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Vinte anos, vinte mil perguntas

por Pedro Correia, em 06.10.12

 

A SIC está hoje de parabéns: há 20 anos, o panorama da televisão começou a mudar por completo graças ao aparecimento do primeiro canal privado, para escândalo dos defensores do monopólio estatal - os mesmos que também defendiam a imprensa estatizada e combateram a multiplicação das rádios enfim libertas da tutela do estado. A história da televisão portuguesa divide-se em dois grandes capítulos: antes e depois do aparecimento da SIC. E nada ilustra tão bem isto como um episódio há pouco recordado no Jornal da Noite especial evocativo deste 20º aniversário: a atrapalhação do candidato socialista António Guterres ao fazer uma promessa eleitoral nas legislativas de 1995.

Dizia Guterres: "Desejavelmente, nós deveríamos poder atingir, num prazo tão curto quanto possível, um nível da ordem dos 6% do Produto Interno Bruto em despesa de saúde."

Perguntou-lhe Ricardo Costa, repórter da SIC: "Isso é quanto, em dinheiro?"

De novo Guterres: "Eh... são... o Produto Interno Bruto são cerca de três mil milhões de contos... portanto, seis por cento... seis por cento de três mil milhões... eh... seis vezes três dezoito... eh... um milhão e... um milhão e... ou melhor... enfim, é fazer a conta."

Os tempos eram muito diferentes. Vários outros jornalistas registaram isto mas fizeram de conta que não tinham ouvido nada. "Acabámos por ter um exclusivo estranho, o exclusivo mais estranho da minha vida. Às oito da noite pusemos estas declarações no ar e mais ninguém pôs. Nenhuma televisão, nenhuma rádio. Acabámos por ter o exclusivo de uma coisa que toda a gente tinha gravado. Isto mudou de vez a relação entre os políticos e os jornalistas", recordou Ricardo Costa esta noite.

Muito mais revelador do que uma forma de fazer campanha política, com promessas que ficam por quantificar, este episódio é revelador da forma dominante de fazer jornalismo naquela época: por vezes, devido a um pacto de silêncio entre jornalistas, algumas das melhores histórias ficavam por contar.

A SIC acabou com isso.

A atrapalhação de Guterres ficou para a pequena história destes anos da política portuguesa. E a frase "É fazer a conta" também. Bom jornalismo é assim: às vezes basta uma simples pergunta para fazer a diferença.

Venham mais vinte anos. E mais vinte mil perguntas.

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32 comentários

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De Francisco Seixas da Costa a 06.10.2012 às 23:10

António Guterres acabava de visitar um serviço hospitalar de transplantes de fígado onde, pela primeira vez, fora confrontado com pormenores sobre os riscos da delicada operação a que a sua mulher iria em breve ser sujeita (e em razão da qual morreria), assunto que não era então do domínio público. A sua perturbação levou-o a falhar uma mera percentagem - ele que tinha uma formação matemática conhecida e uma rapidez de raciocínio conhecida. A pergunta era fácil, embora não me pareça que seja obrigatório que um primeiro ministro saiba necessariamente de cor os números do orçamento de cada setor governativo.
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De Pedro Correia a 06.10.2012 às 23:19

Como refiro, meu caro, o episódio é revelador sobretudo de uma certa forma de fazer jornalismo naquela época, em que os jornalistas aceitavam uma espécie de autocensura - umas vezes por motivos estimáveis, outras nem por isso. Hoje a frase de Guterres nem seria difundida em primeira mão nos chamados órgãos de informação tradicionais - agência, rádio, TV ou jornais: propagar-se-ia de imediato nas redes sociais e os 'media' andariam a pescá-la nessas fontes.
São outros tempos. A SIC estava à frente da sua época.
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De Maria Araújo a 12.12.2013 às 17:38

Estar à frente na vilania e na peixeirada oca é pouco crédito, não acha?
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De Pedro Correia a 12.12.2013 às 17:50

"Vilania" e "peixeirada" é mostrar aos portugueses que um primeiro-ministro não faz a menor ideia de quanto é o PIB do nosso país?
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De lucklucky a 07.10.2012 às 13:31

"Produto Interno Bruto são cerca de três mil milhões de contos..."

Um valor completamente errado. Ou seja Guterres nem sabia quanto PIB era o do seu país.
O jornalista ficou calado, pois também não sabia.


"embora não me pareça que seja obrigatório que um primeiro ministro saiba necessariamente de cor os números do orçamento de cada setor governativo."

!? Parece-me indispensável para cada português quanto mais um político.

--------

E agora a SIC tornou na máquina socialista coartante da liberdade que foi a RTP e o PS ao ser hoje uma força contra o nascimento de novas TVs e contra a liberdade de criar.

O PSD também se tornou num Partido exclusivmente Socialista assim que os seus elementos tomaram o Estado e os lugares adjacentes.

A maioria dos capitalistas de sucesso torna-se socialista assim que o atinge.

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De João Pedro a 08.10.2012 às 00:16

O lucklucky sabe de cor os números do orçamento em separado? E di-los-ia caso a sua mulher estivesse doente e acabasse de saber quais os riscos para o seu tratamento?
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De lucklucky a 08.10.2012 às 16:41

Se se está no Governo tem de se saber isso quase como conhecimento inato, pois é uma coisa que deveria ter sido estudada para planear. Não interessa os números certos, interessa a proporção e valores aproximados.
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De portuguesacoriano a 06.10.2012 às 23:13

Pois é, agora que a coisa evoluiu, ganha outra dimensão e aspecto. Agora já existe especulação, testes, manipulação, politica, etc. Tudo no jornalismo.
No futuro, os governantes serão jornalistas.
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De Pedro Correia a 06.10.2012 às 23:14

Especulação sempre houve. Capacidade de fazer perguntas incómodas é que nem sempre.
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De portuguesacoriano a 06.10.2012 às 23:30

Já agora , alguém alguma vez perguntou ao Sr. Pinto Balsemão, a quando do assassinato do Sá Carneiro. Logo que o Sr. Balsemão tomou posse como 1º ministro, porque é que ele foi rapidinho à Madeira criar a zona franca?
Ui, é perigoso (...) fazer essas perguntas.
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De Anon. a 07.10.2012 às 18:19

Foi por causa da Cabala Secreta Escondida do Monge Albino.
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De portuguesacoriano a 07.10.2012 às 23:20

Mas esse não era aquele que se auto flagelava, o da Opus Dei?
Não entendo, o Sá era o monge albino?
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De Samuel a 06.10.2012 às 23:52

É! Isto está mesmo muito melhor!
Curiosamente, foi na SIC (nas outras não é melhor) que ouvi, no passado dia 5, uma jornalista, de madrugada e depois um seu colega, quase à noite, falar da cerimónia da «implementação» da República. :-) :-)

O bom jornalismo é assim... :-)
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De Pedro Correia a 07.10.2012 às 12:22

Não está melhor do que há vinte anos, Samuel? Preferia uma televisaozinha só? E recuar ao preto e branco, que tal? Antes da 'implementação' da TV a cores e dos canais privados...
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De Vasco a 07.10.2012 às 12:34

Sempre me irritou aquela mania do "estamos a fazer história", uma permanente auto-consciência que se premeia a si própria... muito típica de um certo jornalismo... faz lembrar a conversa dos retornados (éramos os melhores, na na na, na na na, vê-se...) Enfim, é lá com eles, mas depois vêm com falsas modéstias, à Benfica (isto está tudo ligado), e verdadeiramente não há pachorra para essa conversa de subúrbio.
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De Pedro Correia a 08.10.2012 às 22:05

A mim irritava-me muito mais o tempo em que só havia a oficiosíssima RTP, sem concorrência.
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De Mário Pereira a 07.10.2012 às 16:30

Realmente a SIC foi uma pedrada no charco. Mas vinte anos depois pode-se dizer que a montanha pariu um rato. Isto é, a expectativa que a SIC criou na maioria das pessoas que estavam fartas da cinzenta informação oficial não se confirmou, infelizmente. Pelo contrário a informação televisiva e a imprensa nivelam-se cada vez mais por baixo. O que nos vale ainda é a net e as redes sociais. Isso sim, apesar de com muita porcaria à mistura (há que saber seleccionar...), foi um grande avanço para a liberdade de informação e de pensamento.
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De Vasco a 07.10.2012 às 22:25

"foi um grande avanço para a liberdade de informação e de pensamento."

Como assim?
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De Anon. a 07.10.2012 às 18:24

Eu gosto é do descritivo do Jornal da Noite que aparece na box da Zon: "Noticiário onde é feita a investigação, denúncia e análise jornalística dos acontecimentos da actualidade nacional e internacional." A DENÚNCIA!! Os acontecimentos da actualidade!! Alguém é pago para escrever aquelas sinopses mirabolantes.
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De Pedro Correia a 08.10.2012 às 12:46

Nunca vi essa descrição. Pelo que diz, é péssima. A começar pela palavra 'denúncia', associada a períodos negros da nossa história.
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De Max a 07.10.2012 às 23:51

Parece (li isto algures, há muito tempo, já não me lembro onde) que imediatamente antes de falar para os jornalistas, A. Guterres ficou a saber que a sua mulher, doente com cancro, estava irremediavelmente condenada. Talvez os outros soubessem e a SIC não.
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De Pedro Correia a 08.10.2012 às 12:45

Um jornalista perguntar (repito: perguntar) em campanha eleitoral (repito: em campanha eleitoral) a quem se propõe governar o País que quantifique as suas promessas é bom jornalismo.

O jornalista tem o dever de perguntar. Em campanha eleitoral, esse dever aumenta. Para que a informação não se confunda com propaganda. E para que os eleitores percebam até que ponto o político tem ou não devidamente estudadas as promessas que faz aos eleitores.

O político, por sua vez, tem o direito de não responder, de permanecer em silêncio. Guterres não exerceu este direito: preferiu responder. A resposta saiu-lhe como saiu.

O jornalista que fez a pergunta cumpriu a sua obrigação divulgando a resposta. Defender o contrário é defender a autocensura. Que é sempre limitativa da liberdade de informação.
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De Max a 08.10.2012 às 19:59

Caro Pedro:
Não é autocensura mas antes simpatia.
É compreender que naquelas circunstâncias a atenção da pessoa não pode estar ali. Que o seu desgosto se sobrepõe a tudo.
Aquilo a que chama liberdade de informação corre o risco de se tornar em ditadura da informação.
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De Pedro Correia a 08.10.2012 às 22:20

Caro Max:
O jornalista não tem obrigação de saber pormenores da vida familiar dos políticos quando está a fazer a cobertura de acções públicas, nomeadamente em campanha eleitoral. Nada obsta, claro, que um político, confrontado com questões do foro privado, as invoque perante os jornalistas para não prestar declarações ou suspender mesmo as acções de campanha. Ao que sei, nada disso sucedeu neste caso concreto.
"Ditadura da informação", em regra, ocorre quando há apenas um órgão de informação. Acontecia na televisão em Portugal antes do aparecimento da SIC, quando tínhamos só um canal.
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De Luís Lavoura a 08.10.2012 às 13:01

devido a um pacto de silêncio entre jornalistas, algumas das melhores histórias ficavam por contar

Isso continua a acontecer, porque continua a haver pactos de silêncio entre os jornalistas. Por exemplo, relativamente à alegada "vida privada" de pessoas públicas. Coisas que nalguns outros países são abertamente discutidas, como por exemplo a homossexualidade de alguns políticos, em Portugal são objeto de um pacto de silêncio. E esse pacto deixa muitas excelentes histórias por contar.
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De Pedro Correia a 08.10.2012 às 22:15

Nem todas as histórias são jornalisticamente relevantes, Luís Lavoura. Desde logo as que estão abrangidas pela reserva da vida íntima dos cidadãos, direito consagrado na Constituição.
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De Leonor Barros a 08.10.2012 às 21:31

Pelo que se sabe o Guterres tinha acabado de receber uma péssima notícia em relação ao estado de saúde da mulher, Pedro. Qualquer um se baralha. Os políticos, raramente, é certo, também são pessoas.
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De Pedro Correia a 08.10.2012 às 22:13

É verdade, Leonor. Qualquer político pode baralhar-se. Sobretudo em campanha eleitoral. Mas a SIC, através do repórter António Costa, fez a pergunta certa. Quando a história não está suficientemente clara, o jornalista tem a obrigação de fazer as perguntas suficientes para a tornar perceptível. O político, por seu turno, tem todo o direito de prestar ou não declarações. Guterres tinha esse direito, de que prescindiu. A SIC fez bem em não censurar essa declaração, tal como agiu de forma correcta anos mais tarde, ao filmar Cavaco Silva a engolir um bolo-rei para evitar prestar declarações aos jornalistas. São duas faces da mesma moeda. Antes do aparecimento da TV privada, era muito mais difícil vermos peças jornalísticas deste género. A SIC contribuiu para dessacralizar o poder - e fez bem.
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De maria torres a 09.10.2012 às 23:00

Essa foi uma frase infeliz, mas veio-se a saber depois que nesse dia António Guterres tinha sabido que a mulher (Luisa Amélia, se me não engano) padecia de uma doença grave da qual veio a falecer, era natural que não atinasse com as contas... mas ficou para a história e se calhar sem razão.
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De Pedro Correia a 10.10.2012 às 00:23

Se calhar sem razão, Maria. Mas as coisas são o que são. Sobre a observação que faz já me pronunciei nesta caixa de comentários. E noutro texto, mais acima neste blogue.

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