Adultos
Ora, eu ouvi isto todos os dias da minha educação: são coisas que qualquer pai (e avó) competente repete aos seus filhos. São ilustrações simplistas de uma hierarquia de prioridades saudável. São, também, parte da narrativa católica, da narrativa católica conforme passada às crianças. Foi estranho ouvir aquilo de alguém que falava para adultos, mas não mais do que isso: estranho.
Lourenço Cordeiro, no Complexidade e Contradição, em texto (já referido pela Ana Vidal) sobre a polémica levantada pelas declarações de Isabel Jonet.
Caro Lourenço:
Não é assim tão estranho porque muitos adultos parecem hoje pouco mais do que crianças. Não conseguem separar o essencial do acessório, tomam notícias absurdas como verdadeiras, reagem instantaneamente, mantêm uma opinião já depois de se encontrarem na posse de dados suficientes para a perceberem errada, detestam constatar que certas coisas estão fora do seu alcance. Nesta fase de dificuldades económicas, a situação agrava-se. Como a criança que não entende o argumento «é demasiado caro», recusam-se a aceitar más notícias – por exemplo, notícias em que lhes dizem que certas coisas que antes eram possíveis deixaram o ser. Recusam os dados objectivos, acham que é uma injustiça, procuram quem culpar, batem o pé, fazem birra. Crianças. E assim acaba por ser lógico, embora talvez contraproducente, que algumas pessoas comecem a tratá-los como tal.

