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Não há coincidências (19)

por Ana Vidal, em 03.07.12

Uma grande canção, mil vezes ouvida ao longo de uma vida, pode ser o pior inimigo de quem faz... canções. Não, não estou baralhada. É que um clássico, uma canção de que gostamos muito, vai muito mais longe do que ficar-nos só no ouvido. Como canta o Chico na sua "Terezinha" (uma canção maravilhosa, a propósito), a melodia "instala-se feito posseiro" nos interstícios do nosso património musical e emocional, colando-se-nos irremediavelmente à pele e tornando-se nossa para sempre. Essa invasão amiga do inconsciente pela música é um fenómeno comum, e não é por acaso que determinadas sequências musicais nos evocam de imediato lembranças (boas ou más, mas sempre ligadas às emoções) a que estão associadas.

 

Para quê toda esta introdução? Para vos lembrar de que, se isso acontece a todos nós, mais facilmente acontece a quem faz da música a sua vida. Por excesso de exposição e interesse permanente, a mente não reconhece o déjà vu (déjà entendu, no caso) e "acredita" estar a criar uma nova sequência musical, quando, afinal, está apenas a reproduzir uma que tem gravada na memória. Esta é a explicação mais lógica para os muitos casos de plágio inconsciente, alguns deles já relatados nesta série, que atingiram compositores da craveira de Paul Simon, George Harrison, Mark Knopfler, Sting, John Lennon, etc, para já não falar nos compositores da chamada música erudita. Claro que não é por falta de criatividade própria que todos eles caem no logro da "cópia", mas, quase sempre, devido à traição dos sentidos.

 

O caso que vos trago hoje é nacional, e por isso mais delicado: envolve músicos que conheço bem e respeito, que já nos deram inúmeras canções dessas que forram o património musical que gostamos de preservar. Falo de João Gil (Luís Represas é apenas intérprete nesta canção, segundo a informação da editora). Falo ainda de João Monge, um grande letrista português, porque também na letra há uma coincidência espantosa. A canção em causa é recentíssima - faz parte do último álbum de originais que Gil e Represas gravaram em Novembro de 2011 - e chama-se Quando eu voltar a nascer. Pois é, o título parece premonitório. Logo que a ouvi pela primeira vez, a melodia dos couplets soou-me a alguma coisa conhecida, de tal maneira que foi fácil trauteá-la e adivinhar-lhe os acordes sem nunca a ter ouvido antes. Não tardei a identificar a semelhança: havia uma terceira voz por detrás das vozes do João e do Luís, e essa voz era a do Caetano Veloso. Cantava, só para mim e em uníssono com eles, o seu terno e eterno Leãozinho. E o leãozinho voltou a nascer nesta canção.

 

 

 

Aqui estão os dois videos para o vosso próprio julgamento, porque às vezes penso que estou a ficar "apanhada" por este meu ouvido implacável. Acrescento uma curiosidade: reparem em como a palavra "entristecer" (na letra de João Monge) cai praticamente no acorde que corresponde, na letra brasileira, à palavra "desentristecer". Que las hay, las hay.


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