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Sobre Chesterton

por José António Abreu, em 15.08.12

inclusão de Chesterton na lista do Pedro Correia sobre autores que mereciam o Nobel mas não o obtiveram, e a reacção à frase que ele escolheu para ilustrar o post, fez-me pensar num texto de Jorge Luís Borges intitulado, precisamente, "Sobre Chesterton". Não é segredo que Chesterton levava o seu catolicismo muito a sério nem que, apesar disso, o temperava com excelentes tiradas humorísticas. Como nos casos de Graham Greene, Evelyn Waugh, Flannery O'Connor e de muitos outros escritores católicos do século XX (o século em que a crença religiosa passou a constituir um anátema para os intelectuais), a relação de Chesterton com a fé não estava isenta de dúvida; era antes uma busca constante por sinais de que ela tinha razão de ser, no pressuposto de que era necessária. No tal texto, incluído em Outras Inquirições, Borges refere como os crimes que o padre Padre Brown investiga parecem, de início, admitir apenas explicações sobrenaturais mas acabam sempre por revelar-se actos de responsabilidade cem por cento humana. Aliás, que o Padre Brown seja padre é já um indício dos dilemas de Chesterton: que melhor ligação entre o mundo humano e o mundo transcendental, entre o crime (ou o pecado) e a capacidade para o deslindar (ou compreender) do que um detective que é padre? Nas investigações do Padre Brown ou até nesse fantástico O Homem Que Era Quinta-Feira, Chesterton parece sempre convocar o extraordinário (não apenas de índole católica; Chesterton sentiu-se atraído pelo oculto e pelo divino muito antes de, em 1922, se converter ao catolicismo  de resto, tanto O Homem que Era Quinta-Feira como muitas histórias do Padre Brown são anteriores à conversão) para, no último instante, recuar, aceitando que o transcendente poucas vezes mostra necessidade de desafiar as convenções humanas. Recorrendo a Kafka e a Bunyan, Borges explica-o melhor do que ninguém na parte final do seu texto:

 

É isso tudo, salvo que a razão a que Chesterton submeteu as suas imaginações não era precisamente a razão, mas sim a fé católica, ou seja, um conjunto de imaginações judaicas submetidas a Platão e Aristóteles.

Recordo duas parábolas que se opõem. A primeira consta no primeiro tomo das obras de Kafka. É a história do homem que pede para ser admitido na lei. O guarda da primeira porta diz-lhe que lá dentro há muitas outras e que não há sala que não esteja custodiada por um guarda, cada um mais forte que o anterior. O homem senta-se a esperar. Passam os dias e os anos e o homem morre. Na agonia pergunta: «Será possível que em todos estes anos que estive à espera ninguém tenha querido entrar senão eu?» O guarda responde-lhe: «Ninguém quis entrar porque só para ti estava destinada esta porta. Agora vou fechá-la.» (Kafka comenta esta parábola, complicando-a ainda mais, no capítulo nove d'O Processo.) A outra parábola está no Pilgrim's Progress, de Bunyan. A multidão fita cobiçosa um castelo guardado por muitos guerreiros; na porta está um guarda com um livro para escrever o nome daquele que for digno de entrar. Um homem intrépido aproxima-se desse guarda e diz-lhe: «Anote o meu nome, senhor.» A seguir saca da espada e lança-se sobre os guerreiros e recebe e devolve feridas sangrentas, até abrir caminho por entre o fragor e entrar no castelo.

Chesterton dedicou a sua vida a escrever a segunda das parábolas, mas algo nele propendou sempre para escrever a primeira.

(Obras Completas de Jorge Luís Borges, Vol. II, Editora Teorema (1998), tradução de José Colaço Barreiros.)

 

Devo confessar que me lembrei deste texto por causa dos últimos dois parágrafos – dos quais, aliás, me lembro frequentemente. Aplicando-se na perfeição à vida de Chesterton, aplicam-se também à da maioria das pessoas, dediquem-se à escrita de romances ou de e-mails, sejam crentes ou agnósticas. Passamos a vida procurando viver (ou procurando convencer-nos de que vivemos) a segunda parábola mas, na verdade, poucos de nós conseguem deixar de viver a primeira. E talvez duas das melhores formas de encaixar a percepção dessa incapacidade passem por aceitar a existência de desígnios superiores, os quais é mais produtivo aceitar do que combater, e por usar o humor, esse excelente método de controlar ilusões e megalomanias. Chesterton usava ambas. Serão mais perigosas (para os outros e para si próprias) as pessoas incapazes de usar qualquer delas.


8 comentários

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De Pedro Correia a 15.08.2012 às 18:50

Excelente reflexão, JAA. Tal como referes, "a relação de Chesterton com a fé não estava isenta de dúvida; era antes uma busca constante por sinais de que ela tinha razão de ser, no pressuposto de que era necessária".
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De Teresa Ribeiro a 16.08.2012 às 14:19

Eu e Chesterton, almas gémeas:)
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De José António Abreu a 16.08.2012 às 14:37

Teresa: considerando que ele media 1,93 m e pesava 130 kg, ainda bem para ti que só as vossas almas são gémeas. :)

Já agora, copiado da Wikipedia:
His girth gave rise to a famous anecdote. During World War I a lady in London asked why he was not 'out at the Front'; he replied, 'If you go round to the side, you will see that I am.' On another occasion he remarked to his friend George Bernard Shaw: "To look at you, anyone would think a famine had struck England". Shaw retorted, "To look at you, anyone would think you have caused it". P. G. Wodehouse once described a very loud crash as "a sound like Chesterton falling onto a sheet of tin."
:)
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De José António Abreu a 16.08.2012 às 14:32

Obrigado, Pedro. Estava a ler Virginia Woolf - contemporânea de Chesterton, apesar de ligeiramente mais nova - quando vi o teu post. E fiquei a pensar como, sendo excelentes para a literatura, as buscas dos escritores não-crentes por um sentido para a vida acabam tantas vezes no suicídio. Ainda que, se forçado a pensar no assunto, eu tenha de me considerar ateu, admito que há na(s) religião(ões) muitos elementos que podem ajudar a pacificar a vida dos seres humanos. E, assim, compreendo perfeitamente a posição de gente como Chesterton.
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De monge silésio a 15.08.2012 às 20:06

Apesar de estar na bloguística há algum tempo, tenho poiso no http://criado-de-chesterton.blogs.sapo.pt/ são convidados! É certo que há lá muito de ideológico, pouco literário (aqui asseguro-vos as minhas limitações que ainda só passam do acto preparatório mas não da tentativa)... é um criado que escreve...
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De José António Abreu a 16.08.2012 às 14:45

monge: gostei; bastante. Ando meio alheado da blogosfera - até deste blogue :) - mas vou tentar passar pela sua casa de vez em quando.

E a citação de Chesterton que publicou hoje de manhã é sublime:
http://criado-de-chesterton.blogs.sapo.pt/18174.html
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De Teresa Ribeiro a 16.08.2012 às 14:18

Que prazer me deu ler este teu texto, Jaa. Obrigada.
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De José António Abreu a 16.08.2012 às 14:37

Obrigado eu, Teresa. Foi um prazer.

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