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A angústia do professor antes do exame

por Ivone Mendes da Silva, em 17.06.12

Existe e é muita, acreditem. Quem anda nisto de alunos há muitos anos sabe que eles são como os vinhos. Há anos de colheita difícil e é o cabo dos trabalhos conseguir-lhes a atenção e persuadi-los ao esforço. Os alunos que levo amanhã a exame vêm dos cursos de Humanidades. De tanto ouvirem dizer que a escolha feita não lhes augura nada de bom, começaram a acreditar. Tornaram-se indiferentes, deixam andar. Chamo-os para umas aulas fora do tempo regulamentar e eles aparecem como quem me faz um favor. Não têm dúvidas e eu obrigo-os a duvidar, a encontrar nas matérias o ponto onde sentem o chão fugir-lhe debaixo dos pés.

- Se for Lusíadas, nem começo a responder.

- Oh, valha-me Deus! Mas tu sabes …

- Sei, setôra, mas vou atrofiar.

Outros anseiam pelo Felizmente há luar!:

- Acho que sei tudo.

- Boa!

Perguntam pela milionésima vez:

- O que é que acha que sai?

- O que sai, não sei. O que pode sair, sei : é tudo.

- Veja lá isto que escrevi aqui sobre o Memorial: o sonho, o trabalho … diga lá outra vez aquilo do feminino … e como é que é? A esperança no fim …

Sobressaltam-se:

- Eu não percebo isso da vontade do outro ficar na terra. Como é que é?

Dou com eles a volta ao redondel dos símbolos e das metáforas. Suspiram. Irritam-se, passaram o ano irritados. Às vezes comigo, outras vezes com o mundo. O sistema de ensino pediu-lhes que tomassem uma decisão de vida aos 15 anos. Um decidiu que seria arqueólogo, outro geógrafo. Os restantes oscilam entre Direito e Comunicação, com paragens prolongadas no não-sei-muito-bem-ainda. Vão entrar na universidade num dos piores anos de sempre. Sabem disso e, mesmo quando tentam esquecê-lo, vem sempre alguém recordar-lhes a incerteza que os espera. Por isso, foram ficando assim, desencantados, distantes.

Hoje, um ou outro mail ainda me há-de trazer um sobressalto de última hora e, como é tradição, mantenho o MSN ligado até tarde. Lá pelo meio da noite, vão aparecer os pânicos de última hora:

- Acho que me esqueci de tudo.

Amanhã à tarde, vou esperá-los no átrio. Como sempre.

- Nada, nada, nada. Não me diga nada.

- Yes! Eu sabia isto tão bem.

- Setôra! Setorinha, veja aqui se esta relativa é restritiva. É? Oh, yeh! Tá-se bem!

Como sempre, começo a esquecê-los umas horas depois.

Para o ano, em Setembro, de novo uns pares de olhos imberbes hão-de levantar-se da “Autopsicografia” e suspirar:

- Setôra, não percebo nada …

E eu, como sempre, vou conduzi-los  até ao coração do texto. No fundo, isso é que importa. Exames, leva-os o vento.  

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25 comentários

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De ML a 17.06.2012 às 15:36

o meu filho prepara-se para o exame de amanhã com a possibilidade de chumbar uma vez que tirou 3 a Português e 51% no Teste Intermédio.
Acho mal, muito mal que o nível de dificuldade tenho aumentado de forma tão significativa....mas é a realidade e temos que lidar com ela da melhor forma possível, é o que lhe digo.
este ano fui representante dos EE e pude assistir às reuniões de avaliação intercalar e quero deixar aqui o meu apreço pelos professores que realmente se interessam pelos alunos e espero que o que tentei transmitir ao meu filho acerca dessa dedicação tenha dado frutos porque num ambiente tão hostil como o de hoje, só pessoas muito apaixonadas pelo ensino podem ser Professores.!!
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De Ivone Mendes da Silva a 17.06.2012 às 15:47

Creio que o seu filho irá, pelas classificações que refere, fazer exame de 9º ano. Os alunos que refiro no post vão fazer exame de 12º ano.
Desejo-lhe boa sorte para este exame e para os futuros. Vai correr tudo bem.
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De Leonor Barros a 17.06.2012 às 15:50

A minha angústia vem daqui a uma semana, Ivone, mas salvaguardando as diferenças das disciplinas é tudo muito parecido. Há dois anos tinha uma aluna que me dizia 'não percebo o que é que é para fazer', chegou ao exame e tirou uma excelente nota mas até lá foi um sufoco.
Este ano foi péssimo e frustrante no que respeita a expectativas profissionais. Sentiu-se muito isso nos alunos.
'Exames, leva-os o vento', mas chateiam.
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De Ivone Mendes da Silva a 17.06.2012 às 15:52

Claro que chateiam, eu tento é que não seja muito. Foi um ano péssimo, tens razão, Leonor.
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De Leonor Barros a 17.06.2012 às 15:57

Quem tem disciplinas sem exame nem sabe a sorte que tem. Eu tenho das duas e sei bem avaliar.
O que mais me aborrece é que o exame é uma carta fechada: uns anos assim, outros assado. Há uma enorme incoerência também nos critérios. Não chega saber, tem de se entrar no espírito de algo que não se sabe muito bem o que é.
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De Ivone Mendes da Silva a 17.06.2012 às 16:02

Claro, é como lhe digo: têm de saber e têm de saber provar que sabem. Não é fácil.
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De da Maia a 17.06.2012 às 17:09

Desculpe perguntar, mas os alunos têm o mínimo de preparação em mitologia greco-romana para ler os Lusíadas?
Por exemplo, no episódio de Inês de Castro nos Lusíadas, tanto pode ler-se a popularizada versão da desgraçadinha, como com maior razão deve ler-se uma traição de Polixena.
Proeza semelhante conseguida por Garcia de Resende, ao iludir as palavras de Inês como uma confissão do seu executor, morrendo às mão de D. Pedro.

Não havendo nenhuma disciplina que ensine os mínimos necessários da mitologia, fazer os alunos pretender ler Camões é quase o mesmo que pretender que um aluno de Humanidades pode ler um livro de Física Nuclear, com explicações vagas em rodapé.
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De Ivone Mendes da Silva a 17.06.2012 às 17:29

Caro da Maia, faço os possíveis para que eles "adquiram os mínimos" do que é necessário para ler Os Lusíadas :)
O programa de 12º ano pede um estudo conjunto das reflexões do poeta n' Os Lusíadas e a pessoana Mensagem.
[Os meus alunos sabem todos bem que, no que a Inês de Castro diz respeito, eu não me faço eco da versão da desgraçadinha :)]
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De da Maia a 17.06.2012 às 19:00

Compreendo perfeitamente.
A interpretação autorizada pela censura da Inquisição é afinal a mesma que pela sucessiva educação condicionada dispensa censura.
Fica-nos cru o Pedro de Inês, pois o outro Pedro, dos amores de Coimbra, se caiu nos campos de Alfarrobeira, deixou-nos um interminável Désir.
Um desejo de verdade... que sepulte condignamente os nossos antepassados.
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De Ivone Mendes da Silva a 17.06.2012 às 19:27

O outro Pedro, o de Alfarrobeira, é uma das minhas paixões. Tenho por aí um poema em que figuro uma fala ele ao sobrinho, mas não encontro link para lho deixar.
Se encontrar o texto, plasmo-o aqui.
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De Ivone Mendes da Silva a 17.06.2012 às 19:31

Afinal, ei-lo aqui:

Fala do Infante Dom Pedro ao Rei Menor

Senhor meu sobrinho, meu rei,
olhai daqui onde acaba a sombra que nos precede
e onde começa a claridade
que pelas sete partidas vi chegar.
Dar-vos-ei um sonho para sonhar,
listrado de terra em campo de mar,
vencidos os dragões dos mapas antigos,
vereis em nova ordem o mundo ordenado.
Senhor meu sobrinho, meu rei,
escutai as coisas que vos digo,
escutai-as agora,
que uma mancha de sangue
segue no meu encalço
e não mais vos direi
da vida dos homens
da morte dos reis.
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De da Maia a 18.06.2012 às 01:07

... que belo texto!
Obrigado por partilhar e parabéns à autora!

Em 1428 Pedro ofereceu a Henrique o mapa com a "Cola do Dragão"... quase cem anos antes de Magalhães passar por esse estreito que hoje tem o seu nome.

Portugal nunca se recompôs de Alfarrobeira... e se Pedro garantiu aos infantes futuros o direito de serem príncipes, má paga teve do genro, mas orgulho teria certamente do neto D. João II:
http://alvor-silves.blogspot.pt/2010/04/correspondencia-de-d-joao-ii.html
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De Teresa Ribeiro a 17.06.2012 às 17:14

Todos nós fomos alunos e por isso achamos que sabemos do que se está a falar quando se fala de Educação. Gostei muito de ler o teu texto, Ivone. Senti ao lê-lo que nos há-de sempre faltar - a nós que só fomos alunos - a experiência vivida do outro lado. É óbvio, mas tendemos a esquecê-lo.
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De Ivone Mendes da Silva a 17.06.2012 às 17:30

Pois, Teresa, cá deste lá também se sofre e muito :)
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De Tiro ao Alvo a 17.06.2012 às 17:39

Entendo a sua angústia e, para quem gosta de bem cumprir os seus deveres, são momentos difíceis de passar. Mas, acredito, também devem deixar grandes satisfações: como deve ser bonito ver fornadas e fornadas de jovens atingirem o primeiro patamar da maturidade.
Pelo que escreveu, acredito que se sentirá muitas vezes recompensada.
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De Ivone Mendes da Silva a 17.06.2012 às 17:48

Sou-lhe sincera: sinto, muito vezes, felizmente sinto muitas vezes; todavia, cada vez é mais difícil ver alguma coisa boa. E a culpa não é deles nem é minha, as circunstâncias é que são cada vez mais adversas.
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De Tiro ao Alvo a 17.06.2012 às 20:35

Aceito. Mas não podemos desanimar.
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De Ana Vidal a 17.06.2012 às 23:37

Gostei tanto de ler-te! Calculo que deve ser cada vez mais difícil ensinar, pelo menos sem desanimar. Vocês, professores, merecem (e não têm, muitas vezes) o reconhecimento de um esforço quase sobre-humano. Mas olha, os teus alunos têm a extraordinária sorte que eu também tive: saiu-lhes uma professora de português de mão cheia! Acho que só perceberão isso mais tarde, mas os efeitos dessa sorte grande já começaram.
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De Ivone Mendes da Silva a 18.06.2012 às 00:04

Ora, de mão cheia! Tenho dias, como toda a gente :)
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De Pedro Correia a 18.06.2012 às 01:53

Excelente, Ivone. É mesmo o que importa. Vocação de professora é assim: ajudar os alunos a pensar melhor, a sonhar melhor, a viver melhor. Abrir-lhes caminho, dar-lhes asas. O resto é com eles. Muitos aproveitarão certamente esta janela que lhes abres. Mesmo que só bastante mais tarde percebam isso.
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De Ivone Mendes da Silva a 18.06.2012 às 02:04

Obrigada, Pedro. Espero que aproveitem, como dizes.
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De Zélia Parreira a 18.06.2012 às 17:02

Soube-me muito bem Lê-la Ivone. Eu vivo ainda uma terceira angústia: a de mãe. As minhas filhas fizeram hoje exame, uma de 9º ano e a outra de 12º.
Gostava que ambas tivessem bons resultados, por elas, por mim, mas também pelas duas belíssimas professoras que as acompanharam e como se costuma dizer "levaram a exame".
Respire fundo. Estes já estão encaminhados, seja o que for que os espera, e ali ao virar da esquina já vem um novo grupo a precisar da sua atenção, do seu carinho e da sua responsabilidade. Parabéns pelo seu trabalho.
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De Ivone Mendes da Silva a 18.06.2012 às 17:50

Obrigada, Zélia. Eu também sei bem como é essa terceira angústia ...
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De Maria João Machado a 18.06.2012 às 17:58

Não sou professora, pelo que a minha angústia foi a primeira (a dos alunos há anos atrás) e é a terceira (a de mãe). Para um professor que se preze, deve ser tão angustiante ter alunos em exame como para um pai ou uma mãe. E ainda bem que ainda os há assim... daqueles que se angustiam. São esses que animam os nossos filhos e lhes dão a certeza de que os exames não são bichos... Obrigada! Maria João
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De Ivone Mendes da Silva a 18.06.2012 às 18:24

Obrigada. Faço o melhor que posso, Maria João. às vezes resulta, outras vezes não.

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