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Grandes romances (3)

por Pedro Correia, em 23.09.12

 

ESPLENDOR NA RELVA

Mrs Dalloway (Virginia Woolf)

 

«Quando as pessoas se sentem felizes têm uma espécie de jardim secreto onde se recolhem.» (p. 109)

 

Há um momento, na dobra das nossas biografias, em que a vida vivida nos começa a preencher mais o pensamento do que a vida sonhada. Somos assaltados a todo o momento por uma infindável série de recordações.

Clarissa Dalloway entra no Outono da existência precisamente num encantador dia de Primavera em que a natureza parece entoar um cântico de louvor à bonomia universal e Londres desperta banhada em sol. A frase de arranque do romance, de uma limpidez exemplar, ilustra bem esta atmosfera: "Mrs Dalloway said she would buy the flowers herself."

Havia sinais de esperança um pouco por todo o lado naquele Reino Unido que superara cinco anos antes o pesadelo da Grande Guerra. Em Junho de 1923 nada parecia ensombrar os dias de uma senhora bem casada da alta sociedade britanica - íntima de ricos e poderosos, "sempre rodeada de gente aborrecidíssima e sem o menor interesse" - que daria nessa noite uma festa na sua mansão de Westminster destinada a perdurar na memória de quantos nela participassem.

"Agora, depois de ter passado as fases do casamento e da maternidade, pouco mais lhe restava para além da hipótese de se juntar aos outros e subir Bond Street devagar, na companhia da multidão. O certo é que ainda lhe custava resignar-se a ser Mrs. Dalloway, apenas Mrs. Richard Dalloway, já que lhe fora retirado o privilégio de responder pelo nome de Clarissa." É assim que Virginia Woolf nos apresenta a personagem desta sua obra-prima publicada em 1925 que rompeu os cânones da literatura tradicional (edição portuguesa Europa-América, tradução de Lucília Rodrigues).

Este é um romance que tem algo de Proust e algo de Joyce. O primeiro, na súbita vaga de reminiscências que assalta a protagonista e a leva a conduzir-nos a alguns dos mais recônditos pormenores do seu passado - com o calor primaveril no lugar das célebres madalenas proustianas. O segundo porque, tal como sucede em Ulisses, toda a acção de Mrs. Dalloway decorre num dia, uma quarta-feira, de manhã à noite. Este é um romance sem divisão em capítulos mas percorrido pela presença obsessiva de relógios destinados a demonstrar como é exíguo o tempo que nos resta e "o fracasso parece estar sempre à espreita", nem que seja sob a forma de velhice - talvez o mais cruel dos seus disfarces.

 

Mrs. Dalloway surge-nos com uma surpreendente estrutura coral, ao melhor estilo modernista, em que os diálogos alternam com os solilóquios, discurso indirecto e directo se entrelaçam, um narrador omnisciente tão depressa aparece como se retira e o fluxo narrativo é como um rio por vezes de margens mais estreitas, atento aos pormenores, por vezes de margens mais largas, centrado em reflexões sobre o tempo, o amor, a vida e a morte ("a única certeza que nos acompanha").

A autora, neste seu quarto romance que lhe valeu o aplauso da crítica contemporânea e é frequentemente mencionado entre as cem melhores obras literárias de todos os tempos, capta de forma minuciosa a atmosfera daquela prodigiosa década de 20, breve intervalo entre os dois mais sangrentos conflitos da história humana. A guerra comparece aqui na pessoa de um ex-combatente, Septimus Warren Smith, espécie de contraponto lunar à aparente existência solar de Mrs. Dalloway, outra figura perseguida pelas sombras do passado. Os dois percorrem o livro em linhas paralelas, sem se cruzarem, mas a trágica morte de Septimus é motivo de conversa na festa onde a acção culmina, quase todas as personagens se encontram e para onde o enredo naturalmente conflui.

À medida que cai a noite, vamos conhecendo cada vez melhor Clarissa Dalloway - mulher de fachada resplandecente, mulher de face oculta. "Só ela sabia o quanto era diferente da imagem que dava de si mesma - uma mulher sentada na sala que se transformava numa luz, num refúgio capaz de salvar algumas existências solitárias". Enquanto ela própria, de modo quase imperceptível, ia caindo nas malhas da solidão. Certa de que, como na ode de William Wordsworth, "nada pode devolver-nos a hora do esplendor na relva, da glória em flor".

Nada excepto a nostalgia das manhãs douradas do passado que nos preenchem o fio da memória enquanto os grãos de areia tombam no fundo da ampulheta a uma cadência inexorável.

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6 comentários

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De Ana Duarte a 23.09.2012 às 15:31

Ainda bem que voltou a esta série, da qual sou fã. A leitura do seu texto foi a minha madalena proustiana. Transportou-me à obra de Woolf que tanto prazer me deu quando a li, há meia dúzia de anos.
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De Pedro Correia a 23.09.2012 às 15:46

Ainda bem que gostou, Ana. Espero retomar esta série (e a prima direita, dos Grandes Contos) a um ritmo mais regular.
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De Ana Vidal a 23.09.2012 às 16:40

Pedro, não te sabia poeta! :-)
Gostei muito da tua leitura da Mrs. Dalloway. Foi um livro que me encheu as medidas.
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De Pedro Correia a 23.09.2012 às 18:16

Também a mim, Ana. E andei tantos anos a adiar a leitura deste belíssimo romance...
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De Laura Ramos a 24.09.2012 às 01:47

Sempre fundista, Pedro. Linguagem desportiva para o trabalho consistente.
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De Pedro Correia a 24.09.2012 às 16:19

A minha vénia agradecida, caríssima colega.

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