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E depois dizem que não querem ser tratados assim

por José Navarro de Andrade, em 26.08.12

Um das expressões mais bizarras do léxico português é o substantivo plural “políticos”, quase sempre acompanhado pelo artigo definido, pronunciado com inflexão e acinte – “os políticos”.

É uma estranha palavra porque indiferencia uma ampla e heterogénea colecção de objectos, abrangendo na mesma penada os deputados Ribeiro e Castro e Mariana Aiveca, que nada têm em comum, e é incapaz de distinguir entre o sr. Luís Montenegro, prestimoso líder da bancada do PSD, e o sr. Sérgio Azevedo, por exemplo, importante figura do PSD da freguesia do Sacramento (624 eleitores) e de resumidíssima intervenção parlamentar. Um substantivo que se aplica tanto a um Presidente de Junta de Freguesia como ao Presidente da República, deve faltar-lhe alguma qualidade.

E no entanto a expressão “os políticos” costuma fazer todo o sentido na linguagem comum. Porquê? Será porque as pessoas são grosseiras, incultas e pouco dextras com a língua? Ou será porque há qualquer coisa muito nítida que atravessa todos “os políticos” que permite reduzi-los à indiferenciação?

Por exemplo: no dia 29 de Junho a Assembleia da República (AR) votou por unanimidade a transmissão do Canal Parlamento na TDT. Disto pode-se retirar uma importante conclusão: a AR, na abstracção jurídica representante da nação, na prática representa tão somente os interesses corporativos dos seus ocupantes – precisamente “os políticos”.

Tal como os rios, a atmosfera, ou a orla marítima, as frequências televisivas e radiofónicas são considerados bens comuns, pelo que se diz que devem estar sob a alçada do Estado. Este só as cede à prática de terceiros, mediante minuciosa e cuidadosa legislação, concurso público e caderno de encargos. Ora, quando a AR toma a TDT como propriedade sua e não do Estado e delibera o usufruto próprio de uma frequência de TDT, fora das condições que impõe ao resto da sociedade, ela está a ser autocrática, conveniente e irresponsável. Havendo unanimidade nesta votação, só demonstra que os deputados, ou por ignorância ou por má-fé, agiram como uma corporação, ou seja, mesquinhamente em busca da satisfação dos seus interesses particulares.

Assim sendo, a expressão “os políticos” é estúpida, mas, talvez por isso mesmo, faz todo o sentido.


8 comentários

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De monge silésio a 26.08.2012 às 18:06

1.- É preciso ter tento expressivo para meter os "políticos" no mesmo saco como bem se afirma.

2.- Contudo, olhando para o cartaz eleito seja nas autarquias, seja na AR fácil é de perceber que escasseia a qualidade.

3.- Não me refiro a um Álvaro Cunhal, a uma Leonor Beleza, a um Manuel Monteiro, a um Adriano Moreira, ou a Francisco Louçã, gente que prestigiou o que é estar na política, independentemente das mundividências que partilhavam. Nesse tempo, também havia os Zé-Tó´s, os Maneis, as Ana´s, as Guida´s, ou os Quim-Tó´s, ... ... mas estavam calados, ou então, emprestavam uma caneta, ou faziam recados seja na praça do município ou lá para S. Bento.

4.- Hoje, os eleitores são bombardeados pelos Menezes, pelos Almeidas, pelos Amarais, Montenegros, Galambas, e Cia, dentro de um espírito de falar por falar, sem discurso objetivo, curto, e de luminosidade (visibilidade) da palavra, próprio de quem teve vida anterior ao Parlamento e que estuda.

5.- Perde-se a acção, perde-se o discurso.

6.- Mas também é efeito de algo muito mais perigoso.

7.- Não há um político em Portugal que ao candidatar-se diga o que se quer do Estado. As siglas partidárias são de um tempo em que o Ocidente crescia a 3% do PNB ao ano. E, por falta de meditação, tudo parece o mesmo entre os partidos "socialista, social-democrata,democrata-social".

8.- Também na sociedade civil, a discussão é sobre a marcação do penalti, e não do jogo todo. Sobre a pessoa (discurso das testemunhas de carácter), e não sobre o conteúdo em si da ideia.

9.- No meio do nada, cada um ruma em função do inter-esse, e não da sua visão do Mundo que quer dar à àgora da discussão.

10.- A Europa afunda-se a olhos vistos, e não há um eleito sobre um discurso para a Europa. O Ocidente agoniza, e não há um eleito que defenda a sua herança "custe o que custar". O país embrulha-se em mais dívida e defende-se receitas "light" dos manuais do séc. passado.

11.- Os eleitos são o nosso espelho, como o foram.
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De Ana Vidal a 26.08.2012 às 18:57

Bem visto. Mas... uma ampla e heterogénea colecção de "objectos"? caramba, isso é pior ainda do que chamar-lhes indiscriminadamente "os políticos"... :-)
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De José Navarro de Andrade a 26.08.2012 às 19:07

Toma por princípio que os substantivos designam objectos. Pode parecer insultuoso mas não é - ou será um acto falhado meu?
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De Ana Vidal a 26.08.2012 às 19:32

Humm, eu diria que é... lol
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De portuguesacoriano a 26.08.2012 às 22:23

Políticos, os mestres da arte ou da ciência (como preferirem) da política. Essa arte de guiar o governo pela influência da opinião pública, pela aliciação de eleitores.
Dizem que o termo expandiu por obra de Aristóteles, grande pensador que esmiuçava e reconstruia as várias formas de estar do Governo. Como gosto de histórias e até dou uns toques de Filosofia e como este blog tem a particularidade de me fazer gastar energia com pensamentos mais aprofundados (admito que até gosto e hoje que é Domingo até calha bem).
Esta arte ou ciência da retórica remete-me lá para os confins da História, para Platão, seu diálogo com Sócrates intitulado "A República", que tem como tema central a "Justiça", palavra eleita ou original não sei, pois há quem defenda que o debate é sobre "Moral" (pessoalmente, faz mais sentido) e que as traduções é que deturparam a coisa. De qualquer forma fiquemos pelo formalizado: "Justiça". Para falar de Justiça, temos de falar em leis e com isto ainda temos que ir mais atrás na história, até Heródoto. Consta que certo dia Heródoto estando talvez no cimo de uma montanha, reparou naquilo que hoje chamamos Cultura ou Multiculturas e observou que: se fosse proposto a todos os Homens do mundo que examinassem os costumes alheios acabariam sempre por preferirem os seus próprios costumes. Para ele ficou claro que os costumes (nomos) eram a lei que governava e logo o rei que representava essa lei dos costumes era o rei Nomos. Naturalmente que isto para funcionar o rei teve que manter a coisa em ordem e então lá ia estabelecendo regras(leis) assentes nos pressupostos dos bons costumes. Estes surgiam do medo e do pavor à má reputação e da ambição pela estima. Assim a coisa ficou calma durante muito tempo, foi evoluindo e com a evolução o aumento da diferenciação entre virtude vs. vício, bons costumes vs. maus costumes, bem vs. mal, etc. Passados muitos anos, o rei teve que se rodear de conselheiros, não mais do que pequenos reis, e, claro que por entre tantos, a ganância lá ia ganhando forma pela corrupção. Ora, certo dia, surge Platão que era, por certo, um rapaz bem intençionado, pois queria acabar com a corrupção,e, preocupado com tanto mau governo pôs-se à conversa com o amigo Sócrates. Parece que denominaram a merda que por lá andava de República e como queriam resolver o problema facilmente perceberam que tinham de criar algo que arbitrasse o jogo, a que chamaram de Justiça. Conversando foram concluindo, entre outras coisas, que quando alguém resiste a que as suas vontades sejam moldadas por forças externas essa resistência é desconfiança que consequentemente gera hostilidade. Isto acontecia, ou acontece, porque ficavam com medo da tirania dos costumes e das tradições, na sua forma convencional. Então debruçaram-se sobre as convenções dos costumes. Entenderam que estes atraiam as necessidades e os desejos que, por sua vez, serviam propósitos e estes propósitos dão assistência à sua autoridade. Então se as leis formalizavam os costumes para que a malta não desate à pancadaria, são estas que ditam as regras do jogo. Logo ficou claro para eles que os costumes ou modas podem ser arbitrários mas as regras nunca. E plim! Fez-se luz: descobriram a Justiça criada pela razão. Espertos não? A malta aceitou a coisa e lá foram passando os anos até que surge Aristóteles. Este era um rapaz mais rebelde. Teimou em dizer que Platão não sabia tudo, pois acreditava ele que as regras do jogo devem obedecer a mais pressupostos, então junta a Natureza à coisa. Para este as regras (leis) devem continuar a surgir da oposição entre a razão e os costumes (Ethos) mas, moderada por um tripé composto por ambos e a Natureza (o lado animal), pois para ele, os costumes partem da natureza e transcendem esta ao gerar o sistema social de normas, chegando assim à razão, a qual cria as regras (leis) que formalizam os costumes (Ethos). Ou seja, a razão em forma de lei é superior mas pressupõe sempre os costumes e a natureza.
Desenhando: Platão diz que a lei está entre o conflito da razão com os costumes. Aristóteles diz que a lei está no topo.
(continua)
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De portuguesacoriano a 26.08.2012 às 22:25

(continuação)
Os políticos de hoje tendem a se refugiar nos prenunciamentos parlamentares e nos tribunais. Estes, por sua vez. só vão contrabalançar com as «boas razões» ou os «bons costumes». Logo, temos de novo «o rei Nomos» mas desta com um caderno de encargos criado por mentes completamente afastadas da realidade. Nem Platão nem Aristóteles.

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