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Há uma tese desculpabilizante da acção do governo que procura ganhar o seu espaço. Tentarei, sucintamente, enunciar os três argumentos principais da dita tese e sublinhar as razões que justificam que as considere meras falácias:

 

Argumento nº 1 - Na, na, na, a execução do orçamento de 2012 não falhou porque o governo obteve bons resultados do lado da despesa.


Comentário: Demos de barato, ainda que se saiba que o barato sai caro, que o governo controlou a despesa. Todavia, não nos deixemos enganar. O Orçamento de Estado é um único documento, cuja elaboração e execução cabe, globalmente, ao governo. Este não é menos responsável pela receita do que pela despesa. As contas do Estado são um sistema em que as variáveis se influenciam mutuamente. A responsabilidade do governo estende-se ao saldo final da execução. Se a realidade fica aquém do orçamento, seja lá de que lado for, o governo falhou.

 

Argumento nº 2 -  Sim, sim, sim, existe um enorme desvio entre o que os portugueses querem do Estado e o que estão dispostos a pagar. Mais, quando perguntados, os portugueses pronunciam-se de forma esmagadora no sentido de preferirem cortes na despesa. Todavia, quando se trata de identificar cortes concretos, aparece sempre uma massa de lusitanos ingovernáveis que se opõe, contra toda a racionalidade, a cada um deles.

 

Comentário: Não foram esses que lançaram na discussão pública a ideia de que seria viável uma gestão eficiente de um Estado perdulário que permitiria equilibrar as contas públicas sem envolver corte nas remunerações e sem aumento de impostos. Não. Foi a maioria que sustenta o actual governo que prometeu exactamente isso a quem quis ouvir. Com tal eficácia que muitos acreditaram. E, se os portugueses podem agora ser acusados de alguma coisa, é de terem aprendido aquilo que lhes quiseram ensinar e de terem alguma dificuldade em desaprender. Por outro lado, o argumentário da oposição às medidas do governo só é utilizado para uma parte da realidade. Que diabo. Se existe uma grande resistência a cortes em determinado tipo de despesa, não existe menos em relação ao aumento de impostos. Todavia, este avança sem piedade, ao mesmo tempo que o governo se queixa da enorme oposição ao corte na despesa. Ora, e por incrível que pareça, a existência de um governo resulta precisamente da necessidade de decidir perante interesses divergentes. Se há interesses que se opõem ao que deve ser feito, pois que o governo os enfrente. Se não o faz, só há uma razão (que não uma justificação) possível: falta-lhe legitimidade por pretender executar o contrário daquilo que prometeu.

 

Argumento nº 3 – Pois, pois, pois, os portugueses indignam-se com pequenas coisas e esquecem-se de que os agregados com verdadeira dimensão dizem respeito às remunerações dos funcionários públicos, à saúde e às prestações sociais.

 

Comentário: é verdade que cortar no valor do aluguer operacional dos veículos de Carlos Zorrinho ou de Mota Soares, nas transferências para a Fundação Mário Soares ou nas isenções fiscais da Fundação do PSD da Madeira ou lá o que é, não resolve os problemas do défice e da dívida. É uma evidência que qualquer um pode constatar numa folha de Excel. Há, todavia, uma falha de concepção das folhas de cálculo. Não existe ali qualquer célula onde se possa contabilizar o valor do exemplo e da gestão do simbolismo. Para além disso, como refere JMGraça, não faltam por aí sugestões para concretizar cortes efectivos na despesa.

 

Por tudo isto, talvez fosse melhor investir menos tempo na construção de um universo paralelo em que receita e despesa vivem de costas voltadas e nunca se encontram, em que os compromissos eleitorais se varrem para debaixo do tapete e em que se usam as grandezas dos agregados que compõem a despesa para justificar a inaceitável complacência com práticas inadmissíveis em tempo de profunda crise. É que, antes de avançar com propostas de redução do valor mínimo do subsídio de desemprego e outras prestações sociais, há um mundo de caminhos que tem de ser percorrido. As folhas de Excel não têm em memória as propostas eleitorais e os programas de governo. E não atribuem qualquer valor à ética. É essa lacuna insuperável que os portugueses (des)esperam que possa ser suprida pela acção política e governativa.


22 comentários

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De Muito bem, subscrevo! a 25.10.2012 às 14:35

E nada se perde se voltarmos a lembrar:

http://www.youtube.com/watch?v=gNu5BBAdQec
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De Rui Rocha a 25.10.2012 às 17:53

Já dizia o Espadinha que recordar é viver.
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De Alexandre Carvalho da Silveira a 25.10.2012 às 15:36

O ajustamento que estamos a sofrer é para três anos. O ministro das finanças confessou ontem no parlamento que no final, será feito em 60% do lado da despesa, e 40% do lado da receita. Por mim, e apesar de bem "apalpado" no meu rendimento familiar, estou disposto a esperar pela primavera de 2014. Porque pagar o que estamos a pagar, é inevitavel. Podemos é discutir se seria melhor pagar mais agora e menos no futuro, ou vice-versa. Porque a redução dos rendimentos dos portugueses em geral, é um dos objectivos do memorando, como sabe até melhor do que eu. Promessas, eleitorais ou outras, leva-as o vento, e o programa do governo é o memorando da troika.
Mas hoje, confesso que estou mais preocupado com o que se vai passar depois das 18 lá prós lados da Bélgica.
S. L.
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De makarana a 25.10.2012 às 17:09

alexandre, o rui tem toda a razão.A receita do govenro está a falhar a olhos vistos, e o proximo orçamento é de um irrealismo total.
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De Rui Rocha a 25.10.2012 às 17:52

Concordo, M.
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De Rui Rocha a 25.10.2012 às 17:52

Está quase na hora, Alexandre.
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De Teresa Ribeiro a 25.10.2012 às 16:05

Grrr! Ia postar quando vi que já tinhas escrito aqui sobre o mesmo assunto. Mas como há muitas maneiras de matar uma mosca, se calhar ainda dou uma volta ao texto para acrescentar mais uns considerandos. Mas o que eu vinha dizer-te era isto: que grande malha, o link para a resenha do Álvaro Santos Pereira. Eheheh!
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De Rui Rocha a 25.10.2012 às 17:53

Sobre este tema, todos os contributos são poucos Teresa.

(sim, confesso que dá um certo gozo citar o Álvaro nestas matérias).
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De Samuel de Paiva Pires a 25.10.2012 às 16:27

Na mouche!
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De Rui Rocha a 25.10.2012 às 17:52

Obrigado pelo destaque, Samuel.
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De Samuel de Paiva Pires a 25.10.2012 às 17:59

Eu é que agradeço por articular de forma tão clara as falácias a que, infelizmente, muitos têm recorrido.
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De Rui Rocha a 25.10.2012 às 22:03

É meu dever, embora não acredite que seja nossa salvação.
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De lucklucky a 25.10.2012 às 18:32

Argumento 2.
Se acreditaram são burros. Como aliás acreditaram nas promessas do Governo PS e nas promessas da Constituição.


Argumento 3.
Quem faz 5 posts sobre o carros, neste caso do PS e pouco ou nada sobre gastos muito maiores está obviamente a entrar no facilitismo que como é óbvio vai ajudar o Governo e os políticos em geral a fazerem cortes para inglês ver.
Com esta atitude só a troika obriga o Governo afazer alguma coisa que conte.
O povo português que só reage a aparências não critica coisa alguma substancial.
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De Rui Rocha a 25.10.2012 às 22:04

Registo mas não concordo, Lucky.
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De Anónimo a 25.10.2012 às 19:02

Rui, é irrefutável o que afirma, em particular na conclusão. Creio que este (des)governo ainda não entendeu que nós, os portugueses bonzinhos, o melhor povo do mundo, não estamos contra a austeridade que nos devemos impôr. O que não queremos é ser bons alunos e ter os "bons alunos" a pagarem o que devem à nação.
Não queremos ser parte nos erros, quando os sacrifícios são todos nossos: dos que têm e dos que não têm.
A nomenclatura partidária, fortemente agregada à incomplacência do capital/finanças, usou e abusou de uma linguagem imprópria, agressiva, pretenciosa, preconceituosa e faustosamente ignorante para tentar colher, na classe média em particular, o fruto da tolerância às políticas que, estava visto, mais cedo ou mais tarde caíram em cima destes.
Na realidade temos pouca política, feita em moldes éticos e decentes. Eu quero pagar o que estado (politiqueiros) fez até este momento, mas não quero pagar com o sacrifício da dignidade.
Recordo-me agora da crise dos misseis de Cuba. Todos nós sabemos que por detrás de tudo isto esteve a mão de muita gente, mas uma coisa devemos extrair de toda essa crise: Entre morrer hoje ou morrer amanhã, preferimos morrer hoje, mas vamos todos. Foi assim que os americanos reagiram nesse tempo. É assim que devemos reagir hoje perante esta agressão sem limites.
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De Rui Rocha a 25.10.2012 às 22:05

No fundo, é uma questão de justiça.
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De Anónimo a 26.10.2012 às 18:06

Não, Rui. No fundo é uma questão de sobrevivência. Quando compreendermos que ao colocar em risco a sobrevivência do outro colocamos, em simultâneo, a nossa própria, então, tudo poderá ser diferente.
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De Nestum Sem Mel a 25.10.2012 às 21:13

Com R.R., digo:

Uma coisa foi a criminosa irresponsabilidade socratista. Já sabemos, não deve ser esquecida nem branqueada.

Outra coisa foi os que agora ocupam as cadeiras do poder terem assinado o memorando, terem-no negociado, DISPOREM DE PERFEITO CONHECIMENTO DO QUE IMPLICARIA, e terem andado a proclamar que o problema se resolveria cortando as gorduras do estado (com minúscula) SEM AUMENTO DE IMPOSTOS NEM APLICAÇÃO DO TIPO DE MEDIDAS QUE AGORA IMPÕEM, e enganando consciente e descaradamente quem neles se dispos a votar e agora sem remédio se arrepende de o ter feito.

Só um milagre me levará a, enquanto por cá andar, votar alguma vez nesta cambada do chamado arco governativo.

Como também me recuso a votar nos amigos das Coreias do Norte e nos esquerdistas fracturantes, disponho de duas soluções: 1- Voto nulo, 2- Abstenção.

É a vida, como dizia o Toninho.
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De Rui Rocha a 25.10.2012 às 22:05

Concordo, NSM. Consigo e com o Toninho.
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De Alexandre Carvalho da Silveira a 26.10.2012 às 00:41

Caro Nestum Sem Mel,

Como andei quase metade da minha vida a ver se conseguia alguma vez votar em eleições livres e democráticas, voto sempre, nunca me abstenho, nem voto nulo. Quando não me agrada nenhuma das propostas, e já aconteceu algumas vezes, voto em branco, porque o voto em branco é um voto que conta ao contrário do voto nulo que vai pró lixo. Por outro lado, quem se abstem depois não se pode queixar.
Já pensou se nas próximas eleições a maioria dos votos fossem em branco? Seria muito mais eficaz em termos de censura aos politicos do que trezentas manifestações com um milhão de pessoas cada uma!
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De Nestum Sem Mel a 26.10.2012 às 15:56

Agradeço cordialmente a resposta de ACM (assim como a do autor do post) e venho explicar porque não coloquei essa hipótese (votar em branco) a par das outras duas.

É que sou desconfiado (melhor dizendo, fui ao longo dos anos ficando desconfiado), e pouco me admirava se, no entusiasmo da contagem dos votos, alguma cruzinha aparecesse sobrenaturalmente nalgum quadradinho do "meu" boletim.
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De NSM a 26.10.2012 às 20:06

Peço o favor de corrigir: ACS (e não ACM).

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