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Ars Mortis

por José Navarro de Andrade, em 31.10.12

Excluímos a morte dos nossos cálculos existenciais como se ela fosse um acidente. Tratando-se de uma inconveniência e um imponderável, incómoda aos negócios correntes que todos os dias temos que levar adiante, ganhámos-lhe nojo e passámos a considerar como obscena a sua exposição. Isto é uma atitude eminentemente europeia, quase sem equivalente noutras culturas. Uma explicação apressada e duvidosa para isto, como o são todas de índole psico-socio-históricas, poderia recordar o facto de o Velho Continente ter promovido durante o séc.XX, um par de guerras e de regimes que dizimaram cerca de 100 milhões de seres humanos e que esses fantasmas ainda hoje nos estigmatizam.

Mas nem sempre foi assim.

O nascimento da fotografia, entre as várias maravilhas que proporcionou, contou-se a de ter tornado acessível a toda a gente algo que até então estava reservado aos aristocratas – o retrato. Quando só preocupava a linhagem, o retrato era uma necessidade exclusiva de quem tinha uma genealogia a defender, mais os direitos e os haveres que ela entregava. Mas quando começou a surgir a ideia de família – essa invenção burguesa – todos os entes se tornavam queridos aos descendentes e constituíam a sua memória particular. Mas o retrato mantinha a sua aura, como um acto cerimonioso, dispendioso, logo parcimonioso. Por isso, muitas vezes recorreu-se a ele literalmente in extremis. Foram então voga os retratos fotográfico post-mortem em que os cadáveres do familiares acabados de falecer, quase sempre inopinadamente, eram postos em pose com os restantes membros da família para um derradeiro memento.

Abaixo, fica uma colecção destes instantâneos, que às almas afligidas de hoje poderão parecer um pouco tétricos, mas que um espírito aberto verá neles ternura, apego e uma ponta de antecipadas saudades.

 

 

 
 


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