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Nova xenofobia

por José Maria Gui Pimentel, em 02.09.12

 

Durante muitos anos, Portugal, um país habituado a receber bem (bem demais) os europeus que via como superiores, desdenhou os emigrantes das ex-colónias africanas (os pretos). Não que isso tenha acabado, longe disso, mas novas vagas de imigração vêm trazer novos tipos de xenofobia.

A mais recente diz respeito aos imigrantes chineses. Não sei – honestamente, gostaria de saber – se a impressão é só minha, mas noto uma crescente má vontade generalizada em relação aos imigrantes chineses.

Confesso que tenho dificuldade em enquadrá-la completamente. Ao contrário de outros grupos de imigrantes, os chineses são ordeiros (porventura demasiadamente) e não estão associados a crimes de qualquer tipo (ou, por outra, estão, mas injustificadamente. Mas já lá vamos).

Uma explicação parcial para esta má vontade está relacionada com o espaço que as lojas de chineses vão tirando ao tão malogrado comércio tradicional. O português, avesso à mudança, estranha ver chegar hordas de chineses para montar lojas nos locais anteriormente habitados pelos ditos comerciantes tradicionais – tão pouco acarinhados no activo (daí falirem) mas tão amparados na desgraça. Ainda recentemente, numa edição das Conversas Improváveis, um programa da SIC, José Cid (que, quanto a mim, já tinha bebido uns copos…mas ainda assim) começou por gracejar que “os chineses são pequeninos e amarelos, não têm interesse nenhum”, para depois afirmar aquilo que muitos portugueses pensam: “eu acho que a invasão dos supermercados de chineses (…) veio destruir a vida de muitas famílias portuguesas que viviam na loja da esquina”.

A isto soma-se a enorme diferença civilizacional que nos separa, que faz com que os chineses mantenham um quase afastamento da sociedade em que, para todos os efeitos, estão inseridos. Além disso, revelam um trato, hábitos e até uma alimentação que impressionam pela diferença, causando estranheza e, não poucas vezes, desconfiança. Compreendo que isso aconteça, mas é preciso perceber que esta diferença é igualmente sentida por um ocidental na china, e que a nossa reacção ao isolamento deles cá é a mesma que eles mostram ao isolamento dos ocidentais em cidades como Shanghai.

A última explicação que encontro é a mais intrigante, pois baseia-se num mito antigo. Ainda um destes dias recebi um email, destes cujo conteúdo se adivinha logo pelo prefixo “Fwd” e pelo título em capitais (“CUIDADO - Lojas Chinesas-URGENTE LER”). Resumindo, era uma destas correntes de emails especialmente direccionadas a pessoas que conheceram a informática enquanto adultas e que, incautas e bem-intencionadas, reencaminham aquilo que lhes parece ser um aviso legítimo. Mas, como muitas vezes, não o era. O dito email relatava dois casos de rapto por parte funcionários (chineses) de lojas de chineses. A polícia era chamada por pais em pânico e salvava in extremis a jovem que “já tinha o corpo marcado perto de alguns órgãos vitais e o destino dela seria ser MORTA PARA TRÁFICO DE ÓRGÃOS”. Claro que, a ser verdade, um caso destes abriria os telejornais, por isso (e por outras razões) é fácil comprovar a falsidade deste relato. Desde e de outros semelhantes, que todos já ouvimos. Não obstante, numa leitura rápida e desatenta facilmente o leitor acredita na história e a faz passar, com mais um fwd e, quem sabe, no dia seguinte com os colegas de trabalho ao café.

Mais recentemente ainda contaram-me algo inacreditável que se passou na caixa do supermercado. Um chinês provavelmente recém-chegado tentou apresentar, num português macarrónico, um qualquer talão de desconto para comprar carne. A caixa não reconheceu a promoção e o dito chinês, perdido na tradução, decidiu desistir e pagar o total. Nisto, numa mistura entre falta de profissionalismo e racismo, a caixa atira cumplicemente a uma colega: “estes também… só sabem comprar carne”.

Era provavelmente um preconceito semelhante que inspirava uma imagem que vi partilhada recentemente no Facebook. Nesta, em letras grandes, perguntava-se ao ministro das finanças se também iria pedir facturas aos ciganos, às prostitutas, aos traficantes de droga e…aos chineses“ (note-se que pretos não figuravam na lista, sinal, bom, dos tempos). “Ou esses [todos] vão continuar a ser beneficiados?”, terminava o repto. Não é que os ciganos e as prostitutas mereçam ser ostracizados, todavia é verdade que são grupos associados a criminalidade. Já os chineses, malgrado os mitos que se vão espalhando, não têm esse proveito.

 

Concluindo, a má vontade em relação aos chineses que vai grassando é completamente infundada (para mais exemplos ver, por exemplo, este artigo). É verdade que os hábitos deles ainda nos são muito estranhos, porventura se-lo-ão sempre. Mas os nossos também lhes são. Por outro lado, é preciso perceber que não são os chineses que expulsam os portugueses do comércio tradicional, é o mercado que o faz, ou seja, são os comerciantes que se deixam ultrapassar. Se são os chineses que aproveitam, é apenas por falta de competência dos portugueses. Sobretudo – como dizem os sociólogos – é preciso calçarmos sapatos dos outros, perceber como seria se fôssemos ganhar a vida para um país estranho, com uma língua difícil (que, não obstante, lográvamos aprender), e em que nos olhavam de lado, como invasores a remexer numa decadência acarinhada. 


33 comentários

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De Maria Sousa a 03.09.2012 às 12:31

Nem mais, José. Análise atenta e bem apanhada. Pessoalmente, todas as experiências que tive com chineses foram agradáveis. Sempre muito simpáticos, sem excessos e sem "mariquices". Têm outros hábitos, é certo, mas e então? Os portugueses tb gostam de ser bem recebidos, e curiosamente não gostam de ser alvo das piadas dos brasileiros ou franceses, mas cascam nos chineses...
Um conselho, leiam bem o texto e pensem...
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De José Maria Gui Pimentel a 03.09.2012 às 14:53

Obrigado, Maria.

É disso que as pessoas se esquecem. De resto, é isso que acontece com todos. Não há nenhum povo que não seja "xenofobizado". E no entanto a xenofobia existe em todo o mundo, o que significa que muita gente não experimenta "calçar os sapatos dos outros".
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De Emanuel Lopes a 03.09.2012 às 14:53

A partir deste texto, posso constar que o nosso povo sempre precisou de alguém, ou algum grupo, para colocar as culpas da nossa situação. Durante muitos séculos, foram os Judeus, agora são os ciganos e os chineses. As outras minorias, como os africanos ou os árabes, não podem ser atacadas, por que se queixam logo de racismo. Agora nunca vi um chinês queixar-se de coisa nenhuma, muito menos de racismo. Eles, por assim dizer, não gostam muito de assumir protagonismos desnecessários, sendo que o grande problema é mesmo a integração com o população autóctone. À parte de certas coisas em que eles devem ser obrigados a interagir com as pessoas e instituições nacionais, não vejo grande mal em eles manterem a distância. É uma opção legítima.
Quanto à xenofobia, penso que a mesma decorre dessa opção. Quando falamos de minorias, tendemos sempre a generalizar a partir daquelas pessoas que conhecemos, porque a maior parte de nós já se relacionou com pessoas de outras origem, mas nunca interagimos com chineses, às excepção daqueles que frequentam os seus estabelecimentos comerciais, e mesmo aí, a conversa é nenhuma. Daí que para a maior parte da população, é bastante fácil generalizar, quando se referem aos chineses.

Trabalho numa instituição pública, embora não da zona de Lisboa, e nunca atendi qualquer cidadão asiático, e atendo bastantes africanos, brasileiros, etc., e em vários anos de trabalho em tribunais, apenas por uma vez vi umas partes de processo com nome asiático. Penso que isto revela bem o low profile que eles querem assumir.

E quanto à situação que descreveu no post, o e-mail que circula já é bastante antigo e refere-se a duas lojas na zona de Aveiro e, na altura a estudar na universidade, comentei a situação com uma colega, filha de um PSP, que me assegurou ser verdade o relatado, e que apenas não foi divulgado para não causar uma onda de ódio aos chineses. O que é certo é que, pelo menos, a loja do Retail Park já tinha fechado quando o e-mail começou a circular.
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De José Maria Gui Pimentel a 03.09.2012 às 17:12


É essa falta de contacto (que talvez parta deles) que gera isto, sim.

Quanto à história dos rins, tenho muitíssimas dúvidas. Dúvido que a PSP pusesse o bom nome dos chineses à frente da segurança pública.
Sobretudo à luz do sentimento transversal de antipatia que existe para com eles.

Ainda assim, é possível que até tenha ocorrido de facto. Em qualquer caso, como julgo ser também a sua opinião, continua a não poder tomar-se a parte pelo todo. Se um amigo alemão me perguntasse sobre a veracidade de um relato sobre uma empregada portuguesa ladra de rins eu certamente dir-lhe-ia que a história era falsa. Porém, não é verdade que não haja portugueses capazes de roubar rins, por isso nunca poderia saber...
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De Ana Vidal a 04.09.2012 às 11:59

Não tenho nada contra os imigrantes chineses. Pelo contrário, agradeço-lhes os preços imbatíveis que têm em muitos produtos e que lhes compro com muito gosto. Mas, se é verdade que eles não têm benesses fiscais ou de outro tipo em relação aos comerciantes portugueses, pergunto-me como diabo conseguirão estes vendedores de pechinchas arrendar espaços enormes em localizações de luxo. Dou um exemplo: a rua D. Pedro V, possivelmente o metro quadrado mais luxuoso de Lisboa, onde vejo agora várias lojas de chineses a ocupar espaços que eram antiquários caríssimos. Como??
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De José Maria Gui Pimentel a 04.09.2012 às 15:34

Ana, não faço ideia se terão benesses ou não. Acho muito improvável (o que não quer dizer que seja impossível). Normalmente os imigrantes sentem-se prejudicados pela lei. Serem beneficiados seria inaudito. Mas em Portugal…

Dito isto, isso também é irrelevante para este caso, porque a culpa, a ser verdade, é do legislador. De resto, eu considero que determinadas classes têm benesses injustas e não é por isso que defendo que sejam mal tratadas.
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De Ana Vidal a 04.09.2012 às 18:12

Zé Maria, é evidente que as benesses fiscais - se é que existem - não justificam o tratamento discriminatório em relação a uma comunidade pacífica. Nada justifica a xenofobia, que é um dos maiores cancros das sociedades e a causa de muitos dos problemas que elas enfrentam. O que explicam é a má vontade dos comerciantes portugueses, que se acham injustiçados e com razão, se for o caso. Gostava de saber se isso é ou não verdade.
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De José Maria Gui Pimentel a 04.09.2012 às 23:30

Eu tinha percebido isso, claro. Mas a má vontade dos comerciantes não é justificável por isto, mesmo a ser verdade. Quando muito justificava-se a má vontade em relação ao legislador, não ao alvo da legislação.
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De Ana Vidal a 04.09.2012 às 23:49

Oh, Zé Maria... isso é pedir muita racionalidade a quem vê o negócio ir por água abaixo. É claro que o culpado passa a ser o elo visível da corrente, é inevitável. Mesmo que tenhas muita razão... :-)
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De José Maria Gui Pimentel a 05.09.2012 às 11:14

Ok, acho que assim chegamos a um consenso: compreende-se mas não se percebe. Ou será mais percebe-se mas não se compreende? Nunca consegui deslindar este puzzle!
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De Christian a 05.09.2012 às 20:46

Eu como Neto de Português, acho o Povo Português muito isolado inclusiver dá Europa. Parece que só existe Portugual e as férias em uma Ilhas isoladas na África, que nem os Povos do Continente Africano podem utilizar.

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