Generalizando
Há dois erros que procuro não fazer, embora nem sempre com os melhores resultados, sobretudo no que toca ao primeiro: cair em generalizações perigosas e dividir o mundo em dois blocos, a direita e a esquerda. Nada é assim tão taxativo, há muito que aprendi essa regra básica. Mais: faço questão de aplicá-la a mim própria (correndo o risco de ser considerada incoerente, coisa que não me incomoda nada) e diverto-me a fintar os infalíveis vedores do pensamento político alheio. Mas - e é aqui que começam as generalizações - tenho de admitir que há tiques que facilmente identificam cada uma das barricadas nas suas versões mais radicais: à direita, uma espécie de desprezo blasé por tudo o que pareça ter sido conquistado com esforço; à esquerda, o apego arrogante ao estafado baluarte da superioridade intelectual.
Tive hoje mais uma demonstração deste último, que me deixou a pensar em como a esquerda continua a considerar-se dona e senhora da cultura neste país. Não é que eu não reconheça alguma legitimidade histórica nessa pretensão, afinal a direita sempre teve a seu desfavor uma tradicional preguiça e as limitações impostas pela religião. Mas aquilo de que a esquerda parece não dar-se conta, ao refugiar-se no seu inatingível Olimpo cultural, numa atitude que tem tanto de elitista como de preconceituosa, é da negação liminar de um dos seus mais caros cavalos de batalha programáticos: a democratização da cultura.


