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A destruição do euro.

por Luís Menezes Leitão, em 22.05.12

 

Começa a ser evidente para todos que o euro está à beira do colapso. Tal deve-se à forma como foi concebido, destinado a ser a moeda única de uma Europa com economias muito diferentes. O euro poderia funcionar com base em políticas de coesão, mas essas são já passado. A partir do momento em que a crise se instalou e os países europeus adoptaram a regra do cada um por si, é evidente que o euro se tornou numa armadilha para os países do Sul que nunca conseguirão viver nas condições draconianas exigidas pela Alemanha. O irrealismo do Tratado Orçamental, que a Grécia e Portugal ratificaram para alemão ver, iria ser o teste final que provocaria a saída imediata destes países do euro, se a eleição de Hollande não o tivesse transformado num nado-morto.

 

Entretanto, a explosão iminente na Grécia leva as instituições comunitárias a manobras desesperadas, como se vê agora com esta medida do BCE de injectar 100 mil milhões nos bancos gregos. É extraordinário que o BCE aposte em bancos de onde os seus depositantes retiram todas as suas poupanças, com base no dinheiro dos contribuintes europeus, que é assim atirado para um poço sem fundo. Resta ver quais vão ser as consequências desta medida para a credibilidade do euro.

 

Na verdade, a demonstração de que o euro é neste momento tudo menos uma moeda única resulta evidente das sucessivas propostas para o dividir em várias moedas. Primeiro, foi na Holanda que se propôs uma nova moeda para os países do Norte, que se chamaria o neuro. Agora é o Deutsche Bank que propõe a quadratura do círculo com um euro exclusivo da Grécia, que se chamaria o geuro. Calculo que logo a seguir o Deutsche Bank venha propor também um euro exclusivo para Portugal, o peuro. Isto seria cómico se não fosse trágico.

 

Mas, perante este extraordinário espectáculo, ainda há quem tenha ideias para o negócio. Está a ser distribuído um jogo, o Euro Destruction, em que é suposto os jogadores atirarem moedas de euro contra os banqueiros ou contra os cidadãos. Parece que o cenário final do jogo é o "End of Europe as we know it". Deve ser um jogo muito popular para os actuais governantes europeus.

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21 comentários

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De Helena Sacadura Cabral a 22.05.2012 às 14:56

Meu caro Luis
Excelente artigo!
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De Luís Menezes Leitão a 22.05.2012 às 15:08

Obrigado.Um abraço.
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De CSJ a 22.05.2012 às 15:04

Um enorme problema para todos nós.
Mas em português devia escrever-se Gueuro ou G-euro, pois certamente a idéia é relacionar com Grécia e não com, por exemplo, "gelado". Em alemão este problema não se põe: G lê-se sempre "guê".
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De Luís Menezes Leitão a 22.05.2012 às 15:09

Tem razão. Mas escrito "gueuro" ainda parece mais patético.
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De singularis alentejanus a 22.05.2012 às 15:25

Subscrevo, sem reticências.
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De Helena Sacadura Cabral a 22.05.2012 às 15:26

Luís, permite-me reproduzir no meu Fio de prumo, com todos os créditos que te são devidos. Espero que te não zangues!
Abraço da Helena
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De Luís Menezes Leitão a 22.05.2012 às 17:00

É uma honra. Obrigado.
Abraço.
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De Luís Lavoura a 22.05.2012 às 17:03

Tal deve-se à forma como foi concebido, destinado a ser a moeda única de uma Europa com economias muito diferentes.

Não, o erro não está no euro.

Há muitas moedas únicas para economias muito diferentes por este mundo fora. Por exemplo, Goa e a Bengala Ocidental têm economias muitíssimo diferentes, porém usam a mesma moeda. Da mesma forma, Pará e São Paulo têm economias muito diferentes, porém usam a mesma moeda.

O problema também não está nas transferências sociais, que são pequenas tanto na Índia como no Brasil.

O problema está na dívida escabrosa à custa da qual os Estados da Europa Ocidental, e os cidadãos de alguns dos seus países, vivem. Esse é que é o problema: o consumo exagerado da parte da generalidade dos Estados, que têm quase todos orçamentos fortemente desequilibrados, e da parte dos cidadãos de alguns países.

É isso que diferencia a Europa de países como o Brasil ou a Índia. Não é o euro.
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De Luís Menezes Leitão a 22.05.2012 às 19:01

Não. O que diferencia a Europa da Índia e do Brasil é que estes, quando contraem dívida, fazem-no a nível de todo o país e não apenas a nível dos seus Estados-Membros. E têm uma política monetária que podem continuar a usar. Dois requisitos que faltam à Europa. A sua dívida não é comum e os seus Estados-Membros já não têm política monetária.
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De Vasco Baptista Mendes a 23.05.2012 às 08:28

Não sei se concordo: a Califórnia, há muito que está falida, tal como o estado da Nova Gales do Sul, na Austrália, e ninguém fala do iminente colapso do Dólar Americano ou Australiano. Ambos são estados numa federação, têm governo e capacidade de endividamento próprio mas não têm moeda própria. Penso que será o mesmo caso dos estados no Brasil e na Alemanha na altura do Marco.
Diria mesmo que a falácia do "ai Jesus, se a Grécia vai à falência, o Euro vai à vida" é uma das grandes razões para a actual fragilidade do Euro. Infelizmente o que resultou da opinião pública e políticos europeus engolirem a propaganda de que o resgate do governo grego era fundamental para a protecção do Euro foi o aumento da exposição dos bancos Europeus a dívida grega. Agora sim, se a Grécia não paga, vemo-nos todos gregos. O peso da Califórnia para a economia americana é muito maior que a Grécia e Portugal, maior do que a Espanha e só ligeiramente menor do que a Itália em relação a Zona Euro e, como disse antes, ninguém anda para ai a dizer que o Dólar vai desaparecer. Até a altura em que a Sra. Merkel obrigou os bancos alemães a resgatarem o governo grego, não havia razão para ir nessa conversa.
Quanto à idéia de que a moeda única e incompatível com uma Europa a duas (ou mais) velocidades, ou pelo menos com o desenvolvimento dos países menos desenvolvidos, duas palavras devem chegar: "reunificação alemã". Nem a absorção da Alemanha Oriental afundou o Marco, nem o problema do leste da Alemanha pré-Euro era terem a mesma moeda que Munique/Frankfurt/Dusseldorf.
Em resumo, nem a dívida de alguns estados-membros é condição suficiente para a morte do Euro, nem a existência de uma moeda única partilhada por economias a velocidades é uma aberração (quase todos os países tem economias a velocidades diferentes).
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De Luís Lavoura a 23.05.2012 às 09:47

quase todos os países tem economias a velocidades diferentes

Exatamente!

Há uma diferença grande entre a Califórnia e a Grécia, porém, é que a Califórnia pode receber, e de facto recebe, grandes transferências monetárias da parte da federação estadounidense. Porém, essa diferença já não será verdadeira no caso de um qualquer Estado da Índia ou do Brasil, dado que nos países do Terceiro Mundo não há Estados com tanto poder e tanto dinheiro para gastar como no mundo desenvolvido.

Uma outra diferença relevante é que a Califórnia, embora tenha o Estado falido, não é em si mesma deficitária. Ao contrário da Grécia ou de Portugal, que têm tradicionalmente grandes défices no seu comércio externo.

Finalmente, uma diferença fundamental entre a Califórnia e a Grécia é que a dívida da Califórnia, provavelmente, está em grande parte na posse de bancos estrangeiros (japoneses, coreanos, chineses, árabes, etc). Se a Califórnia deixa de pagar a dívida, quem fica a arder são estrangeiros. Não é, portanto, o dólar americano. A dívida grega, por outro lado, está na sua esmagadora maioria na posse de bancos europeus. Se a Grécia falir, são bancos da Zona Euro quem fica a arder.
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De Vasco Baptista Mendes a 24.05.2012 às 13:31

"a Califórnia pode receber, e de facto recebe, grandes transferências monetárias da parte da federação estadounidense"

penso que transferências da federações para os estados são relativamente comuns. No caso da Califórnia, a diferença entre o que o estado pagou em impostos federais e o montante que recebeu do governo central nos últimos 20 anos até 2009 amonta a cerca de 18% do PIB da Califórnia em 2009. Ironicamente, eram a Grécia e Portugal que até muito pouco tempo recebiam grandes transferências monetárias da parte da UE...

"a Califórnia, embora tenha o Estado falido, não é em si mesma deficitária"

? penso que a balança de bens e serviços dos EUA não é capturada a nível estadual mas, usando os dados disponíveis no censo dos EUA como indicador da balança comercial, é provável que seja deficitária: as exportações com origem na Califórnia em 2011 foram da ordem dos 159 mil milhões de dólares, enquanto as importações com destino final no estado foram de 351 mil milhões.

"Grécia ou de Portugal, que têm tradicionalmente grandes défices no seu comércio externo"

concordo plenamente, mas esse é um problema dessas economias, não do Euro, nem causado pelo Euro (os défices são estruturais e já o eram muito, mas muito antes da moeda única).

"a dívida da Califórnia, provavelmente, está em grande parte na posse de bancos estrangeiros"

talvez. é igualmente "provável" que os bancos americanos, tal como os alemães com a sra. Merkel e a Grécia, tenham sido alvo de pressões do governo americano para comprar, ou não vender, as obrigações do estado da Califórnia.

"A dívida grega, por outro lado, está na sua esmagadora maioria na posse de bancos europeus. Se a Grécia falir, são bancos da Zona Euro quem fica a arder."

Infelizmente tem razão. Penso que não era o caso antes do primeiro resgate. O mal foi os políticos europeus, nomeadamente a Sra. Merkel, irem na conversa de que salvar o governo grego era fundamental para "salvar" o Euro.
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De Luís Lavoura a 23.05.2012 às 09:21

Contraem dívida a nível federal, mas não dão o dinheiro obtido dessa forma de mão beijada a um Estado para financiar o défice desse Estado. Ou seja, a dívida contraída a nível federal é para ser gasta pela federação e não para ser livremente delapidada por cada Estado.

Têm política monetária a nível federal, também. Cada Estado por si só não tem política monetária que possa utilizar discricionariamente para resolver os problemas só seus. Neste ponto, estão como a Europa.

De qualquer forma, a frase que transcrevi do seu post está errada: o problema não está em a Europa ter economias muito diferentes.
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De Luís Menezes Leitão a 23.05.2012 às 09:50

A frase está certíssima. Uma moeda única partilhada por economias a várias velocidades causa problemas, que só podem ser resolvidos com um Governo federal, que assegure uma coesão mínima. Se cada país com a mesma moeda funcionar por si, a situação estoura.

O exemplo da RDA demonstra bem o que estou a dizer. A RDA só conseguiu entrar no marco à custa de enormes ajudas que a RFA (e o resto da Europa) pagou. E a Alemanha tinha e tem um governo federal capaz de assegurar a coesão entre os Länder. Portugal e a Grécia estão falidos. Os Länder do leste da Alemanha não estão.
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De Luís Lavoura a 23.05.2012 às 09:59

O Luís Menezes Leitão não deve olhar para países desenvolvidos (Alemanha, EUA) como exemplos. Todos os países desenvolvidos têm Estados muito poderosos, que gastam grande parte dos PIBs desses países e, como tal, têm uma grande capacidade de redistribuir esse PIB entre diferentes partes do país.
O Luís Menezes Leitão deve antes olhar para os exemplos de países subdesenvolvidos, como a Índia ou o Brasil. ou a China. Nesses países, o PIB está na sua esmagadora maioria em mãos privadas. Os Estados são pouco poderosos, confiscam sob a forma de impostos e gastam apenas uma percentagem reduzida do PIB. Ora, o que se verifica nesses países é que, precisamente, o facto de haver uma moeda única para regiões com economias muito distintas não causa nenhum problema.
O Estado federal indiano é muito pequeno no seio do PIB indiano. Não tem capacidade de fazer grandes transferências de recursos dos Estados mais ricos da União para os mais pobres. No entanto, apesar de tais ausências de transferências, a União permanece com a sua moeda única.
O cerne do problema não está, de facto, na unicidade da moeda. O cerne do problema está no grande endividamento à custa do qual (sobre)vive a generalidade dos Estados ricos.
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De vasco baptista mendes a 24.05.2012 às 14:13

Eu diria que o que diferencia a UE do Brasil ou Índia é que a UE não é uma federação. :)
Apesar de não poder poder utilizar o endividamento para financiar o seu orçamento, a UE não só pode emitir obrigações, como já o fez.
Detalhes à parte, o meu argumento é que do ponto de vista dos estados-membros, tendo orçamentos próprios e divida própria, mas estando sujeitos a uma moeda e politica monetária comum é o mesmo que ser parte de uma federação. Ou seja, o problema não é o Euro.
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De Vânia Batista a 22.05.2012 às 20:59

REPRODUZO AQUI O QUE POSTEI NO BLOG FIO DE PRUMO, Da Dr.ª Helena Sacadura Cabral...


Espero sinceramente que a moeda única não tenha os dias contados. Caso contrário, será a nossa dívida externa a perdurar no tempo... e isso é, a meu ver que pouco percebo de finanças, muito mau já que passaremos a pagar (quase) o dobro de juros, caso regressemos ao antigo sistema monetário. Se o euro veio inflacionar tudo para o dobro, caso o abandonemos ou ele finde (como moeda porque nos nossos bolsos já começa a ser uma raridade)a nossa dívida externa passará para o dobro (hipoteticamente).

Também me soou curiosa a nova designação nos países do Norte, designar-se-ia Neuro (/n/ de norte e de "new", novo) em Portugal seria peuro, mas /p/ de Portugal ou de Pobreza??

Estaremos condenados ao infortúnio?
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De Luís Menezes Leitão a 23.05.2012 às 06:53

Infelizmente acho que sim.
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De lucklucky a 22.05.2012 às 23:08

Hilariante, tradução do que Luís Menezes Leitão diz:

"Austeridade": 7% de Défice. No Estado actual da Europa quer dizer que os Governos têm de pedir emprestado 14% do que gastam...

"Política Monetária": Governo provoca Inflação, especulação financeira e contrafacção de moeda logo "legal". Punindo assim quem não especulou na dívida.
Ou por outras palavras Republicas das Bananas é bom.

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De Luís Menezes Leitão a 23.05.2012 às 06:54

Você também deve gostar de jogar ao Euro Destruction.
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De luckluck a 23.05.2012 às 14:19

Sempre fui contra o Euro a União, porque, entre outros,a igualdade destrói a redundância. Mas agora o Euro é um ,red herring, Não interessa se é Euro, Pataca , Escudo, quem, soberano, se compromete com 3% de défice e 60 de Dívida e não cumpre não tem credibilidade alguma.
Os Políticos que o fazem estarão sempre a rebentar com orçamentos e a imprimir para tapar o buraco.O mercado da dívida limitou-se a substituir a impressão durante uma, duas décadas. E só possível porque os impostos também subiram.

Curiosamente enquanto os impostos subiram na última década não era época de "austeridade"... As famílias não ficaram com menos?
Só quando os governos e os burocratas sentem limites é que a palavra "austeridade" é empregue.
Por outras palavras mostra a verdadeira natureza do jornalismo: agentes do Estado e dos Governos.

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