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Grandes romances (2)

por Pedro Correia, em 14.07.12

 

LER PARA CRER

O Poder e a Glória (Graham Greene)

 

«E vós sereis odiados por todos, por causa do Meu nome. Mas aquele que se mantiver firme até ao fim será salvo.»

Mateus, 10: 22

 

Um homem acossado percorre montes e vales, refugia-se em grutas e becos, vai a pé ou sobre o lombo errante de uma mula: é um padre clandestino no estado de Tabasco, algures durante o mandato do presidente Plutarco Calles ou do seu sucessor, Lázaro Cárdenas, no auge das perseguições religiosas desencadeadas pelo poder político mexicano sobretudo entre 1926 e 1934. Nessa época, pelo menos 4500 padres foram mortos ou expulsos do país.

Em 1935 não havia nenhum em 17 estados mexicanos.

Jamais conheceremos a identidade deste sacerdote. Mas sabemos que é um ser torturado: vive há oito anos sem poiso certo, acolhido por pobres camponeses - os mais humildes entre os humildes. Está antecipadamente condenado ao pelotão de fuzilamento como outros padres acabaram condenados à morte civil, forçados ao casamento para escapar à prisão e destituídos do direito de voto num estado onde todas as igrejas foram incendiadas ou encerradas. Apenas por ter cometido o delito da fé: ser crente no México daqueles presidentes apostados em banir toda a devoção religiosa era algo mais condenável do que o crime de homicídio.

 

Graham Greene (1904-91) viveu alguns meses no México em 1938 e trouxe de lá concebido O Poder e a Glória, considerado pela Time um dos cem melhores romances em língua inglesa editados desde 1923, ano da fundação da revista. Publicado em 1940, com uma modesta tiragem de 3500 exemplares, tornou-se desde logo um marco da literatura. Se não tivesse lançado mais nenhum romance, bastaria este para dar justa fama ao escritor britânico que se converteu ao catolicismo após atingir a idade adulta.

Nas palavras categóricas do Nobel da Literatura William Golding, Greene "captou como ninguém a consciência do homem do século XX". John Updike, num artigo publicado em 1990 no New York Times, considerou O Poder e a Glória "uma obra-prima". Mario Vargas Llosa, num ensaio inserido no seu livro La Verdad de las Mentiras, pronuncia-se deste modo: "Continua a ser um poderoso romance, que através de uma história simples mas eficaz, magnificamente narrada, dramatiza o velho antagonismo entre a razão e a fé, ou, numa perspectiva mais abrangente, o das utopias cruzadas do espiritualismo e do materialismo."

 

É um romance muito engenhoso no inesperado desenvolvimento das duas personagens centrais, ambas sem nome: o padre e o tenente da polícia que o persegue com obsessão fanática. O segundo, austero e abstémio, parece muito mais virtuoso do que o primeiro, pecador que jamais alguém ouvirá em confissão. Mudassem as circunstâncias e o tenente que vive indiferente às paixões da carne numa espécie de cela monacal poderia ser padre. Mas o ódio à religião consome-o com uma voracidade directamente proporcional ao seu anseio de libertar os conterrâneos das amarras da injustiça. Sem reparar que nada pode ser tão injusto como certas engenharias sociais apostadas em eliminar o direito natural à fé.

"Por amor deles, era capaz de uma chacina; primeiro a Igreja, em seguida o estrangeiro, o político depois; até o seu próprio chefe, um dia, teria de ser eliminado. Queria começar de novo o mundo com eles, num deserto." Assim era o tenente. Na sua autobiografia, Greene reconhece que havia muito de realidade nas figuras do romance, mas confessa ter idealizado o perseguidor do padre: "Não encontrei o idealismo nem a a integridade do tenente entre os polícias e os pistoleros com quem me cruzei no México. Foi invenção minha."

 

The Power and the Glory (tradução de António Gonçalves Rodrigues para a edição portuguesa dos Livros do Brasil) é uma obra escrita por um católico firme no combate às ortodoxias. Em 1953 - quando o romance já tinha sido adaptado ao cinema, seis anos antes, por John Ford - a Santa Sé pronunciou-se com reservas sobre o seu conteúdo, considerando-o "paradoxal". Palavras produzidas por alguém mais papista que o Papa. Ao receber o escritor no Vaticano, em 1965, Paulo VI confidenciou-lhe que tinha apreciado este livro que estabelece um paralelo quase herético entre o padre em pecado mortal e o Cristo que nos surge eternamente vivo nas páginas do Evangelho de Mateus.

É uma obra cheia de cenas que nos ficam gravadas na memória. O encontro do sacerdote com a filha ("a luxúria não é o pior de tudo. É só porque a luxúria se pode transformar em amor que temos de a evitar. E quando amamos o nosso pecado em verdade estamos condenados"). O dramático instante em que, faminto, disputa um osso com uma cadela quase moribunda. A conversa travada num quarto de pensão infestado de baratas com o corrupto chefe da polícia que lhe bebe todo o vinho destinado à consagração nas missas clandestinas. A espantosa cena em que o padre José, autêntica ruína moral, se nega a satisfazer a última vontade do seu irmão de fé mesmo quando incentivado a isso pelo tenente. A noite passada numa cela superlotada ("palpitava-lhe no íntimo um afecto enorme e irracional pelos habitantes da prisão"). O momento em que o mestiço, como Judas, o entrega ao tenente, curiosamente acompanhado por 12 soldados numa alusão simétrica - e também quase herética - aos apóstolos.

"Era fácil morrer pela bondade ou pela beleza, pela pátria ou pelos filhos ou por uma civilização, mas só um Deus podia morrer pelos maus e pelos corruptos."

 

É um romance em grande parte passado de noite - metáfora recorrente do México daqueles anos - e sob a presença obsessiva dos bútios, ave de rapina que se alimenta de cadáveres. Um romance dominado pelo impiedoso exame de consciência do sacerdote que se sabe condenado: resistiu às iniquidades mais que os outros não por ser santo ou herói mas pelo que considera o seu orgulho desmedido.

Mas é também um livro que reivindica de forma inigualável o direito à esperança, interpelando as convicções de todos - crentes e não crentes: "A esperança é um instinto que só o raciocínio humano pode matar. Os animais desconhecem o desespero."

Um livro dicotómico, percorrido pelas trevas mas que termina de forma luminosa. Basta ler para crer.

 

Ilustração principal: fotograma do filme O Fugitivo, de John Ford (1947)

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22 comentários

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De Ana Vidal a 14.07.2012 às 12:57

Li-o há muitos anos, no tempo das grandes causas e dos grandes gestos. E nunca mais me esqueci de algumas cenas descritas, como aconteceu contigo.
Parabéns por este grande texto de apresentação de um grande livro.
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De Pedro Correia a 15.07.2012 às 14:01

Obrigado, Ana. Há livros que nos desiludem profundamente quando os relemos. Não foi o caso deste, muito antes pelo contrário. Aliás a obra de Greene, que conheço toda, nunca me decepcionou - nem à primeira leitura nem em fase de releituras. Espero voltar aqui em breve com outro romance dele de que gosto muito - 'O Fim da Aventura', traduzido pelo Jorge de Sena.
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De Ana Vidal a 16.07.2012 às 17:34

Esse nunca li, só vi o filme (que está bem feito, por sinal).
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De Pedro Correia a 16.07.2012 às 21:07

O filme é belíssimo - ao nível do livro, aliás. Já a adaptação cinematográfica de 'O Poder e a Glória', mesmo assinada por John Ford, é muito inferior ao romance. Hei-de falar disso em pormenor quando lançar a série que compara os livros com as respectivas adaptações ao cinema.
Greene ficou furioso ao ver as arestas todas limadas - à moda de Hollywood - do seu romance transposto para os ecrãs cinematográficos. E durante décadas referiu-se ao assunto sempre com azedume, lançando duras farpas a Ford. Pior só o assassínio em forma de filme que lhe fizeram, cerca de dez anos mais tarde, com outro dos seus grandes romances, 'O Americano Tranquilo' (realização de Joseph Mankiewicz). Este viria no entanto a ter uma versão aceitável, de 2002, protagonizada pelo Michael Caine. Mas Greene já cá não estava para a ver.
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De Ana Vidal a 16.07.2012 às 22:22

Talvez porque eu gosto muito do Michael Caine achei esse filme muito bom. Mas esse li e gostei muito.
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De Pedro Correia a 20.07.2012 às 23:01

'O Americano Tranquilo' é um dos livros da minha vida, Ana. Quero escrever também sobre este romance tão premonitório sobre o Vietname, no âmbito desta série.
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De Ana Vidal a 21.07.2012 às 23:40

Premonitório mesmo, tens razão. Visto à distância, quase um aviso.
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De Pedro Correia a 22.07.2012 às 22:50

Sem dúvida, Ana. (A ver se o releio novamente para escrever sobre este romance de que gostei tanto, uma e outra vez).
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De Ana Cláudia Vicente a 17.07.2012 às 12:44

Quando saí d'O Fugitivo' tive essa sensação de larga distância da grandeza do livro; é uma versão bastante 'pasteurizada' e limitada da história original, apesar de ser do Ford. Imagino, ainda assim, o safanão que deve ter causado naqueles meados de quarenta.

Por mais estranho que pareça, não me tinha apercebido dessa omnipresença da noite de que falas, Pedro. A intensidade psicológica vivida no interior das personagens e os seus encontros, bem como o seu permanente movimento, são o que recordo melhor.

Que bela evocação, a tua.
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De Pedro Correia a 20.07.2012 às 22:59

Obrigado, Cláudia. Este texto foi inspirado por uma conversa recente que tivemos sobre 'O Poder e a Glória', precisamente depois de teres visto o filme do Ford na Cinemateca.
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De João Carvalho a 14.07.2012 às 19:48

Faço minhas as palavras da Ana, aqui acima.
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De Pedro Correia a 15.07.2012 às 14:02

E redobro os agradecimentos, compadre.
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De Patrícia Reis a 14.07.2012 às 23:26

Um dos meus autores, belo texto Pedro! Obrigada, beijo
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De Pedro Correia a 15.07.2012 às 14:03

Eu é que agradeço, Patrícia. Se há coisa de que gosto (julgo que se nota) é de escrever sobre livros. Espero um dia escrever sobre um livro teu.
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De Fonte próxima a 15.07.2012 às 15:17

Parabéns pelo texto.
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De Pedro Correia a 15.07.2012 às 17:17

Molte grazie, Fontana prossima.
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De Outside a 16.07.2012 às 11:06

Um grande escritor, enorme.

"O fim da aventura" é um dos meus livros de vida.

David
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De Pedro Correia a 16.07.2012 às 14:28

Digo o mesmo. E espero, muito em breve, escrever sobre essa obra-prima da literatura. Que lerei com todo o gosto pela terceira vez.
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De jpt a 05.05.2013 às 09:21

Não tinha lido este postal. Ainda bem que os indicas na sequência da série. Ainda bem, despertou-me para a releitura
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De Pedro Correia a 09.08.2015 às 18:31

Viva. Só agora - tanto tempo depois - descubro o teu comentário. Este foi um dos livros que mais me impressionaram durante a adolescência e que de algum modo contribuíram para a minha formação enquanto leitor autodidacta, à margem dos chatíssimos e desinteressantíssimos programas escolares oficiais.
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De pink a 09.08.2015 às 11:44

Obrigada G,Greene pelos temas, pelo estilo, pelos pobres, pelos homens cheios de pecados que apesar de tudo têm uma caminhada imparável de bem fazer universal, por deixares obras tão essenciais!
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De Pedro Correia a 09.08.2015 às 18:33

Numa época crucial foi, sem dúvida, um dos escritores da minha vida. E continua a ser um dos escritores das vidas de tantos de nós.

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