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Delito de Opinião

Na morte de Ernest Borgnine

Pedro Correia, 09.07.12

 

No dia 30 de Janeiro de 2011, um actor já de idade visivelmente muito avançada mas com passo ainda vigoroso subiu ao palco para receber o prémio de carreira que lhe foi atribuído em Los Angeles pelo Sindicato dos Actores norte-americanos. Muitos cinéfilos mais jovens não sabiam, mas estava ali uma lenda viva do cinema: Ernest Borgnine, então ainda em actividade após ter participado em clássicos da Sétima Arte como Até à Eternidade (1953), Johnny Guitar (1954) e A Quadrilha Selvagem (1969).

A vida de Borgnine dava um filme. Não tinha físico de galã, longe disso, nem parecia fadado para a arte de representar quando deixou de prestar serviço na marinha, após a II Guerra Mundial. Filho de imigrantes italianos, que o baptizaram como Ermes Borgnino, o primeiro filme em que entrou, aos 36 anos, não perdura na memória de ninguém. Chamava-se The Chinese Corsair – um nome que diz quase tudo.

Quatro anos depois, no entanto, Borgnine tinha Hollywood, Nova Iorque e Cannes a seus pés. Graças à sua interpretação de um tímido dono de um talho em Bronx num filme de apenas 91 minutos chamado Marty que reconciliava o cinema americano – então infestado de megapelículas em scope – com a realidade quotidiana. “É um dos raros filmes americanos recentes com diálogos verosímeis”, aplaudia a exigente New Yorker. Marty – um drama de Paddy Chayefsky exibido originalmente na televisão, com Rod Steiger como protagonista – seduziu o público e convenceu a crítica. “Os argumentistas dos estúdios deviam passar mais tempo a ver televisão”, observou a Variety. Filme, realizador (Delbert Mann) e Borgnine receberam Óscares e o prémio anual da crítica nova-iorquina. Mais significativo ainda: esta foi a primeira longa-metragem americana galardoada com a Palma de Ouro em Cannes. Em 1959, outro marco: Marty tornou-se o primeiro filme produzido nos EUA a estrear em salas de cinema soviéticas após a II Guerra Mundial.

Em 60 anos de trabalho incessante no cinema, Borgnine rodou com Nicholas Ray, Fred Zinnemann, Sam Peckinpah, Robert Aldrich, Richard Brooks e John Sturges, entre outros cineastas de primeira linha. Contracenou com Gary Cooper em Vera Cruz, Spencer Tracy em A Conspiração do Silêncio e Bette Davis em The Catered Affair. E em 2011 ainda participou num filme. You just died with your boots on, Mr. Borgnine.

 

Reedição (ligeiramente adaptada) do texto aqui publicado em Fevereiro de 2011. Ernest Borgnine morreu ontem, aos 95 anos.