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Ali mesmo no meio

por José Navarro de Andrade, em 22.11.12

 

Quem aterrasse nos anos 80 no antigo aeroporto de Hong Kong tinha direito a pelo menos dois pavores. O primeiro era temer que o avião se despenhasse sobre as casas. De tal modo se rasavam os telhados que havia quem jurasse ter visto o branco dos olhos da senhora que pendurava roupa no último terraço antes da pista. O segundo era a pista, propriamente dita, uma fitinha de cimento a entrar pelo mar adentro. A mais leve guinada e o mergulho era certo.

Dado a outro tipo de impressões, o que me chamou a atenção foram uns armazéns de carga ostentando o nome de Far East Company – onde fica o extremo oriente quando já estamos no extremo-oriente?

Há poucos países que se designam pela sua posição geográfica; assim de repente ocorre a famosa República Centro Africana. Mas há outros casos, muito mais subtis porque bem disfarçados pelo nosso própria cultura. “China” por exemplo é um nome de origem sânscrita que aparece no Ocidente pelo punho de um navegador português, designando um país até aí conhecido como o reino de Cataio. Toda esta nomenclatura é, evidentemente, estranha aos locais, que chamam à sua terra Zhongguo, uma palavra que significa Império do Meio. No meio, no centro, de quê? No centro do mundo, claro.

E se alguém julgar que isto é vaidade de autóctones fique sabendo que até os vizinhos acatam esta assumida centralidade. Nomeadamente os daquele reino que por se encontrar a leste do centro se denomina como “terra do sol nascente”, ou nippon na língua local, que gerou o exónimo Japão.

planisferio japones.png

mapa mundi escolar japonês 

planisfério chinês

 

Sendo a cartografia uma pura convenção, nós, ocidentais, decidimos partir o planeta pela Linha Internacional de Data (outra pura convenção) que a norte passa pelo estreito de Bering. Esta dobra é inconveniente senão insultuosa a quem considera, com toda a legitimidade, que está no centro e assim se vê remetido a um canto. Donde que noutros lugares a cartografia tenha uma feição bem diferente da nossa como se pode ver nos exemplos acima.

Uma certa senhora, um pouco menos desinformada do que destrambelhada, começou por dizer que “nós não estamos na periferia de nada”, uma frase vacuamente patriótica, embora não de todo insensata. Mas nas justificações, como de costume, foi ter à farsa. A seguir exclama: “nós estamos no centro do mundo” e depois aponta: “se olhar bem a nossa posição geográfica no globo, estamos no meio.”

Havendo mais alguém que presuma ser possível estar no meio da superfície de um globo, faça o favor de levantar a mão.

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11 comentários

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De Ana Vidal a 22.11.2012 às 20:11

A prova de que tudo é muito relativo. Quem foi a senhora, que me escapou o episódio?
Não sabia que a origem da palavra China é sânscrita. As coisas que eu aprendo contigo.
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De Ana Vidal a 22.11.2012 às 21:24

Caminhar sobre o mar?? Bem, é verdade que os portugueses já se especializaram em fazer milagres financeiros, mas isto é pedir de mais...
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De sampy a 22.11.2012 às 21:08

Há ainda melhor: a história de um australiano...

http://flourish.org/upsidedownmap/mcarthur-large.jpg
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De José Navarro de Andrade a 22.11.2012 às 21:58

Bem visto! Mas os mapas chineses e japoneses não são uma blague, são mesmo assim nas escolas e nos livros.
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De portuguesacoriano a 23.11.2012 às 00:03

Os egocêntricos podem participar?
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De portuguesacoriano a 23.11.2012 às 00:48

A "senhora" está na lua, deve viver lendo poesia e etiqueta. "Estamos no centro do mundo". Tem piada (riso) e com direito a publicidade do Araújo e tudo, (risos, muitos risos)...as coisas que a comunicação social vai buscar, descobrem auténticos génios comediantes até na higth society tuguesa.
P.S: Senhora, na verdade estamos próximo do centro, mas não tem piada nenhuma. Se ler os jornais vai perceber que para além disso também estamos de traseiro pró ar a apanhar de tudo e todos, provavelmente de si também, se for o caso; obrigado pelo seu contributo, com certeza que é muito generoso)
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De Pedro a 23.11.2012 às 13:35

Está giro. E no mapa mundi por onde aprendi, a Europa está no meio. Sempre foi esse o nosso "Império do meio". Há mapas mundi para todos os gostos. Levante a mão quem tiver um mapa mundi "normal".
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De lucklucky a 23.11.2012 às 20:11

Por falar em mapas talvez estes também tenham a ilha que não existe: http://news.nationalpost.com/2012/11/22/the-maps-lie-australian-scientists-discover-manhattan-sized-island-doesnt-actually-exist/?utm_source=dlvr.it&utm_medium=twitter
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De José Navarro de Andrade a 24.11.2012 às 14:15

Esta história é genial! Obrigado.
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De Pedro Correia a 24.11.2012 às 01:06

Aterrei várias vezes no antigo aeroporto de Kai Tak, em Kowloon, e sei bem do que falas. Uma vez com tufão, chuva torrencial, aquilo abanava por todos os lados e nunca como daquela vez tive tanto a sensação de que o aparelho ia roçar nos prédios ou afocinhar no oceano, logo adiante.

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