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Delito de Opinião

O meu 25 de Abril

Cristina Ferreira de Almeida, 24.04.09

Confesso que não me lembro bem de como era a vida antes do 25 de Abril. Lembro-me dos padres operários que iam lá  a casa, do disco do Zeca Afonso que o meu pai ouvia baixinho, dos sussurros sobre o padre Alberto, que tinha sido preso porque tinha armas debaixo da cama. Lembro-me que não fui à escola num dia que não era feriado, já íamos a sair quando a porteira sussurrou qualquer coisa ao meu pai e voltámos para casa. Ouvimos rádio todo o dia, mas eu não percebi nada. No dia seguinte voltei à escola e a oração da manhã tinha passado a incluir um pedido de atenção a Nossa Senhora para este "nosso Portugal". Não percebi nada. O meu catequista deixou crescer o cabelo e a barba, cantávamos "toco-te e respiras" na missa das sete de Santa Isabel e o catequista, agora cabeludo, pedia assinaturas para a legalização do PSR. Alguns padres continuaram a ir lá a casa mas falavam de outros países, davam missa na sala de jantar, repartiam carcaças e vinho tinto entre os presentes e, percebi mais tarde pelos sussurros, acabaram por casar-se. O meu tio Manuel voltou da Suiça, onde tinha estudado num seminário, e foi dar aulas de História Económica e Social na Universidade Clássica, até ser saneado porque tinha entrevistado Marcelo Caetano em Paris. O 25 de Abril teve a  turbulência que tem sempre a infância, pensava eu. Só muito tempo depois percebi que nem todas as infâncias têm um 25 de Abril. Só muito tempo depois percebi que estava a espreitar pela porta das traseiras da igreja católica, através do chamado catolicismo progressista. Tive mesmo sorte, acho eu agora.

2 comentários

  • O meu tio tinha fugido para a Suiça por causa da guerra, como como tantos na situação dele, e até 1974 não podia entrar em Portugal. Ficou para sempre magoado com o saneamento, ele, que tinha acabado de chegar...
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