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Delito de Opinião

Cadáver Esquisito (14)

João Carvalho, 21.05.12

1. UM LIVRO, 2. CA...... SARKIS G........N, 3. OLHOS, 4. ESCAVAR, 5. IN VINO VERITAS, 6. TO THE LEFT, AS PERNAS DE STELLA, 7. O MEDALHÃO, 8. O SEGREDO, 9. LABIRINTOS, 10. FRAGMENTOS DE HISTÓRIA, 11. UMA VIAGEM, 12. REVELAÇÕES E MAIS DÚVIDAS13. NÃO PODES APAGAR UM FOGO COM CUSPO

14

A INSPECTORA SONHA COM UM ESQUELETO

 

"Alguns deles sabem mais do que dizem." Enquanto pensava assim, Helena Portas deixava que os olhos voltassem a percorrer as paredes e o tecto do quarto minúsculo, iluminado pela lâmpada fraca do pequeno candeeiro de cabeceira. "Chega-se a inspectora com tanto trabalho e ainda a gente tem de sujeitar-se a ficar numa espelunca destas."

A espelunca alvo da queixa que Helena acabava de apresentar aos seus botões era a única pensão da aldeia, cuja vantagem consistia simplesmente em ficar situada nas proximidades das ruínas d' Os Freixos e de permitir que a inspectora se mantivesse perto dos envolvidos no caso.

Às tantas, os seus olhos já não passavam as imagens das paredes e do tecto ao cérebro, que estava cada vez mais ocupado com a tentativa de reunir elementos que fossem úteis para a investigação.

Helena insistia com os seus botões: "Alguns deles têm de saber mais do que dizem." Mas não podia queixar-se: Helena não lhes dera conta do mínimo que os deixaria enquadrar o crime que a levara à aldeia, o que gerara certamente desconforto entre eles. Por isso, era natural que também eles a recebessem com frieza e desconfiança. Tinham-lhe até dito qualquer coisa sobre o facto de lhes ter aparecido à frente sem qualquer mandato. "Que atrevimento, o deles." Mas estava visto que ia precisar de progredir com muito tacto, sem dúvida.

Pegou no telefone sobre a mesa-de-cabeceira. Nada. Estava mudo como as paredes e o tecto. Pousou-o, saiu do quarto, desceu os dois lanços de escada até ao balcão da entrada e dirigiu-se ao ensonado empregado.

— Queria um café no quarto, por favor.

— Café não é possível – respondeu o homem quase num bocejo. – A máquina está avariada.

— Podem levar-me um chá, então? – indagou Helena, contrariada.

— Está bem, minha senhora.

Novamente no quarto, a inspectora tentava reunir mentalmente o que sabia para mais tarde encaixar tudo com a lógica possível. O chá não era realmente o que queria, mas os goles pequenos na bebida que quase lhe queimava a boca estavam a despertar-lhe as celulazinhas cinzentas para relembrar os personagens com quem estivera nesse dia e aos quais iria seguramente dedicar toda a sua atenção por uns tempos. "Dois deles vão ter de me explicar muito bem o passado enevoado que procuram alegadamente disfarçar. Basicamente, dar-lhes-ei uma janela de oportunidade, mas eles terão de pôr a verdade em cima da mesa."

Helena sabia bem o que queria arrancar desses dois. "João Cosme foi cego e vai ser preciso saber o que aconteceu durante o incêndio d' Os Freixos para ele ter recuperado a visão sem mais nem menos nessa altura. Depois, há ainda aquela Valeriya, que se pensava ter morrido nas chamas e que agora está de regresso à vida sem que se perceba por onde andou. Correu à boca fechada na aldeia que ela costumava aparecer no bosque em noites de trovoada como uma alma penada, com uma caveira nas mãos. Uma caveira sorridente, imagine-se!"

Na cabeça da inspectora avolumava-se e adensava-se o turbilhão que lhe tomava os sentidos. "Alexander, o pianista que morrera, por exemplo: que saberão os outros dele? Alguém desconfiará que foi o homicida? Quem teriam sido os seus cúmplices?" O dia seguinte prometia ser duro e ia mesmo requerer grande tacto nas abordagens.

Tudo isto Helena desfiava pela noite adiante, até se recordar do pequeno segredo do professor José Augusto. "O homem faz uma vida recatada, quase humilde, mas esconde um velho e imaculado Bentley branco n' Os Freixos, por trás daquela torre sinistra. Quem saberá disto? Por que esconde ele o carro e como é que o tem?" Na Judiciária tinham-lhe dito, antes de partir, que havia de aparecer algures uma luxuosa limousine clássica que já pertencera a uma 'bifa' chamada Stella. "Deve ser esse, o carro misterioso."

Já deitada na cama, a inspectora decidira que, no dia seguinte, começaria a participar-lhes os dados mínimos que pudessem ajudá-la a tê-los na mão e a fazê-los abrir as bocas. E adormeceu para um sono irregular e agitado, com imagens que se confundiam e em que se destacava um cadáver esquisito. Por sinal, já mais esqueleto do que cadáver. Ainda por cima, um esqueleto com os olhos inflamados. Que sonho mais estranho. Um esqueleto com os olhos inflamados? Ninguém conseguiria dormir descansadamente com um pesadelo destes atravessado nos miolos, lá isso é certo.

De manhã, ainda cedo e já a pé, Helena parecia o Zorro. Ou um dos irmãos Metralha. Era das olheiras.

 

(Este é o décimo quarto capítulo do nosso 'cadáver esquisito', explicado aqui. A próxima mão a embalar o cadáver é a da Laura Ramos.)

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