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Cama 306

por Fernando Sousa, em 27.09.12

… não estou aqui, imagino que não estou aqui, estou numa cama de um hospital, a cama 306, já não tenho a inteligência ligada à saúde, tenho só o corpo ligado a tubos e a esperança ligada à vida, imagino que os médicos se enganaram, ou que não previram tudo, que tenho mais do que dois meses de vida, imagino um milagre, eu, finalmente entre a morte e a fé, imagino o meu neto que nascerá dentro de três meses, aquele abraço que devo, o muro que não acabei de mandar abaixo, a novela a que só me falta um capítulo e mais umas coisas que o meu sentimento de eternidade foi adiando; imagino que me vieram perguntar, um senhor muito gentil, muito, muito compreensivo, do economato, se não me importava de morrer no prazo certo, ou se possível mais cedo, pois gastam comigo fortunas devidas à dívida soberana. Não estou aqui, estou numa cama de um hospital, público, português, corre Setembro de 2012, já não tenho a inteligência ligada à saúde, apenas rezo, eu, que sempre achei a oração como um desperdício da razão, para que os médicos se tenham enganado, o que às vezes acontece, ou haja um milagre, o que também não é raro, ou então para que me apague como uma pessoa e não uma rubrica do Orçamento de Estado. 

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29 comentários

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De Carla Ferreira a 27.09.2012 às 15:02

As decisões de prolongar ou não a vida deveriam ser orientadas sobre critérios rigorosos e humanos, e nunca sobre quaisquer outros, de outro tipo qualquer. A vida e a morte são uma complementaridade dentro de um único corpo, e merecem, ambas, respeito. Sempre que se materializam deixam de fazer sentido, ambas, e seja em que situação for.
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De Fernando Sousa a 28.09.2012 às 09:59

Disse tudo, Carla. Nada a acrescentar.
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De jorge silva a 27.09.2012 às 15:28

e esta gente que faz este tipo de propostas deve ter a inteligencia ligada à zona que fica ao fundo das costas. sá assim se perceb que daquelas cabeças saiam tantas ideias de mer...,desculpe a expressão
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De Fernando Sousa a 28.09.2012 às 10:02

Pior, Jorge: esta gente tem a inteligência ligada a recursos que a maior parte de nós não tem.
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De Carlos Azevedo a 27.09.2012 às 15:30

É inenarrável! Repito as palavras de Primo Levi: Se isto é um Homem...
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De Ssssstress a 27.09.2012 às 16:19

O que dizer-lhe que não seja:
Homem, morra de uma vez!!!!
Aliás, se todos os reformados, os indigentes, os doentes e os desempregados morressem de súbito, (enfim e para não gerar entupimentos nas funerárias, fosse um súbito pelo espaço de 30 dias), isso ajudaria a tal dívida soberana?
Então à que matá-los! À morte!! À morte!!
A chatice é encontrar voluntários; sobretudo voluntários que estejam dispostos a pagar as próprias despesas fúnebres. Porque "este povo" é mal agradecido e não reconhece quando lhe querem fazer bem!

Cumprimentos.
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De Fernando Sousa a 28.09.2012 às 10:09

É verdade, Stressssstress. Como o António Arnaut dizia esta manhã estamos perante uma aberração.
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De Fernando Lopes a 27.09.2012 às 17:37

Os recursos do SNS nunca foram ilimitados. Há anos que, com os velhos, em doenças oncológicas, é praticada uma "eutanásia consentida".
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De Fernando Sousa a 28.09.2012 às 16:14

... e provavelmente não só contra os velhos com doenças oncológicas, Fernando
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De FB a 27.09.2012 às 17:42

Quando chegar à morgue avise sff, para lhe ofecermos o funeral.

Funerária de S. Bento & Belem, SA
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De Fernando Sousa a 28.09.2012 às 10:13

Obrigado. Pelo menos assim não tenho que pagar o IVA.
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De Ana Lima a 27.09.2012 às 18:21

Tenho algumas dúvidas que não me permitem manifestar claramente a minha opinião sobre este assunto.
Mas este texto amargo é muito humano e toca na questão fundamental que é a relatividade do tempo. Para alguém que tem pouco tempo de vida, um dia pode fazer muita diferença.
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De Fernando Sousa a 27.09.2012 às 20:01

... coloquemo-nos por instantes na alma de um doente, grave, que quer continuar a viver e acredita que isso é possível. Pode bem ser amanhã o nosso caso.
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De Ana Vidal a 27.09.2012 às 21:13

Já passei por uma situação dessas, Fernando. Cada dia é precioso e imprescindível. Mas penso que o que queres fazer notar aqui é o perigo da desumanização dos cuidados de saúde por causa dos cortes nas despesas, e a violência que isso significa para quem está numa cama de hospital. Tens razão, ainda que sejam inevitáveis alguns cortes. Imagino a sensação de injustiça que um doente fragilizado e com medo deve ter, ao ver como tem sido mal gasto o dinheiro neste país a ponto de não poder socorrê-lo ou, pior ainda, de fazê-lo sentir-se um peso incómodo.
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De Fernando Sousa a 27.09.2012 às 21:43

Não é a racionalização das despesas da saúde que me preocupa, Ana, é o racionamento dos cuidados ou dos fármacos, e por fim dos direitos, à saúde ou mesmo à vida, que foi o que defendeu o Miguel Oliveira da Silva.
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De Ana Vidal a 28.09.2012 às 20:24

Sim, eu percebi. E concordo inteiramente contigo.
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De Pedro Correia a 27.09.2012 às 22:34

Aplauso incondicional ao teu texto, Fernando. Um abraço.
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De Fernando Sousa a 28.09.2012 às 10:14

Um abraço, Pedro.
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De Patrícia Reis a 28.09.2012 às 09:24

E eu estou com o Pedro no aplauso, Fernando. Beijo
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De Fernando Sousa a 28.09.2012 às 10:17

Beijo também. Resiste aos noticiários da manhã. Deixaste-me preocupado.
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De Maria Gabriel Sousa a 28.09.2012 às 12:19

Por maioria de razão - talvez... - junto o meu aplauso aos que aqui te enviaram pelo teu texto. Por maioria de razão - sinto... - não poderia estar mais "dentro dele"...
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De Fernando Sousa a 28.09.2012 às 16:00

Eu sei. Eu sei. Eu sei.

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