daria direito a outro texto, complementar deste. Agradecido.
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De Alexandra a 01.12.2012 às 00:06

Concordo plenamente e há muitos outros porblemas. O guarda roupa é uma desgraça. Passam o verão inteiro com casacos de pele, não se lembram em que estação do ano passam as cenas que estão a gravar? As casas menos ricas têm a cozinha na sala. Quantas casas verdadeiras há assim em Portugal? E as janelas por todo o lado? se pensarmos um bocadinho percebe-se que naquela parede nunca poderia haver uma janela para a rua. Pais, filhos e netos quase todos da mesma idade. O chegar a casa estourado de um trabalho (que realmente ninguém percebe bem o que é) e servir-se de um whisky mesmo antes de fazer o que as pessoas normais fazem, como ir à casa de banho, descalçar, vestir algo mais confortável... Não é dizer mal do que é nosso, mas a verdade é que ainda estamos a anos luz dos brasileiros.
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De Pedro Correia a 01.12.2012 às 02:03

Tem toda a razão, Alexandra. Vários dos pormenores que sublinhou são de facto totalmente ridículos. O 'whisky' para "relaxar" do trabalho que ninguém imagina qual seja mal se chega a casa, vários membros da família quase da mesma idade, as janelas por todo o lado. E o guarda-roupa em geral é pavorosamente deslocado.
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De Manuel Joaquim Sousa a 01.12.2012 às 01:14

Por isso é que não aprecio telenovelas (a Gabriela é diferente), é a ficção na maior das suas farsas.

bloguedomanel.blogs.sapo.pt
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De Pedro Correia a 01.12.2012 às 01:59

De acordo consigo, Manuel: a 'Gabriela' é diferente. Tenciono escrever sobre este tema num dos próximos dias aqui no DELITO DE OPINIÃO.
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De gatinhapatricia a 01.12.2012 às 02:31

pelos poder de são cipriano (fulano )se afastara agora definitivamente de (fulana ),que ele não queira mais vela,nem falar ,que ela sinta nojo e odio de (fulano )e tambem não queira mais ve-lo nem falar com ele,que (fulano)sinta odio,nojo e não queira mais ver (fulana )numca mais na sua frente,que (fulano)não queira mais saber de (fulana),que ela tambem nao queira mais saber dele,que um não suporta o outro,que (fulano e fulana) nâo consiga mais nem se falar,que eles percam o contato definitivamente e que se odeiem para sempre.Sao Cipriano confio no seu poder e tenho certeza que meu pedido foi e sempre sera realizado.agradeço por estar trabalhando para mim e vou divulgar seu nome ,Sao cipriano em troca de atender o meu pedido de afastar (fulano de fulana).peço isso aos poderes de SÃO CIPRIANO.AMEM! publicar 4 vezes


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De Jorge de Freitas a 21.05.2016 às 02:53

As telenovelas não representam a realidade. Possuem uma estrutura própria. As 10 observações referenciadas neste 'post' descrevem, na perfeição, o 'modus vivendi' da sua estrutura. As radionovelas, precursoras das telenovelas, são originárias de Cuba. Quem se lembra ainda da radionovela portuguesa dos anos 60 'A Força do Destino' do Teatro Tide? Eram as empresas de sabões e mais tarde de detergentes (como o Tide) que patrocinavam, em geral, este género; daí que os ingleses lhe chamem 'Soap opera'. A escritora cubana Inés Rodena foi uma das percursoras deste género (Coração Indomável, A Usurpadora....) Pessoalmente, prefiro as telenovelas mexicanas por o seu conteúdo ser muito idêntico aos romances de Camilo Castelo Branco: muito sofrimento e amores impossíveis. Aproveito para referenciar que considero lamentável que a Netflix de Portugal não apresente nenhuma telenovela mexicana no seu catálogo, quando em outras regiões como no Brasil, México, Argentina, Costa Rica e Estados Unidos, disponibilize mais de vinte...
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De Pedro Correia a 21.05.2016 às 08:40

Obrigado pelas notas adicionais que aqui deixa a este meu texto já com quase quatro anos de existência, Jorge de Freitas. Esta é a vantagem e a força de um blogue como o Delito, que conserva orgulhosamente os conteúdos abertos desde o primeiro dia: a todo o momento qualquer leitor depara com qualquer texto e comenta-o se assim quiser.
A sua observação levou-me a decidir republicá-lo: reparo, ao relê-lo, que mantém plena actualidade.
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De Anónimo a 07.06.2018 às 23:30

horrível as nossas novelas , fracos atores , e quem as realiza . infelizmente os nossos profissionais estão a trabalhar so por cunhas ,acordem
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De Pedro Correia a 08.06.2018 às 07:35

Hei-de voltar ao tema.

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