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A mentira na política.

por Luís Menezes Leitão, em 08.09.12

Há uns dez anos participei num congresso internacional de juristas, tendo falado com um colega holandês. Ele conhecia Portugal, mas tinha uma opinião muito crítica do país, tendo ficado especialmente perplexo com a degradação dos prédios da cidade de Lisboa, que achava lindíssima, achando inacreditável que nada se fizesse para resolver a situação. Mas o que mais o chocava era a mentira que sistematicamente via nos políticos portugueses. Dizia-me: "Vocês, portugueses, são um povo católico, que é ensinado a tudo perdoar após a confissão dos pecados. Nós somos um povo protestante e por isso somos absolutamente intransigentes com a mentira. Um político que nos tenha mentido uma única vez que seja, por muitas qualidades que tenha, nunca é mais considerado como um político em que possamos confiar, pelo que a sua carreira política acabou".

 

Na altura pensei logo no caso Profumo e na reacção que sem excepção todos os deputados ingleses tiveram quando perceberam que o Ministro tinha mentido no Parlamento. Ninguém mais o apoiou, nem sequer do seu próprio partido, dizendo-lhe que um político mentiroso devia era ir para casa. Mas na altura achei exagerada a afirmação. O que posteriormente se passou neste anos de chumbo em Portugal fez-me, porém, dar razão a esse diagnóstico. Sócrates foi apanhado a mentir no Parlamento sobre o caso TVI e foi imediatamente desculpabilizado pelos seus deputados que diziam que se tivesse ocorrido não era grave. O inquérito parlamentar que então foi aberto, e que podia ditar a demissão de Sócrates, evitando o que ocorreu posteriormente, foi convenientemente encerrado com o acordo do PSD. E ficou provado que mentir compensa em Portugal.

 

O governo actual tem sido, porém, especialmente refinado na mentira política. Primeiro foram as juras em campanha eleitoral de Passos Coelho a prometer que não haveria aumentos de impostos nem cortes de subsídios. Agora é o anúncio de que uma subida da TSU para os trabalhadores, aliviando-a para os empresários, é para satisfazer a equidade reclamada pelo Tribunal Constitucional. O CDS faz coro na mentira dizendo que uma subida da TSU não é um aumento de impostos. E um vice-presidente do grupo parlamentar do PSD quer-nos convencer com isto de que a culpa da subida da TSU decidida pelo Governo é de um grupo de deputados socialistas que, exercendo as suas competências, solicitaram ao Tribunal Constitucional que declarasse a inconstitucionalidade de uma medida que toda a gente sabia ser inconstitucional.

 

Confesso que já não sei o que me espanta mais. Se o facto de se recorrer à mentira com esta facilidade, se o facto de isto ser feito de forma tão grosseira, julgando que os outros são parvos. Just try harder.

 


6 comentários

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De Ssssstress a 08.09.2012 às 22:24

É comum dizer-se que a mentira tem perna curta.
E depois? Que importa isso quando não há quem queira apanhá-la? Ou (pior) quem o possa fazer seja conivente ou não tenha "tomates" para o fazer, que isto dos interesses pessoais devem ser acautelados!

Cumprimentos.

-peço desculpa pela referência hortícula mas não encontrei melhor termo para o fim em questão.
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De monge silésio a 09.09.2012 às 10:19

Desde que a política passou a ser marketing, que a mentira provável desta passou à probabilidade da mentira daquela.
Só que da probabilidade passou-se à certeza.

Para tal contribui a iliteracia geral do que é o "político".

Há um discurso contra o TC. Basicamente se diz que os juízes do TC foram os causadores. Este discurso revela ignorância.

Quem controla a constitucionalidade de uma lei, tem que olhar, dissecar sob o espírito norteador da Constituição a lei a constituír (caso da fiscalização abstracta), refletindo obviamente toda uma ideologia/mundividência presente nos conceitos.
Toda a palavra usada na CRP tem a sua história e o seu porquê. Contudo, a nossa CRP, apelidada de ser tecnicamente das melhores do mundo, é um compromisso entre a social-democracia ( a que o mundo sabe o que é, com excepção de Portugal) e um liberalismo de cariz social.
A palavra "equidade" tem um sentido para um socialista (demo-sociais, sociais-democratas, e mais sociais-xyz), e tem outro nos liberais (em alguns dos seus afluentes: minarquistas, libertários, xuxiais)...
A composição do TC reflecte essas visões. E os partidos sabem quando escolhem um candidato porque são técnicos de Direito que...já escreveram, já estudaram, e percebe-se a mundividência de cada um pelo...discurso.
E obviamente o resultado é perceptível.

O TC mexe com a política orçamental e assim com o Poder Executivo sendo ilegítima a sua atuação (como parece Frasquilho questionar)? A resposta é LER, ESTUDAR. O TC intervem num juízo normativo da política quando esta é , como não pode ser de outra forma , realizada pela LEI, a que ... não escapa um orçamento (algo adquirido há séculos...).

Por isso, meu caro, à mentira acrescente a ignorância.
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De André Miguel a 09.09.2012 às 11:33

Não é só o mentir, é o falar por falar. Os portugueses falam demais e daquilo que não sabem.
Não querendo desculpar PPC (que não tem desculpa possível) até posso engolir que na campanha não tivesse conhecimento da realidade financeira do país (desculpa esfarrapada, eu sei, caos contrário o que faziam os deputados na oposição?), mas se assim foi porque falou do que não conhecia e prometeu o que não sabia se podia cumprir?! A falta de bom senso e seriedade da nossa classe dirigente começa a ser angustiante.
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De lucklucky a 09.09.2012 às 15:20

"...mas se assim foi porque falou do que não conhecia e prometeu o que não sabia se podia cumprir?!"

Precisamente. É que não é só desonestidade, assusta mais a burrice.
É talvez o retrato de uma classe que só vive para o momento.
Essa cultura é também a que permitiu e permite que a Dívida aumente todos os anos.
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De Anónimo a 09.09.2012 às 20:53

O problema da democracia não reside no que ela é em si mesmo, mas no que lhe falta. E o que falta à democracia em Portugal é efectivamente a impossibilidade do exercício de cidadania a que todos temos direito. Este exercício é feito através de macanismos de bases - não de bases partidárias - que permitam um melhor controlo das políticas de estado, autárquicas e também das decisões judiciais. Ao cidadão, sob a falácia da expressão através do voto e de poder tudo o que quiser, é-lhe vedado os meios que lhe permitam interessar-se pela boa performance das instituições: políticas, judiciais, empresariais, sanitárias, policiais etc.
Isto ocorre não pela falsamente denominada iliteracia e iliteracia política desta gente, que já demonstrou ser grande em qualquer circunstâcia. Ocorre porque as instituições transformaram-se em clubes privados onde se colocam seguranças bem armados e musculados das mais diversas correntes e retóricas. Sendo que estes, sob o astro da alternância, se reproduzem a si mesmos.
O problema não reside no perdão, reside no facto de, pelos motivos citados, transformar-se o cidadão num ser acomodado, medroso e egoísta.
Padre António Vieira, citando o rei gentio Agamenão, afirmou: "Qui non vetate peccare, cum possit, jubet"; que significa: Quem, podendo, não impede o pecado ordena-o.

Num mesmo sentido, a afirmação de um dos padres da Igreja de outrora indica-nos: "Na relação entre o forte e o fraco é a liberdade que oprime, mas é a lei que deve libertar". E a lei, em Portugal, não liberta. Como tal, é necessário libertar a liberdade. Quando libertarmos a liberdade seremos um país próspero.

Até agora temos vividoa vida a qualquer preço (têm-nos comprado por tuta e meia), a partir de agora aprendamos a vivê-la custe o que custar. Este custe o que custar vejo-o na Cruz. Sim, é possível vencer a morte, a morte ontológica.

O seu colega holandês estabelece a comparação entre protestantes e católicos, mas Espanha e Itália, ao longo da história, têm reagido de forma diferente.
Creio que está na altura de deixarmos de ser esparançosos e começar a viver a Esperança, vivendo-a! Já tudo foi refelectido, resta agir.
"Abaixo do Sol não há nada de novo". Já tudo foi dito sobre a liberdade, resta-nos ser livres.

E sim, estes rapazitos não sabem que a equidade reside no facto de não se tratar de forma igual o que é diferente. A equidade para eles é colocar todos (menos aqueles a quem eles efectivamente representam) de igual modo a participar: tenham ou não tenham meios.

Quanto aos argumentos, eles são falsos. Quanto às politicas, elas são desastrosas e resumem-se a meter as pessoas e as instituições no corredor da morte. Quanto à maneira de governar, na sua postura, eles fazem lembrar gangsteres arrogantes e marialvas convencidos de ter um poder que na realidade não têm.
Eles esquecem-se que nem todos reagirão com uma bênção à maldição que propagam. Quanto eu desejo estar errado!
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De Anónimo a 09.09.2012 às 22:50

Por favor, leia-se: "e poder dizer tudo o que quiser" em vez de "e poder tudo o que quiser".

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