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O meu lado da cidade

por J.M. Coutinho Ribeiro, em 05.05.09

A propósito do debate que por aqui vai sobre as cidades, lembrei-me deste post, que escrevi em 2007, n'O Anónimo. Talvez ajude a perceber melhor a "tese".

 

 
 
O meu lado da cidade tem casas velhas e lojas fechadas, ruas estreitas, irregulares, passeios descuidados e fiscais da Câmara acoitados nas esquinas, perversos, à espera que transborde o tempo do parquímetro, dois minutos ou três, e já está!, mais um grampo e um reboque e umas dezenas de euros que voam, não que eu tenha razão de queixa, que já sei que sou de azares e, por isso, a moeda sempre a tempo nos dias, que são poucos, em que não ponho na garagem do Bonjardim. O meu lado da cidade tem cafés razoáveis e outros que são maus, eu prefiro os que são maus, não só porque estão mais perto, mas porque a gente habitua-se a ir onde é mais perto, onde as empregadas nos tratam por meninos e por meninas, quando não é Olá môr, o que vai ser?, e um sorriso, e até podemos ficar a dever, coisa que me acontece muito porque ando sempre sem dinheiro e depois vai lá a Dulce pagar. E entram os empregados das mercearias vizinhas, e as vizinhas das lojas do lado, e somos todos conhecidos e trocamos os jornais do dia e uma conversa ligeira, que eu estou sempre a acelerar, não porque tenha menos tempo que os outros, mas porque trato pior o tempo, coisa que nem sempre se percebe, mas é mesmo assim. Trato-o pior. E não me peçam para explicar, porque então isto deixava de ser um post e passava a ser uma dissertação, coisa que, como já perceberam, não joga muito comigo, sobretudo quando me ancoro no meu lado da cidade. Neste lado onde vejo vendedoras esporádicas de hortaliças, de peixe, de meias e do que calha, olho na banca e outro na polícia, gente de ar cansado, dia mau no Bolhão (penso sempre), quase da idade dos prédios devolutos, e também há o pedinte, que vem pouco, que não fala, mas que faz um silvo que honestamente me irrita, até porque o ouço mesmo quando estou no escritório e ele se planta na entrada. Há muito menos pessoas na rua do que há uns anos, garante o Sr. Fernando, e ele sabe, porque a coisa reflecte-se no que avia o café, e as prostitutas de rua do Bonjardim, logo ao lado, também sabem, o que as faz mais afoitas, imaginem lá que em tantos anos nunca me abordaram e são sempre tão simpáticas e educadas, nunca foram além de me pedirem um cigarro e um dia destes uma novata disse-me Então, querido, vamos p'ra pensão? e eu olhei-a e ri-me com um riso que não era sobranceiro era apenas de distância e ela percebeu e ofereci-lhe um cigarro que ela aceitou e acendi-lho e fui andando, a pasta castanha bamboleante, os passos firmes até ao carro, o cabelo que não abunda a agitar-se. E eu a amainar. O telemóvel ligado ao auricular, os telefonemas para a família e para os amigos, o trânsito que já está menos porque saio tarde. Atravesso a cidade para o outro lado. Para o lado onde os anúncios são mais neon e as ruas mais bem tratadas e os doutores usam fatos mais formais e onde os prédios são mais vistosos e espelhados e onde as prostitutas são menos visíveis e parece que são mais caras e não se plantam nas ruas, é coisa mais sofisticada e de recato, coisas que nem sequer se imaginam, é o que me dizem, que eu não sei, porque elas são menos visíveis e eu sou um bocado distraído e não me meto na vida dos outros. Quando ando mais descontraído e o dia é de rotinas, faço o trajecto da rotunda Boavista normalmente, rumo à Ponte da Arrábida, direitinho, o que não é assim tão simples quando ando em stress, porque aí, é sagrado que dou duas ou três voltas à rotunda até que desperto e sei que o caminho é aquele para o meu subúrbio de Gaia-mesmo-na-ponta-da-Afurada, que a outra nem conheço, mas devia, eu sei que devia, por todas as razões entre as quais porque a nossa terra é também aquela que nos acolhe, como me acolheu o Porto adolescente e depois Coimbra e depois o Porto e depois a Póvoa de Varzim e depois Gaia, como se eu fosse um cigano-oriundo-do-Marco-com-um-pé-no-Marco, porque um gajo como eu não se esquece de onde é. E não se deslumbra, é como é - assim.

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