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Da inutilidade dos livros

por José António Abreu, em 13.10.12

Numa espécie de resposta à pergunta deixada pelo Rui Rocha:

 

Duas raparigas de mini-saia sentam-se entre espelhos e sorrisos, de unhas pintadas de cinco cores diferentes, embora iguais nas mãos e nos pés, expostos, como gemas polidas, nas sandálias com um palmo de salto. Encomendam saladas e desembainham os smartphones. Não trocam palavra. Teclam em silêncio, nos seus iPhones, não se sabe o quê. Mensagens, números?

A chegada da comida desperta-lhes sorrisos. Debicam com pauzinhos, mergulham de novo nos telemóveis. Uma delas sabe inglês suficiente para perceber a pergunta – Já leram Mo Yan, que acaba de ganhar o Nobel da Literatura?

“Quem? Yang? Shang? Ichan? Não sei o que é. Um escritor?” O café fica no interior do Centro Comercial KK, que ocupa cinco andares de um edifício de 100, todo em vidro e luzes que acendem e apagam formando as palavras e números de anúncios de empresas e produtos, ao longo dos 442 metros de altura da frontaria.

“Shong? Bem, nós não costumamos ler livros”, explica Liu, aka Jane, falando pelas duas. Ou mais. O café está cheio de jovens com roupas estudadamente modernas e caras, agarrados aos telemóveis ou tablets. “Quando andava a estudar só tinha tempo para ler os livros da escola. Agora que já trabalhamos, usamos os tempos livres para vir ao centro comercial, ou jogar no telemóvel”, continua Jane (na China, os jovens que aprendem inglês adoptam um nome inglês).

Liu (jane) e Song, de 22 e 21 anos, trabalham num SPA. Vieram para Shenzhen há dois anos. Na aldeia-natal de cada uma, nas províncias de Hunan e Hubei, os pais dedicam-se à agricultura. Nos primeiros tempos na grande cidade, as duas raparigas trabalharam numa fábrica. Depois subiram na escala social. Agora têm dinheiro para estar no centro comercial. Um nome. Só um nome de um escritor chinês: “Não sei. Mao Zedong?”

Amy, 25 anos, Relações Públicas numa grande empresa de telemóveis, a Huawei, tem a mesma dificuldade em nomear um escritor. “É mais fácil jogar jogos. Os livros são muito complicados”.

Zheng, 24 anos, finalista de Medicina em Nanjin, também nunca ouviu falar do nome. Nem num nem no outro. “Prémio quê? Não sei o que é”. Tirando os compêndios clínicos, Zheng orgulha-se de nunca ter lido um livro.

Shenzhen é uma cidade recente. Há 30 anos um pequena aldeia, hoje tem 14 milhões de habitantes, graças às reformas de Deng Xiaoping e à criação de uma Zona Económica Exclusiva. Representa a nova China, eufórica com o desenvolvimento. Em toda a cidade, é possível visitar centenas de centros comerciais, e milhares de lojas de telemóveis baratos, mas não assistir a um concerto ou peça de teatro. Shenzhen não parece precisar de vida cultural.

“Mo Yan? Conheço sim. Escreveu livros sobre o período da guerra com os japoneses”. Yang Woo, 59 anos, é oriundo de Guangzhou, a antiga Cantão, e proprietário, em Shenzhen, de um restaurante de peixe na Avenida Huaqiang, a Meca da electrónica. Admite sem problemas que deve o seu êxito empresarial muito ao facto de ser membro do Partido Comunista. “Mo Yan é um escritor muito interessante, que promove os valores da harmonia. Se o Nobel é importante? Não. A China não precisa disso”.

Reportagem de Paulo Moura, no Público de ontem.

 

Ou, em meia dúzia de palavras: capacidade de concentração, de elaborar raciocínios ponderados, de enfrentar o silêncio e a solidão. No fundo, de desacelerar e pensar. Consigam lá isto com a internet.

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