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O jornalismo-alforreca

por João Campos, em 27.08.12

 

A propósito de recentes incidentes em praias na costa portuguesa, alguém pode mandar para as redacções uma nota a explicar que a caravela portuguesa não é uma alforreca?

 

Eu sei que hoje em dia há pouco tempo para investigar os assuntos sobre os quais se escreve, e que é muito mais fácil pegar nos textos (frequentemente mal escritos) da Lusa, mas neste caso bastam dois minutos no Google - não é preciso ir ao terreno ver esta criatura, que, muito curiosamente, é designada em todo o mundo por "Caravela Portuguesa" (ou Portuguese Man O'War). O rigor no jornalismo científico português partiu para parte incerta, o que é uma pena.


19 comentários

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De monge silésio a 27.08.2012 às 22:19

Nem mais !

O resultado da nossa educação está, entre outros lugares, no jornalismo que temos. É assim uma espécie de ... , "mais ou menos", ... "acho que sei..."
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De João Campos a 28.08.2012 às 20:50

Precisamente. Troca-se o rigor pelo palpite.
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De xico a 27.08.2012 às 23:05

Também ouvi. Se estivesse por perto, dava-lhe a provar a picadela de uma e de outra: logo veria a diferença. Tomei banho em praias infestadas de alforrecas. Pegava-lhes por cima e desde que os tentáculos não me tocassem não havia perigo. Já a caravela portuguesa a que chamávamos garrafa azul era outra história. Os seus tentáculos aumentam várias vezes de tamanho e mal se vêem.
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De João Campos a 28.08.2012 às 20:51

Não encontrei um único artigo na imprensa que acertasse nisto. É impressionante.
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De jpt a 27.08.2012 às 23:27

2 minutos de google? Quaisquer 15 segundos chegariam ...
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De João Campos a 28.08.2012 às 20:51

Sim, mas há que dar o benefício da dúvida: nem toda a gente é rápida a teclar, e a Internet está cheia de distracções :)
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De sampy a 27.08.2012 às 23:59

Vá, não convém exagerar. Pode não ser uma alforreca, mas tem aparência de alforreca, é aparentada das alforrecas e a melhor forma de a descrever em termos que todos entendam é chamando-lhe alforreca. Mesmo que não o seja, cientificamente falando.
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De Vasco a 28.08.2012 às 12:17

É por essas e por outras que as coisas se abandalham e perdem valor.
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De xico a 28.08.2012 às 13:48

Não tem aparência de alforreca. É para aí dez vezes inferior em tamanho à alforreca. A alforreca movimenta-se com o corpo, é gelatinosa e branca de corpo semi-esférico e os tentáculos não aumentam de tamanho. A caravela parece uma pequena bolha de ar de cor azulada, tranparente, e não tem locomoção própria e os tentáculos podem aumentar de tamanho várias vezes. A alforreca pode mergulhar, a caravela julgo que não. A caravela é de muito difícil sinalizar no meio da espuma ou bolhas de ar à superfície das águas.
A toxicidade de uma e de outra são de diferente nível de perigo. É o mesmo que dizer que uma barata ou um escaravelho são a mesma coisa.
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De João Campos a 28.08.2012 às 20:54

Excelente analogia, xico.
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De João Campos a 28.08.2012 às 20:54

sampy, o jornalismo digno desse nome deve explicar as coisas de forma a que todos entendam, sim, mas sem abdicar do rigor. Dizer "a caravela portuguesa, uma criatura parecida às alforrecas" é completamente diferente de dizer "uma espécie de alforreca" - e a diferença está entre usar uma analogia para explicar algo a quem possa desconhecer o assunto (a criatura, neste caso) e cometer um erro científico algo grosseiro.

Ou então voltamos àquele artigo do Público sobre o Large Hadron Collider: a dada altura a jornalista dizia que o acelerador de partículas era arrefecido a uma temperatura muito baixa… que um comentador apontou logo como impossível, uma vez que a temperatura indicada no artigo era inferior ao zero absoluto. Se calhar para quem lê e não saiba não faz diferença - é irrelevante escrever 20 graus negativos ou 275 graus negativos, pois partir dos zero graus centígrados é tudo frio como a porra. Já em termos de rigor a coisa deixa muito a desejar, não acha?
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De Vasco a 28.08.2012 às 00:23

O termo "caravela portuguesa", aliás, nunca se usou por cá. Em Português o nome é Medusa. E não é, de facto, uma alforreca.
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De xico a 28.08.2012 às 13:50

Sempre a conheci como garrafa azul. Medusa é para a poesia.
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De Vasco a 28.08.2012 às 18:02

Isso da "garrafa azul" deve ser uma designação popular e não é nacional com certeza. Parece um nome inventado lá no Alentejo ou coisa assim.
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De João Campos a 28.08.2012 às 20:55

Julgo - mas posso, claro, estar enganado - que "medusa" e "alforreca" é que são sinónimos. Pessoalmente, nunca me dei conta de outra designação para a caravela portuguesa - em tudo o que li, e não falo apenas da Internet, sempre encontrei referências à criatura como "caravela portuguesa". Se há outras designações populares, isso já não sei (o leitor xico usou a expressão "garrafa azul", o que é interessante).
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De xico a 31.08.2012 às 22:23

O termo garrafa azul era utilizado em Moçambique onde havia muito bicharoco desta natureza e alforrecas também. Miúdos que éramos tivemos de arranjar o nome para aquilo pois desconhecíamos a designação até da palavra inglesa que só vim a conhecer mais tarde e depois de nós os miúdos a designarmos por garrafa azul. Era comum nas águas com poucas ondas como as de Maputo, mas não em tão grande número como as alforrecas, felizmente para nós. As alforrecas eram autênticas pragas, cheguei a tirar da água às dezenas. O tratamento da picada da alforreca era esfregar a pele com areia. Já não resultava para a da caravela. Usava-se urina ou vinagre, o que desse mais jeito, e aguentava-se (mas julgo que pode causar a morte). Nas praias daquele tempo cada um desenrascava-se como podia e sabia.
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De Edgar Mosqueira a 28.08.2012 às 13:54

É verdade que o jornalismo luso, científico e nao só, demonstra um rigor cada vez menor, e os erros crassos sao cada vez mais um habitué nos media nacionais. No entanto, tal como uma caravela portuguesa nao é uma alforreca, Um 'Man-of-War' também nao pode ser corretamente traduzido por caravela. Esta designacao é usada pela Royal navy para se referir a navios de guerra ingleses, datados entre os séculos XVI a XIX, e os quais eram dividos por 3 classes, os Ships of the Line, Frigates e Corvettes. A diferenca poderá parecer demasiado técnica mas por isso mesmo, corrompe a a significacao que se procura atingir com a traducao; uma caravela era um navio de concecao ibérica. Era ligeiro, pequeno, com 2 mastros e por isso pouco armado. Já um Man-of-War era equipado com 3 mastros, tinha uma tonelagem bastante superior e poderia ter mais de 100 bocas de fogo.
A traducao tem destas coisas, e muitas vezes um conceito, uma ideia ou uma prática cultural nao encontram eco na língua-alvo, pelo simples facto de nao existirem na cultura onde essa mesma língua opera.
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De João Campos a 28.08.2012 às 21:01

Julgo que tem razão no que diz respeito à tradução de caravela. Resta saber qual a origem da imprecisão: se na designação inglesa da embarcação ibérica (e, por consequência, da criatura) ou na tradução portuguesa do mesmo nome.

De qualquer forma, o seu (excelente) comentário levou-me a gastar os tais dois minutos de pesquisa, e encontrei esta passagem na Wikipedia inglesa:

"In the first half of the 16th century, the Portuguese created a specialized fighting ship also called 'caravela redonda' to act as an escort in Brazil and in the East Indies route. It had a foremast with square sails and three other masts with a lateen each, for a total of 4 masts. The hull was galleon-shaped, and some experts consider this vessel a forerunner of the fighting galleon. The Portuguese Man o' War was named after this curious type of fighting ship which was in use until the 17th century."

Não sei se esta definição é rigorosa, mas de facto a caravela portuguesa (a criatura) é muito mais parecida com a tal "caravela redonda" do que com a tradicional caravela.

De qualquer forma, a questão do artigo mantém-se: 1) o animal em questão não é uma alforreca e 2) em língua inglesa, a criatura é designada por "Portuguese Man O'War", que é habitualmente traduzida neste contexto por "caravela portuguesa". Quanto a mim, nunca vi nenhuma criatura destas, apesar de já as conhecer de livros e documentários há largos anos - daí não conhecer eventuais designações populares, como "garrafa azul", a que o leitor xico aludiu acima.

É possível que a uma escala popular, e na falta de nome melhor, a caravela portuguesa seja de facto designada por alforreca. Isso não me faz confusão; incomoda-me, sim, a falta de rigor dos media, que tinham obrigação de ser um bocadinho melhores do que isto.

Agradeço, já agora, a pequena lição sobre embarcações, e a reflexão que proporciona sobre os problemas da tradução :)
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De Illusive Man a 28.08.2012 às 23:38

Isto faz-me lembrar o erro comum do pessoal dizer que despovoamento do Interior = desertificação, quando uma coisa não tem nada a haver com a outra.

Despovoamento = saída da população de uma determinada localidade

Desertificação = processo de aridez do solo.

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