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A verdade da política

por Teresa Ribeiro, em 08.05.09

Qual tropa de choque desfilando na passerelle, os políticos deixam-se vestir e pentear, treinam a forma de caminhar, corrigem posturas, escolhem vocabulário, colocam a voz, definem o perfil psicológico do seu alter ego e contam com a comunicação social para revelar ao mundo o produto em que se transformaram.

Por se ter recusado, obstinadamente, a alinhar neste circo deixei-me cativar por Manuela Ferreira Leite desde o primeiro minuto do seu consulado à frente do PSD. Não por afinidades "clubísticas" - não sou sequer simpatizante do PSD - mas por lhe reconhecer uma coragem e uma autenticidade que merecem a minha admiração.

Entretanto deixei-me ficar sentada para assistir ao espectáculo que certamente me iria proporcionar esta aposta política feita contra a corrente, calculando que não tivesse muito que esperar. MFL não era uma figura empática, o que à partida não lhe rendia muita popularidade. Se ao mesmo tempo desprezava as regras que são comumente aceites pela classe política, pondo em xeque os critérios dessa mesma classe, e afrontava quem exerce influência no sector marcando preceitos, estilos e agendas, habilitava-se, naturalmente, a ficar isolada.

Seria errado pensarmos que só a moda tem os seus estilistas. Os correspondentes na política aos criadores da agulha e do dedal que ditam "as tendências" são os mentores do lobby da "comunicação e imagem" uma área que foi ganhando influência e poder à medida que a sociedade se mediatizou.

O sistema tem os seus próprios mecanismos de defesa e é muito reactivo. As críticas a Manuela Ferreira Leite têm sido quase sempre desproporcionadas. Os seus erros - muitos - de comunicação têm sido potenciados por interpretações maldosamente literais (só por má fé alguém "acredita", por exemplo, que MFL tivesse mesmo defendido a suspensão da democracia por seis meses) ou reproduzidos exaustivamente pela orquestra que se forma sempre em torno dos que são escolhidos por alguns para levarem tareia de todos.

Mas se não me espantou a unanimidade da oposição dos lobistas e opinion makers mais engagées à nossa dama de ferro, confesso que a reacção do cidadão comum me levantava algumas dúvidas. Seria o Zé sensível à mensagem de honestidade que ela queria passar, já que o capital de queixa em relação aos políticos que "falam, falam, falam... e não fazem nada" parecia elevado depois da experiência do populista Santana Lopes à frente do governo logo seguido de um Sócrates que cedo se revelou pródigo a quebrar promessas eleitorais?

As sondagens até agora continuam a penalizar a líder do PSD. Como não acredito que o "Zé", cada vez mais alheado da espuma da política, seja muito sensível às gaffes de MFL, atribuo esta  impopularidade ao seu habitual défice de simpatia. Mas na hora da verdade o que pesará realmente na escolha ou na rejeição desta polémica senhora que decidiu, sabendo ao que se arriscava, correr à margem do sistema? É esta dúvida que a move enquanto cobaia da experiência a que se propôs. Uma experiência politicamente mortal.

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7 comentários

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De Cristina Ferreira de Almeida a 08.05.2009 às 22:51

Concordo muito contigo, Teresa. Acho que estamos a ficar todos cansados de overdoses de imagem e de marketing e julgo que, daqui até às eleições, seremos cada vez mais empurrados para decidir em função de coisas antiquadas como "quem é mais sério", "quem inspira mais confiança", ou "a quem é que eu compraria um carro em segunda mão" (vícios do marketing). Eu já sei.
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De Teresa Ribeiro a 08.05.2009 às 23:06

Estou curiosa, Cristina. Por vários motivos, mas na minha opinião sobretudo por este, estas legislativas vão ser muito interessantes de seguir.
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De João Carvalho a 08.05.2009 às 23:01

Pode dizer-se que faz sentido. Isto anda tudo mudado, mas talvez ainda faça sentido.
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De Teresa Ribeiro a 08.05.2009 às 23:09

Até ao lavar dos cestos é vindima, João
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De Pedro Correia a 09.05.2009 às 01:33

Manuela Ferreira Leite é um dos rostos de uma maioria que foi penalizada pesadamente pelos eleitores em 2005. Valia há um ano, quando foi eleita, pouco mais de um terço dos militantes do PSD. Não conseguiu liderar uma só sondagem de então para cá. Multiplicou-se em declarações incompreensíveis ou desastradas - do TGV ao 'bloco central'. Teve atitudes incoerentes em questões que se estenderam do Estatuto dos Açores à nova lei de financiamento dos partidos. Acertou na escolha do líder parlamentar, que por sinal é também o cabeça de lista das europeias. O balanço parece-me francamente negativo.
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De João Carvalho a 09.05.2009 às 07:59

O que não retira sentido, na hora da escolha, a um aspecto essencial a tomar em consciência: tudo é melhor do que a actual maioria absoluta!!!
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De Amêijoa Fresca a 09.05.2009 às 10:48

I Parte

A clareza e simplicidade
são valores a fortalecer,
para bem da nossa sociedade
que se encontra a apodrecer!

A vergonha perdida
numa verborreia tenebrosa,
é patologicamente iludida
de uma forma escabrosa!

A simplicidade do ser
é um aliado da humildade,
o mexilhão faz por transparecer
a sua verdadeira dignidade!

II Parte

Saber perder
é uma qualidade,
quem se agarra ao poder
não tem tal sinceridade.

Ao poder desapegada,
sem viver com essa obsessão,
temos uma política abnegada
em livrar-nos da depravação!

O mexilhão inteligente
entende esta mensagem,
não tolera a torpe gente
em que a verdade é uma miragem!

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