Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




O início da era Hollande (1)

por Pedro Correia, em 14.05.12

 

Vinte e quatro anos depois, a França - o país da Europa que pensa mais à esquerda e vota mais à direita - voltou a eleger um presidente socialista. François Hollande derrotou um desgastado Nicolas Sarkozy por escassos três pontos percentuais, inferiores ao que prediziam todas as sondagens.

Sarkozy, que pela sua natureza e pelas suas atitudes tem pouco a ver com os conservadores clássicos, repetiu até à exaustão durante a campanha que durante o seu mandato de cinco anos nunca a França esteve um trimestre em recessão, apesar da crise generalizada na Europa. É verdade. Mas também é certo que o país tem um nível de desemprego preocupante e as taxas oficiais de crescimento não revelam - longe disso - uma economia dinâmica, o que ajuda a dar asas ao discurso demagógico e populista de Marine Le Pen, a dirigente da Frente Nacional que ambiciona liderar a direita francesa.

 

No digno discurso em que reconheceu a derrota, na noite de 6 de Maio, Sarkozy destacou a força das instituições democráticas que permitem uma alternância tranquila no poder. A vitória de Hollande projecta-se para fora das fronteiras da Europa com a força de um símbolo numa região do mundo onde a esquerda tem sido duramente penalizada nas urnas desde que eclodiu a crise dos mercados financeiros.

Para um democrata, nunca é de mais sublinhar a importância destas rotações de poder ditadas pela soberania do voto popular. Num continente onde crescem de modo alarmante as forças extremistas "anti-sistémicas", indiferentes às lições da História bem evidenciadas nas décadas de 20 e 30 do século passado, um democrata convicto tem o dever cívico de proclamar esta sua condição. Que implica a aceitação dos resultados eleitorais, sejam eles quais forem. O exercício do direito de voto torna as sociedades mais fortes contra as investidas de todos quantos pretendem suprimi-lo invocando para esse efeito palavras tão apelativas e tão manipuláveis como povo, pátria, nação ou classe.

 

A economia francesa não está bem. Mas a política mantém-se de boa saúde e recomenda-se. Prova disso foi a grande afluência eleitoral: mais de 80% dos franceses inscritos nos cadernos de recenseamento acorreram às assembleias de voto na segunda volta das presidenciais.

Uma boa notícia para a União Europeia, que está tão carente delas. E uma responsabilidade acrescida para o novo inquilino do Eliseu, que amanhã toma posse. O seu primeiro passo como Presidente é significativo: voa de imediato para Berlim, onde será recebido por Angela Merkel.

A política vive muito de símbolos. Este é tão forte que fala por si. De forma mais expressiva do que todas as torrentes de retórica em que a França sempre foi fértil. Como costumava dizer o general De Gaulle, "nada grandioso será alguma vez conseguido sem grandes homens - e os homens só se engrandecem quando estão determinados nisso".

Também publicado aqui


14 comentários

Sem imagem de perfil

De l.rodrigues a 14.05.2012 às 22:25

"Num continente onde crescem de modo alarmante as forças extremistas "anti-sistémicas", indiferentes às lições da História bem evidenciadas nas décadas de 20 e 30 do século passado, um democrata convicto tem o dever cívico de proclamar esta sua condição".

Creio que esta frase encerra o meu ponto de discórdia de base com as análises do Pedro Correia sobre a questão sistema vs extremismos. Não são a forças extremistas que ignoram a História. São as do sistema.

Ao deixarem o sistema derivar para graus tão perigosos de crise política económica e social. Ao esvaziarem os seus projectos de ideais de solidariedade e bem comum. Ao ficarem "confortáveis" com a acumulação absurda de riqueza por alguns, enquanto muitos viam regredir a sua qualidade de vida... São os partidos do poder, do centro, que esqueceram as lições da história, e não os extremistas de que fala.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 14.05.2012 às 22:48

De facto estamos em desacordo, L. Rodrigues. Olhemos para a direita francesa, por
exemplo: o crescimento eleitoral dos herdeiros políticos da França de Pétain à custa dos herdeiros da França do general De Gaulle é sinal evidente - e de que maneira - de ignorância das lições da História.
Outro exemplo: quando os eleitores gregos favorecem com o seu voto a formação de uma bancada de 21 deputados neonazis no Parlamento de Atenas, quando estão ainda vivos milhares de cidadãos que ali testemunharam a criminosa invasão grega pelos esbirros de Hitler, eis outro exemplo de ignorância das mais elementares lições da História.
Marine Le Pen e os neonazis gregos, para me quedar apenas nestes dois exemplos, são totalmente indiferentes às lições da História - nomeadamente ao cortejo de crimes cometidos pelos regimes que lhes servem de inspiração.
É de uso corrente responsabilizar as forças moderadas pelo crescimento das franjas extremistas. Esta é, no fundo, uma justificação
que pouco explica. Não será, obviamente, o seu caso. Mas já os teóricos nas décadas de 20 e 30 utilizavam argumentos equivalentes, responsabilizando as "democracias decadentes", para conferir alguma aura de "racionalidade" à marcha sobre Roma conduzida por Mussolini em 1922, ao golpe militar de Primo de Rivera na Espanha de 1923 ou à alucinante cavalgada de Hitler rumo ao poder totalitário em Berlim.
Sabendo o que sabemos hoje, parece-me óbvio que temos o dever cívico de fortalecer as forças políticas moderadas. Só elas poderão enfrentar com sucesso uma nova vaga de demonização da democracia política com base nos tais conceitos de povo, pátria, nação ou classe que servem para inflamar as massas mas são a receita garantida para um desastre muito superior a qualquer das nossas dificuldades actuais.
Sem imagem de perfil

De l.rodrigues a 14.05.2012 às 23:25

As franjas da população que se deixam atrair pelos populismos extremistas normalmente não primam pela sofisticação política ou por elaboradas teorias sociais e leituras da história.
Não será por acaso que Marine Le Pen encontrou força no operariado francês, sendo o segundo candidato mais votado por este grupo demográfico, segundo li.

Estas pessoas pensam que ali encontram uma resposta ao que consideram o seu problema. E normalmente o seu problema é simples, é o de todos: ter uma vida digna dentro dos padrões que a sua sociedade determina como decentes. Dignidade implica doses mínimas de conforto material, bem estar social, capacidade de constituir família e pouco mais, isto tudo numa razoável liberdade.

Quando um partido que tem acesso regular ao poder não sabe dar resposta a estes anseios, e se refugia num discurso tecnocrata, mas permitindo que biliões desapareçam em buracos financeiros orquestrado por tubarões, a culpa da radicalização da sociedade é só e apenas daquele.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 15.05.2012 às 15:40

Segundo um estudo publicado no 'Le Monde', a candidata da Frente Nacional foi mesmo a mais votada entre os operários franceses (29%), situando-se ligeiramente à frente de François Hollande (28%) neste segmento de eleitores. Um dado que deve fazer reflectir políticos, politólogos e cidadãos comuns que não revelam indiferença perante tudo quanto se passa no mundo contemporâneo.
Há obviamente uma dimensão muito forte de voto de protesto nesta elevadíssima percentagem recolhida por Martine Le Pen, como noutras forças radicais, à direita e à esquerda. O mesmo poderá dizer-se de fenómenos como o Partido dos Piratas, recém-surgido na Alemanha e que já fez eleger deputados em quatro parlamentos estaduais. Na mais recente eleição, na Renânia do Norte-Vestefália, este agrupamento político que ninguém consegue classificar com grande rigor em termos ideológicos obteve 8,5% dos votos.
«Estas pessoas pensam que ali encontram uma resposta ao que consideram o seu problema. E normalmente o seu problema é simples, é o de todos: ter uma vida digna dentro dos padrões que a sua sociedade determina como decentes. Dignidade implica doses mínimas de conforto material, bem estar social, capacidade de constituir família e pouco mais, isto tudo numa razoável liberdade.» Palavras suas. E das quais não posso discordar. A nossa divergência, segundo creio, relaciona-se com o modelo alternativo. Eu entendo que a solução passa pelo aperfeiçoamento do modelo existente, sabendo naturalmente escutar a chamada 'voz da rua', que se exprime essencialmente pelo voto mas não apenas pelo voto. Você entenderá que o ideal é uma ruptura com o modelo vigente - e aí, obviamente, estamos em desacordo. Porque - e voltando às lições da História - nenhum sistema político, com todos os seus defeitos, fez progredir tanto as sociedades humanas como a democracia liberal, matriz essencial da CEE e da actual União Europeia. Note que sucessivos referendos, como aquele que ainda há pouco se realizou na Croácia para validar a adesão do país à UE, confirmam a capacidade de atracção da comunidade europeia para povos que dela não fazem parte.
Mas nada mais saudável do que a expressão pública das divergências. É também para isso que servem os blogues. Sempre pensei assim, sempre pensarei assim.
Sem imagem de perfil

De l.rodrigues a 15.05.2012 às 16:29

Caro Pedro Correia

O que eu pretendo é uma contra ruptura. Ruptura é o que está a acontecer. Defendo o modelo democrata cristão/social democrata que construiu a Europa solidária que nos venderam, contra esta modalidade neo-liberal/terceira-via (conforme esteja no poder um partido de centro direita-centro esquerda) que nos trouxe ao actual misero estado da União.

Se reconhecer que houve uma deriva nos partidos do centro para longe da social democracia, na direcção de uma política que muitos têm pudor de chamar neo-liberal, vai concluir que concordamos mais do que pensa.

Se reconhecer que o sistema político permitiu a explosão de um sistema financeiro que parasita despudoradamente a economia real (que não é mais do que a vida das pessoas), vai ver que a nossa luta é a mesma.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 15.05.2012 às 17:32

Em parte estamos de acordo, sim. A Europa vive, por estes dias, nitidamente uma fase de transição, de experimentação. Julgo que o diagnóstico dos problemas em grande parte está feito. Falta aplicar as soluções correctas. Para que, usando as suas palavras, o sistema financeiro não continue a parasitar despudoramente a economia real. Com a agravante - acrescento eu - de esse sistema não ser escrutinado pelos eleitores.
Não podemos, entretanto, continuar a querer tudo e o seu contrário. Ou recusamos a união monetária e a união orçamental, seu corolário lógico, ou regressamos ao tempo da soberania financeira em que cada Estado podia desvalorizar a respectiva moeda, fazer aumentar a circulação de notas, autorizar a quebra das taxas de juros e permitir ciclos inflacionistas. É nesta fase que se impõem as decisões políticas. Sendo certo que se para os gregos novas medidas de austeridade são intoleráveis, para os eleitores alemães (incluindo, note, grande parte dos eleitores da esquerda alemã) é igualmente intolerável continuar a assegurar a segurança social dos pensionistas nas ilhas do Mar Egeu.
Construir uma convergência entre estes dois pólos - o apoio solidário das economias mais fortes às economias mais fracas e a noção de que o crescimento não pode ser dissociado de medidas equitativas de disciplina financeira - parece-nos hoje uma espécie de quadratura do círculo. O caminho é estreito, mas os políticos europeus devem percorrê-lo. Porque a Europa - como notável construção política e talvez a 'utopia' que até hoje mais se aproximou da realidade - é um valor superior a tudo o resto.
Sem imagem de perfil

De l.rodrigues a 16.05.2012 às 12:01

Será motivo para debater noutro post, que este vai caindo para o fundo dos delitos, mas a questão dos contribuintes alemães vs pensionistas gregos está quanto a mim mal contada. Considere apenas dois pontos:

Deixa de fora a compressão salarial a que os próprios alemães foram submetidos (alguns desequilibrios da zona euro poderiam ser resolvidos aumentando o salário aos alemães, em vez de baixar os das periferias, e não diga que eles não iriam gostar).

O medo crónico da inflação que os alemães apresentam, e que bloqueia a expansão do papel do BCE, tem que ser confrontado com a inflacção que a Alemanha exportou na forma de dinheiro barato para as periferias. Ou seja, para eles é mau que o banco central emita moeda, mas não foi mau quando os seus bancos privados emitiram crédito, alimentando toda a espécie de bolhas por essa europa fora. É uma hipocrisia a posição moralista que agora assumem.

Qualquer narrativa sobre a dinâmica económica do euro e da europa nos anos recentes é isso mesmo: uma narrativa, formatada pelos interesses dominantes. O que não a torna automaticamente verdadeira.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 17.05.2012 às 00:16

Como você não ignora, o pavor dos alemães à espiral inflacionista tem sólidas raízes históricas, fazendo lembrar o pior da República de Weimar e a ascensão da tropa de choque nazi. É algo compreensível, dados esses antecedentes históricos. De qualquer modo, nas últimas semanas a posição alemã tem registado alguma flexibilidade neste domínio, em benefício de todos quantos consideram a inflação um mal menor perante o desafio da dinamização do conjunto das economias europeias, sobretudo as periféricas.
Mas é como diz: este debate pode ser transferido com vantagem para uma futura caixa de comentários. Devo acrescentar, como aliás já tinha referido anteriormente, que para mim é sempre um prazer debater ideias. Partindo eu do princípio que aprendemos em regra mais com quem discorda de nós do que com aqueles que costumam estar de acordo.
Sem imagem de perfil

De lucklucky a 15.05.2012 às 01:39

"...repetiu até à exaustão durante a campanha que durante o seu mandato de cinco anos nunca a França esteve um trimestre em recessão, apesar da crise generalizada na Europa. É verdade..."

Não é verdade, quando o défice é maior que o crescimento, o crescimento não é suficiente para pagar o défice.
A que se adicionam os juros.
A França de Sarkozy estve em recessão diferida tal como Portugal esteve em recessão diferida pelo menos durante os últimos 10 anos.


As "forças extremistas anti-sistémicas" aparecem porque as forças extremistas sistémicas dedicaram-se nos últimos anos a bater records de défice e endividamento que acabam na bancarrota. Records por definição são algo extremo, sendo que a bancarrota também cai na mesma definição. Logo além da Extrema Esquerda e Direita Extremistas temos também o Centrão Extremista.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 15.05.2012 às 15:45

Se é como diz, custa-me entender por que motivo tantos milhares de pessoas continuam a procurar a França como país de acolhimento, de trabalho e de exílio. Tomara grande parte da humanidade viver num quadro macro-económico como o francês. Julgo, por exemplo, que na Coreia do Norte não existe défice nem dívida externa nem desemprego nem inflação. Mas nem um só habitante de França trocaria este país pela Coreia do Norte. As coisas são o que são.
Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 15.05.2012 às 09:20

mais de 80% dos franceses inscritos nos cadernos de recenseamento acorreram às assembleias de voto

A França tem cadernos de recenseamento atualizados, ao contrário de Portugal, cujos cadernos estão pejados de mortos e de emigrados.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 15.05.2012 às 15:41

É mais que tempo de seguirmos o bom exemplo francês nesta matéria, pondo fim à famigerada "abstenção técnica" que desvirtua as percentagens reais de mobilização eleitoral.
Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 15.05.2012 às 15:54

Uma alternativa, que é a minha preferida, é deixarmos de nos preocupar com os cadernos eleitorais e com os abstencionistas, e fazer tudo apenas em função dos votos entrados em urna. Por exemplo, o número de deputados por distrito passaria a ser determinado após - e não antes de - as eleições, em função do número de pessoas que tivessem votado nesse distrito.
Com esta alternativa, o facto de os cadernos eleitorais estarem desatualizados passaria basicamente a ser irrelevante.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 15.05.2012 às 16:21

Fica a sugestão, à consideração dos nossos legisladores.

Comentar post



O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D