O menor de todos os males
Confesso que mudei de opinião recentemente – como não sou político, posso felizmente admiti-lo à boca cheia. Se antes pensava que um governo de bloco central não era uma solução desejável, era até mau para a democracia, agora penso justamente o contrário.
O tipo de medidas que o governo tem que tomar serão inevitavelmente impopulares. Tão impopulares que ameaçam, e estão a ter esse efeito, deixar o governo sozinho, abandonado não só pelo PS, que também assinou o memorando, mas também pelos próprios partidos que o sustentam.
Passos e Gaspar, mal ou bem, estão-se mesmo “nas tintas para as eleições”. Estão genuinamente determinados em fazer cumprir o seu programa e pouco importados com as consequências colaterais. Já os partidos que sustentam o governo estão verdadeiramente aterrorizados, principalmente o PSD (visto que o CDS poderá até, em última análise, sair beneficiado). O PSD extra-governo olha para um futuro não muito distante e rapidamente percebe que um falhanço do governo, e sobretudo a tomada de medidas como a da TSU, poderão apagar o PSD do mapa já nas próximas eleições. Já o PS de Seguro está numa encruzilhada, da qual se vai tentando desenvencilhar. Preso ao memorando, vai procurando escapes para se indignar, aproveitando o facto de o acordo estabelecer os fins, mas não (ou nem sempre) os meios, sendo estes por conseguinte criticáveis (embora fazê-lo sem apresentar alternativas seja mais difícil). A TSU foi, neste quadro, como água no deserto para um Seguro sedento, na medida em que, pela primeira vez, o governo deu um passo além-memorando. Temos, portanto, um quadro em que ao barulho inevitável dos partidos da extrema-esquerda se junta o burburinho cada vez mais ensurdecedor do CDS, do PSD e do PS, com cada vez mais vozes destes partidos – históricas ou não históricas – a virem a terreno mostrar o seu afastamento do governo. Este resultado tem causas relativamente evidentes: o PS está na oposição, e por isso tem todos os incentivos para sublinhar as suas diferenças face ao governo, por mais constrangido que esteja; o PSD, por seu lado, tem cada vez mais incentivos para não ficar quieto, não só como resposta ao PS, mas também porque vê o seu governo trilhar caminhos altamente perigosos para o futuro do partido.
A única solução para evitar o fim que se adivinha, dentro da esfera da democracia, é um bloco central. Claro que esta opção teria sido impossível em 2011, porque Sócrates nunca a aceitaria (embora Cavaco pudesse ter intervindo mais vigorosamente no pós-eleições, depois da demissão de Sócrates). Agora, porém, numa altura em que se confirmou que o caminho traçado é mais difícil do que os mais optimistas previam, com o governo a ter que tomar medidas que os eleitores já não entendem ter sido sufragadas, é do interesse de todos os partidos do “arco do poder” optar por esta solução. A sua recusa poderá implicar uma queda do governo e subsequentes novas eleições, em que figurarão um PSD em pedaços e um PS sem capacidade para explicar aos eleitores como fará diferente dos últimos governos. Embora, mesmo nestas condições, possa vir a sair, à tangente, um derradeiro governo moderado, haveria um enorme risco de que os eleitores, e com toda a legitimidade, entregassem o poder a quem, para todos os efeitos, ainda não lhes falhou.

