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Um presidente chamado Jimmy

por Pedro Correia, em 27.10.12

 

Estas coisas andam sempre ligadas. Talvez o início do fim do prestígio norte-americano no planeta tenha uma data exacta: 20 de Janeiro de 1977. Precisamente o dia em que tomou posse Jimmy Carter como 39º inquilino da Casa Branca (ou 38º, na versão do presidente Harry Truman, que nunca entendeu por que motivo um dos seus antecessores, Glover Cleveland, foi contabilizado a dobrar, por dois mandatos diferentes).

Jimmy quê? – perguntou muita gente, sem perceber muito bem como um antigo cultivador de amendoins da Geórgia chegava ao mais poderoso cargo político do globo terrestre. O problema era precisamente esse: ninguém podia levar a sério um presidente chamado Jimmy. Nada a ver com os aristocráticos nomes de baptismo de anteriores titulares da Casa Branca, como William McKinley, Woodrow Wilson, Warren Harding, Herbert Hoover. Nada a ver com o prestigiado Franklin Delano Roosevelt, cujo nome era todo um programa: sugeria um rasto de nobreza e autoridade natural, muito adequado à solenidade do cargo (impossível alguém chamar-lhe Frank).

 

Eram os tempos do disco sound e das calças à boca de sino: foi aí que os Estados Unidos começaram a vulgarizar-se irremediavelmente. Nunca mais foram respeitados como outrora tinha acontecido. Alguém como o ex-presidente Dwight David Eisenhower, o general que chegou à presidência depois de derrotar os nazis na Europa, haveria certamente de encarar com maus olhos este plebeísmo onomástico no nº 1600 da Avenida Pensilvânia, em Washington. Richard Nixon, que foi seu vice-presidente antes de concorrer ele próprio à presidência, era tratado na intimidade por Dick ('Tricky Dick', na carinhosa terminologia dos adversários). Mas ninguém sonharia nesses respeitáveis anos com um Dick Nixon na Casa Branca. 

Com Jimmy, tudo mudou. Depois dele ainda veio Ronald Reagan, um nome de presidente clássico, mas já o vice-presidente de George Bush (pai) era alguém simplesmente chamado Dan Quayle. E seguiu-se a presidência de Bill Clinton, que tinha como braço direito Al Gore. Nomes tão vulgares como o João dos Anzóis. E quase tudo em diminutivo de então para cá: o vice-presidente de George Bush (filho) era Dick Cheney – chegava enfim um Dick à administração americana. E o vice-presidente actual é Joe Biden. Alguém com um nome equivalente ao nosso Zé.

Já não estranhei, por isso, que nos obituários do irmão mais novo do presidente John Fitzgerald Kennedy, em Agosto de 2009, toda a gente chamasse Ted ao senador do Massachusetts que fora apresentado ao mundo, décadas antes, como Edward Kennedy. John, que ocupou a Casa Branca entre Janeiro de 1961 e Novembro de 1963, se vivesse hoje seria conhecido por Jack. Tu-cá tu-lá, sem qualquer espécie de apreço pelo nome de baptismo.

Ao menos Obama parece estar livre desta praga contemporânea de tratar os mais altos titulares de cargos públicos nos EUA por ridículos petits noms familiares, como se fossem colegiais. Mas só devido à singularidade do seu nome africano. Alguém imagina qual será o diminutivo de Barack?

 

O Reino Unido, como aliado preferencial de Washington, aderiu nos anos 90 à moda dos políticos com diminutivo nos nomes próprios. Aconteceu com Tony Blair, que assim dava a impressão de ser um indivíduo como qualquer outro nesses tempos em que a correcção política atingia o auge - algo que escandalizaria os vetustos primeiros-ministros britânicos Stanley Baldwin, Winston Churchilll, Clement Attlee, Harold MacMillan e James Callaghan. Entre nós, governava então António Guterres. Que, apesar de ser muito amigo de Blair, nunca fez questão de ser tratado por Toni. E muito bem.

A Portugal, felizmente, ainda não chegou a moda de tratar os políticos pelo diminutivo. Caso contrário teríamos por exemplo um ministro conhecido por Vitinho Gaspar, o líder parlamentar do PCP só responderia quando lhe chamassem Dino Soares e o titular do Palácio de Belém promulgaria diplomas com o nome nada austero de Ani Cavaco Silva. De momento, esta praga parece longe dos nossos hábitos. Mas não nos iludamos: também há-de cá chegar, como todas as outras modas que têm sido importadas dos States. Já começo até a ouvir com alguma insistência alusões a um tal de Tó Zé, secretário-geral do Partido Socialista...

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16 comentários

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De 55cacc55@gmail.com a 27.10.2012 às 18:51

esqueceu os willy´s alemães...mais antigos que o tal de jimmy.
esqueceu a "praga" dos cidadãos políticos entitulados de drs e engs que, aparentemente, prefere aos simplesmente tós e zés.
esquceu como britânicos e norte-americanos se tratam no trabalho.
enfim, preferências~(não se discutem).
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De Pedro Correia a 28.10.2012 às 00:07

Cada cultura com seu hábito. Soaria muito ridículo que Jaime Gama, ex-presidente da Assembleia da República, fosse conhecido por Jaiminho Gama. Ou que os antecessores de Cavaco Silva tivessem sido Tó Ramalho Eanes, Mariozinho Soares e Jojó Sampaio.
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De Carlos Cunha a 27.10.2012 às 20:17

complementado o meu comentário anterior, observe os nomes dos constituintes dos gabinetes ministeriais de harold wilson e james callaghan, nos anos setenta e já aí encontra tony´s e bob´s, juntos com alguns lordes

http://en.wikipedia.org/wiki/Labour_Government_1974%E2%80%931979
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De Pedro Correia a 28.10.2012 às 00:05

Sim, Carlos, mas essa tendência ainda não tinha chegado então ao 'top' da política - estava apenas nos escalões intermédios.
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De Carlos Cunha a 28.10.2012 às 14:05

...a memória é curta...
http://en.wikipedia.org/wiki/Alec_Douglas-Home
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De Pedro Correia a 31.10.2012 às 00:16

Sim, mas esse era 'sir' Alec, membro da Câmara dos Lordes. E apesar de tudo há uma diferença entre Alex e Jaiminho...
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De Nada de Novo a 27.10.2012 às 21:06

Então e por cá não tivemos a vivenda Mariani?
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De Pedro Correia a 28.10.2012 às 00:04

Apesar de tudo, há uma diferença entre nome de vivenda - seja ele qual for - e nome de dirigente político.
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De NN a 28.10.2012 às 09:39

Pronto, está bem. Mas temos o Quim Barreiros e o Zezé Camarinha, por exemplo. E agora?
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De Pedro Correia a 31.10.2012 às 00:16

É verdade. Do Minho ao Algarve. Isso é que é Portugal no seu melhor.
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De jsp a 28.10.2012 às 12:39

Então e o "Honest Abe" e o outro Roosevelt, o Ted dos "Rough Riders" e do famoso conselho "Speak softly and carry a big stick"?...
Permita-me uma provocação, mais que políticamente incorrecta para os tempos que correm, quase pecaminosa : os EUA iniciaram o irreversível caminho do declínio nos anos 60, com Kennedy - e não me refiro ao Vietnam...
Houve o sobressalto "Reaganiano", mas Novembro de 2008 confirmou o inevitável descalabro.
Podemos apostar , sem medo de errar, que S. Basílio, em Moscovo, e o seu equivalente em Pequim , ressumam de oferendas para a reeleição do tipo que ocupa a Casa Branca...
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De Pedro Correia a 31.10.2012 às 00:19

É interessante confrontarmos estas teses, mas não creio - de todo - que a decadência americana tenha começado com Kennedy. Pelo contrário, JFK continua a ser um dos presidentes mais valorizados pelas gerações que lhe sucederam. Quanto a 'Ted' Roosevelt, nunca assinou assim em documentos oficiais, ao contrário de 'Jimmy' Carter. Em comum, apenas o facto de terem ambos recebido o Nobel da Paz.
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De Anónimo a 28.10.2012 às 17:35

"chegava enfim um Dick à administração americana"; Pedro, esta é inocente ou nem por isso?

Quanto à do Vitinho, eu já o trato por este nome há uns tempos. Recorda-me, pela fala pausada, o Vitinho que colocavam na TV para adormecer as crianças. Era este o nome, não era?
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De Gi a 30.10.2012 às 18:53

O diminutivo de Barack é Barry, Pedro. Julgo que li num dos livros do próprio.
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De Pedro Correia a 31.10.2012 às 00:21

Estamos sempre a aprender. Os americanos adoram diminutivos: quando não sabem qual é, inventam logo um. Só mesmo eles para transformarem Barack em Barry.
(hum... a propósito, eu nada tenho contra os diminutivos, Gi...)

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