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"Queríamos queimar a Merkel viva"

por Pedro Correia, em 13.11.12

 

Ontem, 17.50, manifestação anti-Merkel junto ao Centro Cultural de Belém.

Reportagem em directo da SIC Notícias. Mostra imagens dos manifestantes: são poucas dezenas, vários estão de cara tapada, alguns envergam máscaras de Carnaval.

 

Diz a jornalista:

- Boa tarde. Os manifestantes mantêm-se aqui neste local. O ambiente está calmo. Não há palavras de protesto neste momento. A única imagem de protesto é esta fogueira que continua a arder aqui no centro dos manifestantes. É uma fogueira feita com os cartazes que foram trazidos para esta manifestação e à volta da qual os manifestantes se juntam neste momento. (...) Vamos tentar perceber quem são estas pessoas que se mantêm aqui junto a este jardim e também a esta fogueira. Ao contrário do que aconteceu durante esta manhã, a esta hora são sobretudo jovens que aqui permanecem. Eu do meu lado esquerdo tenho sobretudo jornalistas.

 

(vira-se para a direita)

 

- Vou tentar falar com este senhor. Muito boa tarde. Diga-me quem é o senhor, porque está aqui e o que o leva a estar até esta hora, aqui, neste jardim de Belém.

- Pois, sou cidadão português, trabalho desde os 14 anos, e independentemente daquilo que faça, tenho 50, trabalho há 36 anos e 'tou a ver tudo aquilo por que trabalhei, não é?, com uma segurança que sempre toda a vida me garantiram e que agora me estão a roubar. Para além disso, 'tou-me a juntar aqui ao resto do pessoal jovem que não tem futuro.

 

(a jornalista tenta falar com alguns jovens, mas viram-lhe a cara)

 

- Há muitos jovens que não querem falar. Esta jovem aqui vai falar comigo... Eu queria só saber o que a traz até aqui e que idade é que tem.

- Tenho 16 anos.

- E vem aqui porquê?

- Porque acho que isto é um...

 

(a jovem ri-se muito e não diz mais nada)

 

A jornalista insiste, com outra pessoa:

- Este jovem. Posso falar consigo e saber o que o traz até aqui?

- As medidas que têm sido impostas ao País... o que temos passado nestes últimos meses.

- E qual é a sua situação? Está a trabalhar? Está desempregado?

- Estou desempregado. Estou a acabar o 12º ano, à procura de emprego e a lutar por um país melhor.

- E lutar por um país melhor é fazê-lo desta forma, acendendo esta fogueira e aproveitando este momento em que vem aqui uma líder internacional?

- Não, não é desta forma.

- Não concorda com este protesto?

- Concordo e não concordo. Há maneiras e maneiras de fazer...

- O que é que não concorda?

- Maneiras agressivas... Nós não temos que picar os polícias nem os polícias têm que nos picar a nós. Nós estamos aqui só para nos manifestarmos, mas não temos que picar os polícias.

- Sente que da parte de alguns dos presentes tem havido esse incentivo à violência?

- Sim, mas não muito. Portugal sempre foi um país pacífico quanto a isso. Essa pergunta nem se faz dentro de Portugal porque em Portugal é tudo muito pacífico.

 

(começam a ouvir-se algumas vozes cantando Grândola, Vila Morena; quatro manifestantes erguem punhos)

 

A jornalista faz um breve ponto da situação:

- E pronto, o ambiente é este e tem sido assim durante toda a tarde. Não há momentos de violência a registar. Aquele que pode ser considerado o maior incidente da tarde terá sido quando estes manifestantes chegaram até este local e retiraram as baias. O Corpo de Intervenção foi obrigado a criar uma linha de segurança precisamente com os próprios agentes, mas desde então não tem havido conflitos com a polícia e também não há detidos a registar e esta fogueira apenas aqui como símbolo desta luta e algumas vozes que se levantam aqui nos jardins de Belém em protesto contra a visita de Angela Merkel e também contra estas medidas de austeridade impostas pelo Governo português.

 

(parecia não haver notícia, mas cinco minutos depois era retomado o directo no mesmo local)

 

De novo a jornalista:

- Vou tentar falar aqui com esta senhora. O que a traz aqui?

- Traz-me aqui a indignação. O estado em que está o nosso país. E os nossos governantes. É isso.

- Mas identifica-se com este protesto? Eu estive aqui durante o dia, notam-se bastantes diferenças entre a manifestação da manhã, com pessoas de mais idade, agora estes mais jovens, alguns de cara tapada. A senhora identifica-se com estes protestos?

- É assim: eu identifico-me porque... derivado à situação em que o nosso país se encontra. Hoje não trabalhei, mas tive que dar uma grande volta porque está tudo cortado.

- Teve dificuldade em chegar até aqui?

- Muita dificuldade. Tive que vir a pé. Demorei imenso tempo.

 

(a câmara foca outra mulher, de óculos escuros apesar de ser já noite, com um grande cartaz onde se lia "Angela Merkel assassina")

 

- A senhora identifica-se com este tipo de protestos, com esta fogueira que se acendeu aqui?

- Esta fogueira é um símbolo porque nós queríamos era queimar a Merkel viva. Portanto a fogueira faz sentido. Nós queríamos era queimá-la viva!

- A senhora trabalha ou está desempregada?

- Trabalho. Trabalho, mas tenho um filho que não tem perspectivas de estudar nem de trabalhar e tenho de ser solidária com aqueles que estão sem emprego e estão a passar fome e na miséria.

 

Eram 18.05. Terminava assim, com este remate incendiário, a reportagem em directo da SIC Notícias no jardim junto ao CCB. Uma reportagem muito impressiva e mais esclarecedora do que prometia. Quinze minutos inolvidáveis de televisão.

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10 comentários

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De Inês C. a 13.11.2012 às 23:00

E o jornalismo português (se é que merece ainda o nome) promove esse ódio. Repare-se no nível de fulanização e populismo desta notícia:

http://www.dn.pt/especiais/interior.aspx?content_id=2882830&especial=Revistas%20de%20Imprensa&seccao=TV%20e%20MEDIA

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De IsabelPS a 14.11.2012 às 09:40

Não têm vergonha na cara quando se olham ao espelho, é o que eu pergunto sempre a mim própria.
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De Helena a 14.11.2012 às 04:25

O directo,formato tão acarinhado nas TVs portuguesas porque é barato, deveria ser um exercício responsável. E não feito por cabides de microfone com a cabeça a tiracolo.

Neste caso concreto que relatas não passa de (involuntário?) incitamento ao ódio. Na Alemanha a jornalista seria chamada à pedra de imediato. O problema é que muitos editores são também "activistas" políticos.

Há momentos em que tenho muita vergonha do jornalismo português, muita mesmo.
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De Pedro Correia a 14.11.2012 às 23:36

Lena: tal como dizes, o directo televisivo tornou-se hoje uma arma de dois gumes. Que tem a ver cada vez mais com a lógica das 'redes sociais', cheia de emoções à flor da pele, e tem cada vez menos a ver com as boas práticas do jornalismo clássico, que implicam um mínimo de reflexão, de mediação, de verificação de factos.
Hoje qualquer imbecil solta um chorrilho de disparates perante o primeiro microfone que lhe é estendido. Tenho visto até indivíduos encapuzados prestando declarações a canais televisivos (incluindo a televisão pública) com o mesmo grau de irresponsabilidade dos anormais que enxameiam as caixas de comentários das edições 'on line' dos jornais.
Devo dizer, entretanto, que a jovem jornalista da SIC Notícias responsável pela reportagem a que faço aqui referência - alguém que não conheço pessoalmente - fez um bom trabalho, dentro das contingências e da lógica destes 'directos', que são uma espécie de trapézio sem rede. Podemos verificar isso até pelas perguntas que foi fazendo e aqui reproduzo, em que tenta encontrar um ângulo contraditório, não servindo de caixa de ressonância dos escassos manifestantes ali concentrados.
O problema está a montante - na lógica implacável ds intermináveis 'directos' para encher antena com um imenso vazio noticioso, algo que obriga os repórteres no terreno a registar por vezes os maiores dislates proferidos na rua, amplificando-os de forma involuntária.
É matéria em que todos os jornalistas deveriam reflectir. A mimetização da lógica das redes sociais e as versões não sujeitas a edição, ao indispensável contraditório, estão a abastardar o jornalismo. E a corroê-lo de forma irreversível. Não é só em Portugal, aliás. Repara no que aconteceu ainda agora em Londres, com a demissão do presidente da BBC devido a uma notícia falsa posta em antena, que atingia a reputação de um ex-político de forma indesculpável e irreversível.
Novamente pelos defeitos que aponto: a pressão das redes sociais e a ausência de um mecanismo de verificação de factos que permita estabelecer um verdadeiro contraditório.
Isto está a matar o jornalismo.
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De Faz Sentido a 14.11.2012 às 09:02

Já que não queimaram a senhora viva, fizeram uma fogueira com os cartazes que foram trazidos para a manifestação...

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De Pedro Correia a 14.11.2012 às 23:38

E fizeram bem. A noite estava fria, assim aqueceram-se.
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De Até os comemos... a 14.11.2012 às 09:51

Porque será que a tugalhada diz invariavelmente "derivado à situação", "controlar a rotunda", "ter a haver com", etc?
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De Anónimo a 14.11.2012 às 13:38

Quer isto dizer, também, que os entrevistados, para além de bastante esclarecido, têm uma extraordinária visão sobre a Merkel e sobre o que os move contra a senhora Merkel.
Muito bem! Se não regressar foi porque me atirei de uma ponte abaixo de tanta exaltação que recebi destes doutos manifestantes. Segurai-me para que não me lance. Já vos disse, segurai-me. Olhem que me atiro!
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De Zélia Parreira a 14.11.2012 às 21:59

É "derivado" a este tipo de ignorância que chegámos onde chegámos. Constatei, nesse dia inolvidável de reportagem, que uma grande fatia de portugueses acha que a Sra. Merkel é a culpada da nossa situação financeira. Numa analogia barata, pergunto-me se também culpam a Caixa Geral de Depósitos por lhes ter concedido um empréstimo?

Do tal que foi para Paris é que nunca mais ouvi falar. Nem do que está em Bruxelas, nem do Alto Comissário, nem de nenhum dos que desbaratou o dinheiro que não tínhamos. E a Passos Coelho, até já há quem lhe queira tirar as medidas para uma estátua...

Achei o aparato criado à volta da visita da Sra. Merkel ridículo e desnecessário, até mesmo provocatório deste tipo de atitudes. Às vezes, muitas vezes, tenho dificuldades em compreender quem manda neste país.
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De Pedro Correia a 14.11.2012 às 23:24

De assassina a nazi, tudo serviu para achincalhar "a Merkel" nesta curta visita a Lisboa, Zélia. Banalizar o termo nazi é algo inaceitável. Como se Hitler e Merkel pudessem ser sinónimos. O Miguel Esteves Cardoso escreve hoje uma excelente crónica sobre este tema: penso exactamente como ele. A tal senhora que queria "queimar viva" a chanceler alemã, mimetizando as práticas da Inquisição, foi a cereja em cima do bolo - com direito a directo televisivo. Não, não era uma desesperada: era alguém com emprego, com trabalho. O que torna ainda mais inaceitável aquilo que disse.
Não podemos assistir em silêncio a estas atrocidades verbais.

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