Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Delito de Opinião

Os pobrezinhos, tão engraçados

Ana Vidal, 11.11.12

 

No rescaldo do "caso Jonet" e sem querer reabrir as hostilidades de um debate levado à esquizofrenia nos últimos dias, tudo o que li e ouvi sobre o assunto me conduz a uma conclusão bizarra: aparentemente, todos neste país desejam que a pobreza se mantenha. O argumentário usado por ambas as barricadas políticas - a da esquerda e a da direita - para esgrimir tiradas de grande efeito e destilar os mais atávicos ódios de estimação, assenta, surpreendentemente, na mesmíssima premissa:

- A esquerda acusa a direita de querer manter os pobres sempre pobres, para poder brincar à caridadezinha e assim exorcizar remorsos e culpas da sua própria opulência, mantendo ao mesmo tempo uma posição de supremacia e ainda ganhando, como bónus, o orgasmo místico da gratidão eterna daqueles a quem dá uma côdea.

- A direita acusa a esquerda de querer manter os pobres sempre pobres, para poder semear e cultivar neles a revolta que só um corpo faminto e uma vida de privações mantêm acesa, sabendo que o conforto e a barriga cheia não dão votos aos partidos do povo e são inimigos mortais de qualquer revolução.

 

E enquanto todos estes intelectuais se lambuzam em delírios de auto-satisfação devidamente acompanhados de um caprichado amuse-bouche no Gambrinus ou na Bica do Sapato, conforme o humor do momento, os pobres - essas curiosas criaturinhas que dão um jeitão para as estatísticas e justificam todas as teorias - fazem fila à porta de uma instituição humanitária, agradecendo ao céu da boca que ainda haja quem se deixe de conversa fiada e lhes ponha alguma coisa no prato.

18 comentários

Comentar post