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Haja mais critério e respeito

por João Carvalho, em 11.07.12

Começa a ser cansativo. Eu sei (sabemos todos por cá) que a expressão oral (e escrita, consequentemente) anda pelas ruas da amargura, mas não entendo que seja necessário bater sempre na mesma tecla. No Parlamento, por exemplo, fartei-me de ouvir hoje (como sempre): «Senhoras e senhores deputados.» É uma gritante falta de critério e até falta de respeito pelas senhoras, comum a todos os quadrantes representados no hemiciclo.

Em bom português, o masculino serve os dois géneros, quando é preciso. Por isso, o (dispensável e escusado) preciosismo obriga a dizer: "Senhoras deputadas e senhores deputados." Quando não for assim, fica bem dizer apenas: "Senhores deputados." Espero que aprendam de vez, mas cheira-me que estou a gastar o meu latim em vão.

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20 comentários

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De João G Veloso a 11.07.2012 às 18:54

Gosto!!! (e aprendi)
E permita-me o Delito de Opinião, este tema da análise e correcção da expressão oral e escrita corrente, com a ligeireza e acutilância deste post, bem que poderia ser uma das rubricas permanentes do blog.
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De João Carvalho a 11.07.2012 às 20:12

Não tem faltado achegas por aqui, meu caro.
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De Cristina Torrão a 11.07.2012 às 18:54

E porque não dizer apenas: "minhas senhoras e meus senhores"? Naquele local, o título (deputados) será dispensável...
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De João Carvalho a 11.07.2012 às 20:10

Creio que faz parte dos cânones parlamentares, mas é possível que tenha razão.
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De maria madeira a 11.07.2012 às 19:25

Neste momento estou completamente resumida à minha insignificância. Nada que eu já não soubesse!
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De João Carvalho a 11.07.2012 às 21:05

Calculo que sim.
:o)
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De Mário Pereira a 11.07.2012 às 22:28

É como nas campanhas eleitorais, em que os políticos, talvez convencidos de que isso dará votos, vá-se lá saber porquê, costumam dizer: "Os portugueses e as portuguesas...". É ridículo. Aliás, tão ridículo como dizer "Há xis anos atrás". O "atrás" faz tanta falta nesta frase como uma viola num enterro. Já agora, fique com mais esta: o nosso Gaspar "Salazar/Rapa Tudo" disse anteontem que "O caso português e o caso espanhol são diferentes no sentido em que Portugal está SOBRE um programa de ajustamento...". Lá que o Paulo Bento o diga, soa mal mas não escandaliza, agora alguém doutorado... Nos tempos em que andei na primária levava-se reguadas por erros destes...
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De João Carvalho a 11.07.2012 às 22:36

É verdade. E "há x anos atrás" é como "subir para cima".
Também ouvi "que Portugal está sobre um programa de ajustamento". E o mais que se ouve e que havemos de ouvir. O panorama é triste.
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De teresinha a 12.07.2012 às 00:33

ehehehe
Tenho de confessar que o "subir para cima" ainda me sai de vez em quando. Nao podemos ser perfeitos. Reminiscências de quem nasceu numa aldeia do interior. :-))
Assim como entrar para dentro tb me parece muito adequado:-)
Mas o que eu aqui venho dizer eé que voto a favor duma rubrica semanal, sobre esta matéria, no DO.
Há alguns meses, o João e penso que a Teresa tinham qualquer coisa do género e fez imenso sucesso. Já pensaram em retomar?. Eu, pela parte que me toca,agradeço.
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De João Carvalho a 12.07.2012 às 08:22

Nós é que agradecemos as suas palavras. Conte com o DO, mesmo que nem sempre haja regularidade nestas coisas. Talvez no futuro 'atrás' seja como há tempos 'atrás'! Eheheh...
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De Pedro Correia a 11.07.2012 às 22:39

A praxe parlamentar convida (ia a escrever: obriga) a dizer "Senhores Deputados". A praxe vem de um tempo em que não havia deputadas. Por extensão, passou a dizer-se também, naturalmente, "Senhora(s) Deputada(s)". De facto, a fórmula que citas - aliás muito recente - não faz sentido. E é mesmo depreciativa para as deputadas.
Para além deste pormenor, há um problema de carácter mais geral que esta noite foi bem salientado na SIC Notícias pelo ex-deputado José Eduardo Martins ao criticar "algum excesso de coloquialidade" nos debates parlamentares mais recentes. Tem toda a razão. O plenário da AR não é nenhuma esplanada nem nenhum café. Mas por vezes até parece.
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De João Carvalho a 12.07.2012 às 00:01

Exactamente. O vestuário de esplanada entre os deputados espalha-se cada vez mais. E o tratamento por "vocês", entre outras coisas, alarga-se assustadoramente.
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De c. a 12.07.2012 às 01:30

Portugal democratizou-se muito pouco e degradou-se e plebeizou-se bastante. Estamos um "pais em camisa", sem que isso reflicta qualquer ganho seja no que for. Infelizmente apenas quer dizer que nos perdemos, caída na boçalidade, o respeito que nos devíamos (e quero crer que ainda devemos).
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De João Carvalho a 12.07.2012 às 01:42

Certo. Vulgarizou-se a populaça.
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De Anónimo a 12.07.2012 às 12:33

Comentário apagado.
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De João Carvalho a 12.07.2012 às 12:38

Pragmática e falta de gramática.
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De am a 11.07.2012 às 23:28

Talvez não venha a propósito... mas, não resisto à tentação de transcrever este maravilhoso texto de autoria do saudoso Millôr Fernandes.

Com se fala em bom português...

"Foda-se"

O nivel de stress de uma pessoa é inversamente proporcional
à quantidade de "foda-se!" que ele diz.
Existe algo mais libertário do que o conceito de foda-se?
O "foda-se!" aumenta a minha auto-estima, torna-me uma pessoa melhor.
Reorganiza as coisas. Liberta-me.
" Não quer sair comigo?! -- então foda-se"
"Vai querer mesmo decidir essa merda sozinho (a)?! - então, foda-se"
O direito ao "foda-se !" devia estar assegurado na Constituição.
Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extramente válidos e criativos para dotar o nosso vocabulário de expressões que traduzem com maior fidelidade os nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo a fazer a sua língua. Como o latim Vulgar, será esse o Português Vulgar que vingará plenamente um dia.
" Comó caralho", por exemplo. Que expressão traduz melhor a ideia de muita quantidade que " comó caralho"?
"Comó caralho" tende para o infinito, é quase uma expressão matemática.
A Via Láctea tem estrelas comó caralho!
O Sol está quente comó caralho!
O universo é antigo comó caralho!
Eu gosto do meu clube comó caralho!
O gajo é parvo comó caralho!
Entendes?
No género do "comó caralho",mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso "nem que te fodas !"
Nem o "Não, nâo e não !" e muito menos o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade " Não , nem pensar !" o substituem.
O "nem te fodas" é irretorquivél e liquida o assunto. Liberta-te, com a consciência tranquila, para outras actividades de maior interesse na tua vida.
O teu filho, aquele pintelhito de 17 anos, atormenta-te pedindo-te o carro par ir surfar na praia? Não percas tempo nem paciência. salto logo um definitivo:
" Huguinho, presta atenção, filho querido, nem que te fodas!"
O impertinente aprende logo a lição e vai para o Centro Comercial encontrar-se com os amigos, sem qualquer problema, e tu fechas os olhos e voltas a curtir o CD (...)
Há outros palavrões igualmente clássicos.
Pensa na sonoridade de um "Puta que Pariu!", ou seu correlativo " Pu-ta-que-o-pa-riu!", falado assim, cadencialmente, silaba por sílaba.
Diante de uma notícia irritante, qualquer " puta-que-o-pariu", dita assim, põe-te outra vez nos eixos.
Os teus neurónios têm o devido tempo e clima para se reorganizarem e encontrarem a atitude que permitirá dar um merecido troco ou livrares-te de maiores dores de cabeça.
E o que dizer do nosso famoso " vai levar no cu!"?
E a sua maravilhosa e reforçada derivação " vai levar no olho do cu!"?
Já imaginas-te o bem que alguém faz a si próprio e aos seus, quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha do seu interlecutor e solta:
" Chega! Vai levar no olho do cu!"?
Pronto tu retomaste as rédeas da tua vida, a tua auto-estima.
Desabotoas a camisa e sais á rua,vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-intimo nos lábios. E seria tremandamente injusto não registar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: " Já se fodeu!"
Conheces definição mais exacta, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau maximo inamaginável de ameaçadora complicação?
Expressão, inclusivé, que uma vez proferida insere o seu autor num providencial contexto interior de alerta e auto-defesa.
Algo assim como quando estás a conduzir sem documentos do carro, sem carta de condução e ouves uma sirene de polícia atrás de ti a mandar-te parar.
O que dizes? "Ja me fodi!"
Ou quando te apercebes que és de um país em que quase nada funciona, o desemprego não baixa, os impostos são altos, a saúde, a educação e ... a justiça são de baixa qualidade, os empresarios são de pouca qualidade e procuram o lucro fácil e em pouco tempo, as reformas têm que baixar, o tempo
para a desejada reforma tem que aumentar ... tu pensas" Já me fodi!"
Então:
Liberdade --- Igualdade -- Fraternidade
e
Mas não desespere:
Este país... ainda vai ser " Um país do caralho!"

Atente no que lhe digo!
"Foda-se !!!!
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De João Carvalho a 11.07.2012 às 23:59

Ah... o velho Millôr é que sabia.
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De Hélder Pereira a 12.07.2012 às 10:33

A mim o que me merece um especial sorriso amarelo é o novo léxico dos políticos portugueses: Entre muitas outras o "Focalizar" que deve ficar realmente muito melhor que "focar" e "Empenhamento" que no meu tempo (saudoso tempo) se dizia "empenho".
Mas o acrescento de algumas letrinhas lá deve ter o seu propósito. Talvez achem que por usaram palavras grandes, engrandecem o seu discurso e ao substituir os bordões linguísticos, o mesmo discurso recauchutado desde os anos 70, pareça coisa nova.
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De João Carvalho a 12.07.2012 às 11:09

O tema já tem sido amplamente "focalizado" pelo "empenhamento" do DO e há-de continuar a ser, nem que seja à custa de novas "contratualizações" a "percepcionar" no futuro...
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De Ivone Mendes da Silva a 12.07.2012 às 12:43

João, tudo isto decorre do puro desprezo pelo saber. Qualquer boa gramática explica esta questão.
Muita falta de um bom latinzinho na base. Metaforicamente, falando, claro

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