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Os pobrezinhos, tão engraçados

por Ana Vidal, em 11.11.12

 

No rescaldo do "caso Jonet" e sem querer reabrir as hostilidades de um debate levado à esquizofrenia nos últimos dias, tudo o que li e ouvi sobre o assunto me conduz a uma conclusão bizarra: aparentemente, todos neste país desejam que a pobreza se mantenha. O argumentário usado por ambas as barricadas políticas - a da esquerda e a da direita - para esgrimir tiradas de grande efeito e destilar os mais atávicos ódios de estimação, assenta, surpreendentemente, na mesmíssima premissa:

- A esquerda acusa a direita de querer manter os pobres sempre pobres, para poder brincar à caridadezinha e assim exorcizar remorsos e culpas da sua própria opulência, mantendo ao mesmo tempo uma posição de supremacia e ainda ganhando, como bónus, o orgasmo místico da gratidão eterna daqueles a quem dá uma côdea.

- A direita acusa a esquerda de querer manter os pobres sempre pobres, para poder semear e cultivar neles a revolta que só um corpo faminto e uma vida de privações mantêm acesa, sabendo que o conforto e a barriga cheia não dão votos aos partidos do povo e são inimigos mortais de qualquer revolução.

 

E enquanto todos estes intelectuais se lambuzam em delírios de auto-satisfação devidamente acompanhados de um caprichado amuse-bouche no Gambrinus ou na Bica do Sapato, conforme o humor do momento, os pobres - essas curiosas criaturinhas que dão um jeitão para as estatísticas e justificam todas as teorias - fazem fila à porta de uma instituição humanitária, agradecendo ao céu da boca que ainda haja quem se deixe de conversa fiada e lhes ponha alguma coisa no prato.


18 comentários

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De Com sua licença a 12.11.2012 às 09:55

Com sua licença, parece-me que quem começou a disparatar descabeladamente não foi propriamente o que se chama "direita", mas antes o que se chama "esquerda". O que se chama "direita" limitou-se a disparatar em resposta aos disparates do que se chama "esquerda".

E o que se chama "direita" tem, tanto quanto me apercebi, defendido que se mate a fome aos de barriga vazia, no caso através do BACF, de que tantos dependem.

A propósito, fiz copy-paste de algo que se pode ler no website do Banco Alimentar:

"O que é o Banco Alimentar Contra a Fome?

O Banco Alimentar Contra a Fome é uma resposta necessária mas provisória porque "toda a pessoa tem direito a um nível de vida suficiente que lhe assegure e à sua família a saúde e o bem-estar, principalmente quanto à alimentação, ao vestuário, ao alojamento, à assistência médica e ainda aos serviços sociais necessários" (Excerto do artigo 25º da Declaração Universal dos Direitos do Homem).

Os Bancos Alimentares são Instituições Particulares de Solidariedade Social que lutam contra o desperdício de produtos alimentares, encaminhando-os para distribuição gratuita às pessoas carenciadas.

São organizações de pessoas de boa vontade que, juntando os seus esforços de uma forma voluntária, pretendem minorar o problema da fome numa determinda região."

Ou seja, o próprio BA declara que se trata de "resposta necessária mas provisória", o que me parece não se enquadrar no propósito de "manter os pobres sempre pobres".
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De Ana Vidal a 12.11.2012 às 12:45

Obrigada por lembrar aqui os princípios em que assenta o BACF. É bom que não se crucifique uma obra que tem feito tudo para minorar as carências dos portugueses em situação mais fragilizada, só pelo facto de se gostar ou não das declarações da sua presidente. Construir é difícil e leva muito tempo, destruir é fácil e rápido.
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De João André a 12.11.2012 às 11:00

uando a história apareceu não tive oportunidade de ver o vídeo, mas agora que o vi, só posso lamentar tanto barulho em volta de parvoíces.

Antes de mais: não tenho qualquer autoridade ou conhecimento para julgar o trabalho de Jonet à frente do BA. Apenas contribuo, quando em portugal, com uns alimentos para as colectas. Não sei se são bem organizadas, se mal. Se os alimentos alcançam os seus alvos ou não. Confesso a minha ignorância sobre a qualidade do serviço prestado. Confio apenas na reputação quando contribuo. Por isso mesmo nem ataco nem defendo Jonet.

Por outro lado, não a conheço de lado nenhum. Por isso não posso julgar as declarações sob quaisquer prismas. Não sei se são típicas, se, conhecendo a pessoa, são paternalistas (neste caso maternalistas), condescendentes ou não. Jonet pode ser uma péssima comunicadora e excelente administradora. Prefiro pensar nisso.

Aquilo que posso julgar são as declarações em si, tal como foram entregues. E essas foram, no mínimo, infelizes. Mais, foram ofensivas. Se o país terá vivido acima das suas possibilidades, muitos factores terão contribuído para isso. Não os vamos analisar. Se as pessoas que recebem esta caridade o terão feito, também não sei, mas não é difícil imaginar que algumas o terão feito. Se há gente que come bifes todos os dias, isso posso eu julgar com alguma certeza que não será verdade. É pouco saudável e não há muitas carteiras que o aguentem (posso garantir que com o meu salário alemão não o posso fazer). O mesmo em relação aos concertos rock ou outros pontos semelhantes.

Jonet foi infeliz. Se o que ela disse é o que pensa ou não é indiferente. Se acha que temos mesmo que empobrecer ou não, não sei. O que ela quer dizer com isso também não sei (ela obviamente não se sabe explicar correctamente). Se as posoções dela nascem de ideologias, fés ou outra coisa qualquer também é algo que desconheço. Sei apenas o que ela disse e, repito-me, foi ofensivo, especialmente para as pessoas que sempre sofreram, mesmo nos tais anos do "regabofe".

O BA é uma organização, segundo julgo saber, não governamental. Como tal deveria seguir uma regra simples: não abrir a boca a não ser para falar de si mesma. Jonet, em público, deveria falar apenas do BA. As questões políticas e afins deveria deixar para as conversas pessoais. Não é uma questão de saúde, é uma questão de clareza. O trabalho dela não é político, como tal não deveria fazer considerações políticas, porque estas antagonizarão sempre uma camada da população. E fazê-lo, como se viu, é prestar um mau serviço às pessoas que serve e à instituição que gere.
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De Ana Vidal a 12.11.2012 às 12:03

João André, este assunto já foi debatido à exaustão. Aqui mesmo, no Delito, encontrará vários posts sobre ele. Isabel Jonet já fez inclusivamente um esclarecimento público sobre as suas declarações. Mas, repito, este post não pretende reacender a polémica. Limitei-me a usar o caso para reflectir sobre a demagogia política associada à pobreza em Portugal, que faz com que, estranhamente, esquerda e direita se sirvam do mesmo argumento para se atacarem mutuamente. Felizmente existe quem se preocupe, no terreno, com a situação real e dramática de quem precisa de ajuda urgente.
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De Joao Andre a 12.11.2012 às 12:50

Compreendi-o cara Ana, apenas deixei o comentário aqui por não o ter feito antes. Digamos que foi por ser com atraso, caso contrário teria provavelmente ido mais atrás nos arquivos. Também deixo o meu comentário como essencialmente final, não tenho vontade de passar tempo com esta discussão.
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De nadia a 12.11.2012 às 11:04

Subscrevo totalmente a sua lucidez das suas palavras!...é isso mesmo, os pobrezinhos dão jeito a ambos os lados da barricada.
Mas que a Srª foi muito infeliz, foi!...a sobranceria da sua atitude perante quem está a passar sérias dificuldades, humilha!!!
Quanto a mim, que não sou contra os ricos, penso que, cada vez deveria haver menos pobres!
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De Ana Vidal a 12.11.2012 às 12:04

Concordo inteiramente com a sua última frase. Pretender nivelar por baixo não faz crescer um país nem aproveita a ninguém.
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De Anónimo a 12.11.2012 às 12:56

Espero que esta polémica tenha servido para que aqueles que se dedicam a servir os outros, POR OBRIGAÇÃO, DEVER MORAL, CÍVICO E ÉTICO, compreendam que quando servem servem várias sensibilidades, e que existem funções que obrigam e impôem contenção nas palavras. Que isto sirva para um e outro lado da barricada, para cada um de nós.
Já agora, para mim basta uma lata de atum.
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De Ana Vidal a 12.11.2012 às 20:59

E eu espero que tenha servido para mais do que isso. Por exemplo, para que passe a haver mais gente que "se dedique a servir os outros", seja lá por que razão for, em vez de só criticar.
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De Anónimo a 12.11.2012 às 22:24

Ora aí está, Ana. Servir sem criticar e sem mandar bitaites ou soundbytes devia ser a norma. Pensamos sempre que pelo facto de fazer temos autoridade moral para criticar tudo e todos. Ós despois....
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De Ana Vidal a 12.11.2012 às 23:58

Muito pior é criticar sem servir, Anónimo.
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De Anónimo a 13.11.2012 às 00:21

parece-me que cada um serve na sua área de competência. Há muitas formas de servir e muitos locais onde servir. Se cada um se agarrar à suas competências e ao seu trabalho, com espírito de serviço e missão, já está a servir muita coisa. Será difícil compreender isto? E será difícil compreender que haverá sempre quem não possa dar da maneira que entendemos, e que o simples facto de esse nos proporcionarem que a eles nos entreguemos já é uma forma de eles nos darem alguma coisa?
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De Ana Vidal a 13.11.2012 às 00:58

Claro que há muitas formas de servir e claro que o retorno pode ser ainda mais importante do que a dádiva, mas... será difícil de compreender que é de voluntariado que estamos a falar, e não de trabalho remunerado?
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De Anónimo a 13.11.2012 às 01:07

Será difícil compreender que o voluntariado é uma acção voluntária, sem coacção e ou obrigação? Em resumo, que é uma atitude livre e sem cobrança á mistura.
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De Ana Vidal a 13.11.2012 às 02:23

Nada difícil mesmo, pelo menos para quem faz ou já fez voluntariado. Para quem não conhece o conceito é que é capaz de ser mais confuso.
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De Anónimo a 13.11.2012 às 12:50

Já vi que sim, que gera algumas confusões.
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De CNS a 12.11.2012 às 18:28

A demagogia alimenta-se de banalidades, Ana. O fazer nem sempre é intelectualmente apetecível, e o importante, que é a ajuda ( o conceito ajuda é sempre de cariz provisório) , esquece-se, e dessa forma também se esquece de quem não tem condições para se perder em banalidades, porque a barriga vazia e a cabeça que não dorme presa em na angustia do dia de amanhã, raramente se perdem com esse tipo considerações.
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De Ana Vidal a 12.11.2012 às 21:01

É uma grande verdade, Cristina. A sobrevivência ocupa a cem por cento, não sobra tempo nem espaço para mais nada.

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