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Macroeconosutra

por Rui Rocha, em 10.07.12

Há tempos, vem a oferta (S) cruzando com a procura (D) nos compêndios de economia. No final do século XIX, o sábio Alfred Marshall lhes havia recomendado a posição da tesoura, com as hastes semiabertas, na busca de um equilíbrio natural entre a dor da verticalidade (P) e o prazer da horizontalidade (Q):

Nos anos 30, sofrendo de Grande Depressão, saíram a oferta e a procura em busca de posições mais estimulantes. Sugeriu-lhes, então, Keynes que a oferta se deitasse passivamente na horizontal, deixando à procura, revigorada por pílulas governamentais, assumir o papel ativo de estimular a atividade:

Por muitos anos viveram felizes assim, até que, nos anos 1970, padecendo com o Choque do Petróleo, a oferta se rebelou e assumiu a posição vertical. A prescrição de Keynes para obter maior Q-prazer através de estímulos da demanda tornou-se então fonte de pura P-dor:

Os seguidores de Keynes recomendaram então maior controlo do governo para diminuir a P-dor. Ressabiadas, a oferta e a procura saíram interior adentro, em busca de alternativas que mantivessem sua liberdade de movimentos. Encontraram-se com Milton Friedman, que lhes deu uma receita diretamente oposta à de keynes: devia a procura assumir uma posição horizontal passiva, mantendo assim a P-dor sob controlo. A oferta ficaria na posição vertical, crescendo à taxa natural, sem amarras do governo:

Deu-se então a Grande Moderação, com a P-dor sob controlo e o Q-prazer expandindo-se sob a égide dos casinos financeiros desregulamentados. Final feliz, entretanto, só nos contos de fadas. Desde o início do século XXI, a expansão da procura passou a depender cada vez mais do crédito facilitado pelos casinos. Sobreveio a Crise Financeira em 2008. Sobrecarregada de dívidas, a procura encolheu-se, não mais conseguindo responder aos estímulos creditícios. Também endividados, os governos não conseguiram mais estimulá-la com suas pílulas. A procura verticalizou-se, encolhida como estava, deixando um vácuo entre sua posição e a da oferta:

Descasadas, a procura e a oferta padecem agora de uma Q-dor que não sentiam desde os anos 1930. Prazer com a queda de P também não têm, pois ela apenas aumenta o peso das dívidas acumuladas. Estão agora a lamentar não ter dado mais atenção a Hayman Minsky, o profeta esquecido, que há tempos advertira sobre os perigos dos casinos financeiros. Como fazer para acasalar novamente procura e oferta? Velhos receituários retornam em tempos de crise. Ultra-Keinesianos só desejam mais estímulos, acreditando que a oferta vai atrás da procura onde ela for. Ultra-Friedmans só querem saber de menos controlo, pois acreditam, ao contrário, que a oferta gera sua própria procura. Melhor deixar os ultras com suas manias de lado e retornar ao ponto de partida do sábio Marshall. Reconhecer as individualidades da oferta e da procura, sabendo que uma não vive sem a outra, e almejam cruzar-se harmonicamente como se hastes fossem de uma mesma tesoura. Posições extremas são excitantes de tempos a tempos, mas somente o Caminho do Meio unifica e transcende a dualidade.

 

* Reprodução do texto de Edmar Bacha publicado no Globo, com ligeiríssimas alterações destinadas a facilitar a leitura.

 


6 comentários

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De OLHOFINOEPELIGEIRO a 10.07.2012 às 20:51

Isto só já lá vai com senso comum!!! Tantos -ismos, congressos de -ismos, posições indefinidas, obtusas onde cabe tudo, sem fazer esquecer, o seu "imenso" contrário.
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De Rui Rocha a 11.07.2012 às 18:45

Também é verdade.
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De c. a 10.07.2012 às 23:20

Vai-me desculpar, mas o aviso da fonte devia ter surgido antes. Assim, desde o primeiro "ativo" que comecei a ler de viés, o que é mau para qualquer procura.
Se soubesse que era um texto brasileiro (embora tivesse estranhado o lhes havia, em vez de havia-lhes) tinha lido aquele gosto que se guarda para ler as coisas brasileiras.
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De Rui Rocha a 11.07.2012 às 18:42

Concordo, C. Agora o mal está feito.
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De lucklucky a 11.07.2012 às 01:03

Não me parece.... Os Keynesianos - socialistas da impressão monetária- e o Friedmanitas - socialistas dos juros baixos - deram as mãos para uma bolha de crédito ou por outras palavras um estímulo gigantesco de impressão monetária via crédito devido aos juros baixos...
Enquanto os Hayekianos e Miseanos olhavam com horror...
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De Rui Rocha a 11.07.2012 às 18:45

Tendo a concordar consigo, Lucky. Mas achei interessante a abordagem e é sempre não perder de vista que as soluções devem ser adaptadas às circunstâncias. Em Portugal, por exemplo, há soluções que neste momento não só não devem como não podem ser consideradas.

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