Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




"Obama, Roosevelt e as lições do passado"

por José Gomes André, em 30.04.09

É o título de um artigo que tive a oportunidade de escrever para o "Público", a propósito dos primeiros "cem dias" de Obama. Para os interessados, e para quem não pôde ler (o acesso online é restrito a assinantes), fica aqui a peça (longa, desde já previno).

 

"A referência aos primeiros cem dias de governação como um importante barómetro político nasceu com a Presidência de Franklin Roosevelt, cujo início foi caracterizado justamente por uma crucial e frenética acção governativa, determinante para salvar os Estados Unidos de uma crise sem precedentes. O momento era especialmente grave: o desemprego atingira em 1932 os 24%; a economia conhecera uma contracção de 13,4% e o sistema bancário estava à beira do colapso. Impulsionado por uma vitória retumbante, Roosevelt avançou porém com um vasto programa político capaz de combater aquele cenário negro, fazendo jus ao lema que havia enunciado no seu discurso inaugural: «A única coisa de que devemos ter medo é o próprio medo».  

 

Beneficiando de um claro apoio do Congresso (reunido em sessão especial durante 99 dias, por exigência do Presidente), a Administração Roosevelt conseguiu fazer aprovar e implementar quinze grandes pacotes legislativos em pouco mais de três meses, contrariando a inércia governativa que marcara a anterior Presidência do Republicano Herbert Hoover. Logo no seu primeiro dia na Casa Branca, Roosevelt ordenou que fossem encerrados dezenas de bancos, submetendo-os a rigorosas inspecções e garantindo que só seriam reabertas as instituições fiáveis. Esta medida foi determinante para restabelecer a confiança pública no sistema bancário, sujeito a partir de 1933 a novas regras de supervisão. Do mesmo modo, o mercado bolsista – responsável em grande parte pelo colapso financeiro de então – passou a ser severamente controlado pelas instâncias federais.

 
Os primeiros meses da Administração Roosevelt ficaram ainda marcados por evidentes preocupações sociais, tendo sido criados subsídios de desemprego e programas de auxílio aos sectores mais desfavorecidos. Por outro lado, foram também lançados diversos empreendimentos públicos, com o objectivo de estimular a anémica economia americana e enfrentar o desemprego galopante. Neste âmbito, merecem destaque a criação da Administração de Obras Públicas (cujo orçamento de três mil milhões de dólares foi utilizado na construção de diversas infra-estruturas), os vários incentivos concedidos à indústria, e a formação da Tennessee Valley Authority (uma organização federal que fomentava o desenvolvimento económico no sul do país).
 
Esta inusitada expansão do governo federal consignava uma ruptura com a abordagem tradicional da política americana, mas Roosevelt não hesitou em utilizar a intervenção estatal como forma de combater a Grande Depressão. No seu entender, a gravidade das circunstâncias exigira uma abordagem mais agressiva do poder executivo, atitude que mereceu grande apreço entre a opinião pública, galvanizada pela determinação de Roosevelt.
 
São visíveis as semelhanças entre este período singular da história americana e a nossa época. Tal como em 1933, vivemos hoje uma acentuada crise económica e financeira, com graves repercussões sociais. E tal como em 1933, a Casa Branca é habitada por um Presidente resoluto, que nos primeiros meses do seu mandato apresentou uma vastíssima agenda governativa – a qual em grande medida mimetiza o espírito e a própria substância do programa defendido por Roosevelt. Como no passado, a Administração Obama começou por sanear um sistema bancário gravemente enfermo (nomeadamente através da aquisição de activos tóxicos e da revitalização dos mecanismos de crédito). Submeteu Wall Street a uma reforçada supervisão estatal, fazendo aprovar novas regras de conduta no mercado bolsista e limitando ainda a atribuição de prémios nas administrações auxiliadas por fundos públicos. Lançou o maior pacote de estímulo económico da história americana (num total de 789 mil milhões de dólares), que engloba apoios federais à indústria automóvel e outras áreas vitais. E promoveu várias medidas de auxílio social para os desempregados e para o crescente grupo de famílias endividadas, às quais foi permitido que renegociassem os seus empréstimos junto dos bancos. 
 
Por outro lado, este programa de componente essencialmente económica tem sido acompanhado de um multifacetado ímpeto legislativo, com incentivos às energias renováveis, medidas contra a discriminação laboral, novos limites para a intervenção dos lóbistas na Casa Branca, e ainda acções de forte simbolismo, como a condenação da tortura e o fim das detenções em Guantánamo. Também no campo da política externa a Administração Obama tem revelado uma assinalável dinâmica, com o reforço do contingente militar americano no Afeganistão, um plano de retirada a médio-prazo das tropas de combate no Iraque, e uma nova abordagem nas relações diplomáticas com Cuba, Rússia e Irão, entre outros países problemáticos.
 
À semelhança de Roosevelt, Obama beneficiou até aqui de um significativo apoio da opinião pública (a sua taxa de aprovação após os primeiros “cem dias” situa-se nos 63%), e tal como o mítico Presidente, tem sido elogiado pela sua determinação e pela mensagem de esperança que procura inculcar numa sociedade em crise. Resta contudo saber se as suas políticas terão efeitos tão duradouros e benéficos como as defendidas por Roosevelt há 76 anos atrás. Nesse sentido, o derradeiro teste para Obama ainda está por vir.".


2 comentários

Imagem de perfil

De Jorge Assunção a 30.04.2009 às 01:41

Estou a assistir à conferência de imprensa de Obama na CNN. Tenho pena que a política portuguesa não possa ser assim...
Imagem de perfil

De José Gomes André a 02.05.2009 às 04:37

Também eu, caro Jorge, também eu...

Comentar post



O nosso livro



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D