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Caldo entornado

por Leonor Barros, em 06.05.09

Faço parte daquela espécie de portugueses que cresceu com os livros de Jorge Amado, ainda do tempo em que eram proibidos pela censura e que chegavam às mãos dos meus pais através da tia carioca. Desse tempo é também José Mauro de Vasconcellos e depois desse tempo a literatura brasileira passou a fazer parte integrante das minhas preferências literárias. Não há viagem ao Brasil sem um périplo pelas livrarias. Já dei por mim a arrumar os livros numa livraria em Maceió, a tentar entender uma ordem que me apareceu obscura em Natal até ter percebido que os livros estavam arrumados pelo primeiro nome do autor e não pelo apelido e a escapulir-me dentro de um centro comercial apenas para poder comprar mais um livro, aquele mesmo que tanta falta me fazia. Frequentemente vem-me à memória o primeiro livro que comprei na Livraria da Travessa em Ipanema, Rio de Janeiro, Carnaval no Fogo de Ruy Castro: a experiência matricial numa livraria com estantes de madeira e empregados solícitos na mais bela cidade do meu mundo. Não há viagem a Terras de Vera Cruz em que não venha a abarrotar de livros que me alimentam as longas noites de Inverno e perfumam a esperança de dias mais quentes e tropicais. Quando soube, consequentemente que o Brasil iria ser o país convidado na Feira do Livro, comecei a salivar esperançosamente, as capas, os livros, a possibilidade que se me abria de comprar livros de autores brasileiros em edições brasileiras, quem sabe não iria descobrir escritores novos e certamente teriam o livro que me tem deixado em suspense na ansiedade de o devorar e ter entre mãos.

Sábado soalheiro e escaldante. Dirijo-me aos pavilhões do Brasil para satisfazer o meu desejo. Fui informada de que havia livros de autores brasileiros na representante habitual em Portugal e, depois de atravessar o parque, dei de caras com a editora. Os livros brasileiros ocupavam um espaço ínfimo, ainda consegui vislumbrar do lado de lá alguns livros do Drummond. Nada de novo, portanto, motivo suficiente para uma rotunda desilusão. Não seria de esperar uma maior oferta tendo em conta o país convidado? Um homem não muito jovem acorreu em meu auxílio, ter-me-á visto de cabeça esticada a tentar decifrar as lombadas, e após a habitual procura nas estantes decidiu-se Não tenho, mas espere que vou perguntar se há no armazém. Seguiu-se uma troca curiosa de palavras. O homem perguntava-me se eu tinha internet, que podia pedir pela internet, que também podia ir à livraria, era mesmo ali, para ir lá. Ora uma mulher tem os seus limites e nunca vi alguém estar em plena Feira do Livro e sugerirem-lhe que mandasse vir o livro pela internet ou que fosse à livraria. O meu desagrado pelo insólito começava a notar-se. Livraria? Internet?  Entretanto aproximou-se um homem mais jovem. Que ia ver se tinha no armazém. Pedi-lhe então que me reservasse um exemplar de Leite Derramado de Chico Buarque, caso houvesse, e que passaria um dia desta semana para o ir buscar. O homem não se deu por achado. Não era preciso. Não era preciso deixar nome. Ia ver e se houvesse trazia uns para a feira. Tentei explicar em vão que queria mesmo o livro e que não queria correr o risco de que fosse vendido antes de eu lá ir. O homem menos jovem insistia na internet, também na livraria, ali, é mesmo ali. O mais jovem acrescentou que segunda-feira de manhã me ligaria então, sem falta nenhuma. Hoje é quarta-feira e, pelo caminho e sintomático silêncio, não só não há Leite Derramado, como temos o caldo entornado.

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10 comentários

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De mdsol a 07.05.2009 às 00:22

Oh Leonor, que grande decepção!
[E quanto à livraria de Ipanema... hummm bom gosto]

:))
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De Leonor Barros a 07.05.2009 às 00:32

E foi mesmo, Maria do Sol

Como gostava de voltar à Livraria da Travessa na Visconde de Pirajá... :-)
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De Ana Vidal a 07.05.2009 às 01:12

Ainda não fui este ano à feira, mas amanhá espero não falhar. Também ando atrás do Leite Derramado e tencionava comprá-lo na feira, mas já estou a ver que não vale a pena chorar sobre o dito, porque não vou encontrá-lo por lá...
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De Leonor Barros a 07.05.2009 às 09:45

Vou obedecer ao empregado e mandá-lo vir do Brasil pela internet ;-)
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De J.M. Coutinho Ribeiro a 07.05.2009 às 01:31

E eu que não conheço o Brasil. E nem familiares brasileiros tenho. Haverá português como eu?
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De Leonor Barros a 07.05.2009 às 09:44

Claro que há, Joaquim, tu és a prova disso :-)
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De João Sousa a 07.05.2009 às 08:54

Num dos primeiros episódios do "Yes, Minister", Sir Humphrey garantia firmemente ao ministro que a Inglaterra fazia questão de pertencer à (então) CEE para sabotar os progressos da mesma.

É certo que isto não parece ter a ver com o assunto em questão. Apesar disso, a verdade é que as minhas experiências neste último par de edições da Feira com um g(G)rupo de editoras me fez lembrar aquela cena.
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De Leonor Barros a 07.05.2009 às 12:26

Pois, é muito estranha esta política. Não faz sentido que uma pessoa esteja na Feira do Livro e a mandem ir à livraria ou à internet.
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De Sun Iou Miou a 07.05.2009 às 10:09

Há pouco numa livraria recomendaram-me também que procurasse na internet um livro que eles não tinham, porque era mais rápido...! Já não estou a perceber nada: ainda se queixam de que não vendem?! E depois é que gosto de entrar em livrarias, "pescar" livros pelo título, acaricia-los, abri-los numa página qualquer para ver o que lá se conta e como e decidir depois. E foi assim que descobri um livro do António Manuel Venda (a quem não conhecia), que casualmente também anda por cá a delinquir opinando.
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De Leonor Barros a 07.05.2009 às 12:24

Precisamente. Quantos livros já não descobrimos assim, a ver, folhear. Sem destino certo, no caso dos livros, chegamos sempre a algum lado. Se não se tiver amor aos livros, não se conseguie entender que é preciso tempo e atenção.

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