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Grandes romances (1)

por Pedro Correia, em 09.06.12

UM HOMEM DESTRUÍDO MAS NÃO VENCIDO

O Velho e o Mar (Ernest Hemingway)

 

Em Janeiro de 1953, uma das obras mais memoráveis da literatura universal encabeçava o top de vendas nos Estados Unidos: O Velho e o Mar. Com esta novela que assombrou o mundo literário logo ao surgir nos escaparates, quatro meses antes, Ernest Hemingway relançava espectacularmente a sua carreira, desmentindo os críticos que lhe tinham antecipado o epitáfio. Não tardaria o Pulitzer. Nem o Nobel, que lhe foi atribuído em 1954.

"Um homem pode ser destruído, mas não derrotado" é o mote desta comovente saga de um ser frágil em luta desigual contra as mais inclementes forças da natureza."Hei-de lutar enquanto tiver remos", diz para si próprio o velho pescador Santiago, protagonista do livro. No final, perdido o espadarte que pescara no alto mar e esgotadas as forças, basta-lhe a recompensa de nunca ter virado a cara à luta - mensagem que transcende épocas e modas, tornando-se numa alegoria da condição humana. A Dignidade do Homem foi, aliás, o título inicial que Hemingway concebeu para a novela, cuja trama era antecipada num dos primeiros contos do autor - Os Invencíveis (1925) - em que um toureiro figurava no lugar do pescador.

"Esta é uma obra que nos eleva à contemplação da dignidade do homem e do mundo", escreveu Jorge de Sena no prefácio à edição portuguesa do livro, que ele próprio traduziu. Portugal foi um dos países onde O Velho e o Mar (The Old Man and the Sea) cativou gerações de admiradores, funcionando muitas vezes como iniciação à literatura de qualidade.

Hemingway congeminou durante 15 anos a história do velho Santiago que nunca voltou costas aos tubarões, concebendo-a desde logo como uma homenagem aos pescadores de Cojímar, belíssima aldeia piscatória situada a poucos quilómetros de Havana. Era ali que o escritor costumava ancorar o seu iate Pilar na década de 50, quando Cuba se tornou a sua pátria adoptiva.

Publicado inicialmente nas páginas da revista Life, no dia 1 de Setembro de 1952, O Velho e o Mar teve um sucesso imediato: só em dois dias, a revista vendeu mais de cinco milhões de exemplares. Um sucesso prolongado em livro, uma semana mais tarde. Com 50 mil cópias vendidas logo na edição inaugural, a obra manteve-se nos seis meses seguintes no top americano, tornando-se objecto de estudo em escolas francesas, alemãs, italianas e japonesas. Portugal acabou por não fugir à regra.

 

Santiago, um homem no limiar da pobreza mais extrema e praticamente escorraçado da sociedade, tem apenas como amigo um rapaz chamado Manolín. Só esta criança - única personagem do género na obra romanesca de Hemingway - mantém toda a confiança nas capacidades do velho pescador que se prepara para enfrentar o derradeiro desafio da sua vida no mar das Caraíbas. Por isto, O Velho e o Mar também constitui um hino à amizade.

Numa carta dirigida ao crítico Bernard Berenson, poucos dias após a publicação da obra, Hemingway confessava que o seu "único fim na vida" era ser um velho sábio, à imagem e semelhança de Santiago. No auge da carreira, quando era rico e famoso, o futuro Nobel da Literatura não escondia o fascínio por um estoicismo de raiz evangélica. A simbologia cristã percorre aliás as páginas desta obra - do nome do protagonista aos três dias em que decorre a acção, culminando na cena final com Santiago a levar os utensílios de pesca às costas, como Cristo rumo ao Gólgota. O velho adormece enfim, exausto, com as palmas das mãos viradas para cima e os braços estendidos em forma de cruz. 

 

Nota. Dedico este início de uma nova série no DELITO à leitora Ilda Pontes, que nesta caixa de comentários me alertou para algo que eu ignorava: a inclusão do meu texto sobre O Velho e o Mar no livro Plural - de língua portuguesa, destinado aos alunos do 9º ano -, da autoria de Elisa Costa Pinto e Vera Saraiva Baptista (Raiz Editora). Um texto publicado originalmente em Janeiro de 2003, no Diário de Notícias. O sortilégio dos blogues também passa por surpresas deste tipo.

 

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8 comentários

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De Patrícia Reis a 09.06.2012 às 13:29

Parabéns, Pedro! O único livro de EH de que gosto é este. A sua história pessoal, a biografia, é fascinante, mas apesar de saber que é quase um crime, confesso, que todos os livros do senhor não entraram no meu pobre miolo e não por falta de tentativas. Li este livro em especial várias vezes e algumas vezes em voz alta. Tem uma simplicidade que é a crença no possível e a redenção pelas mãos de uma criança, contra a vida e a dor. Quando o meu filho mais novo o leu tinha 10 anos. Estávamos em Agosto, vésperas do seu aniversário. As lágrimas, no fim da leitura, ficaram nas minhas calças e não dissemos nada por não ser preciso. Há livros assim. E muitos são tão pequenos quanto este: Alexis ou Tratado do Vão Combate de Yourcenar, Seda de Barricco, Requiem de Tabbuchi, A fera na selva de Henry James e mais uma lista deles, livros a que volto muitas vezes. Um beijo e bom fim de semana!
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De Pedro Correia a 10.06.2012 às 00:58

Tenciono escrever sobre vários outros livros, Patrícia. É uma ideia antiga que andava só à procura de um detonador. Que chegou agora. Obrigado pelas tuas palavras. Beijinho.
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De Teresa Ribeiro a 09.06.2012 às 23:49

Tu num manual do 9º ano! Gostei de saber. Parabéns, Pedro.
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De Pedro Correia a 10.06.2012 às 00:57

É verdade, Teresa. Obrigado. Nem eu sabia. Ainda bem que temos leitores assim, de cinco estrelas.
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De Ivone Mendes da Silva a 10.06.2012 às 01:18

Excelente texto, Pierre. Hemingway gostaria, tenho a certeza.
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De Pedro Correia a 10.06.2012 às 23:02

Mera bondade tua, Yvonne. Mas nem por isso te agradeço menos.
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De Ana Vidal a 11.06.2012 às 00:35

Ao contrário da Patrícia, eu gosto dos livros de Hemingway. Mas este, concordo, é uma obra prima. Pela profundidade e pela simplicidade aliadas, o que é o verdadeiro e quase inatingível pote de ouro na literatura.
E o teu texto é muito bom, Pedro! Parabéns pelo reconhecimento merecido. :-)
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De Pedro Correia a 11.06.2012 às 19:13

Dizes bem, Ana: complexidade e simplicidade raras vezes se conjugaram tão bem como neste livro.
(obrigado pelas palavras amigas)

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