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De ordine mundi

por Ivone Mendes da Silva, em 09.05.12

Para a nossa Leonor que mora lá perto

 

Hoje enquanto os meus alunos avançavam pela análise de um texto adentro e a infanta D. Maria Bárbara passava o seu pensamento de princesa em trânsito sobre um convento a que dera origem e nunca veria e eu esperava que os preguiçosos sobreditos vissem a linha da ficção entremear-se na trama da História quando o oficial de escolta respondia às questões da princesa e o narrador lhe desvendava a alma, lembrei-me de uma entrevista com Isabel da Nóbrega, referida já não sei por quem, que isto a tal memória que eu tive foi chão que deu as últimas uvas, na qual se contava que na partilha subsequente ao divórcio ela terá perguntado a Saramago, Olha lá, não queres ficar com a casaca que era do meu pai. Para quê? deduzo eu que terá resmungado Saramago. Podes precisar dela para Estocolmo, replicou Isabel. Saramago desdenhou a casaca do sogro e por aqui se vê que não era homem previdente pois teve de comprar uma para ir a Estocolmo, que eu bem o vi na televisão de bom corte e vénia irrepreensível, que isto a vida dá cada volta, a um rei em carne e osso, décimo sexto de seu nome na tabela real lá da Suécia, em virtude de ter andado a falar dos empreendimentos do senhor D. João, quinto do seu nome na tabela real de cá, que quis construir um convento e ajudar um padre voador a subir por esses ares, coisa a que a Inquisição cortou as asas que pelos vistos nem que a vontade do rei tivesse sido também recolhida teria servido de grande préstimo, se quer fazer alguma coisa que construa conventos que esses não voam.

Ora estava eu em Estocolmo e os meus a alunos a contabilizarem as figuras de estilo do último parágrafo quando me lembrei do vestido vermelho que Pilar del Rio usava na noite do Nobel, assinado por Jesus del Pozo, em cuja fímbria fora bordado ton-sur-ton, Olharei a tua sombra se não quiseres que te olhe a ti. Quero estar onde estiver a minha sombra se lá é que estiverem os teus olhos. Que isto é do Evangelho segundo Jesus Cristo e foi um achado, pois, e como no simbólico como em todas as coisas nada se perde e tudo se transforma era também esse o vestido que envergava a violoncelista que tocou na Câmara de Lisboa durante as exéquias de Saramago. 

Pensei então que entre a blimúnica antevisão de Isabel da Nóbrega e a segurança da cumplicidade de Pilar del Rio se estendeu o mundo de Saramago. Um escritor não escreve contra o Mundo, o Mundo ordena-se para ele e ele devolve-no-lo, ordenando as palavras na ordem que mais lhe aprouver. Assim a charneca do Yorkshire retorceu as árvores que Emily Brontë nos leu, assim as intrigas se dobraram nos lençóis do Douro onde Agustina nos deitou. O Mundo dá-se ao escritor e o escritor devolve-o ao mundo que é como quem diz a nós que somos comuns.

Mas o Mundo não é generoso. Por isso são tão poucos os realmente bons, pensava eu enquanto metade da turma já tinha conseguido copiar pela outra metade que a névoa impalpável na mente de Maria Bárbara, a princesa em trânsito, era uma metáfora.


17 comentários

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De Leonor Barros a 09.05.2012 às 16:28

Muito obrigada, Ivone. Tenho um carinho enorme e muito especial pelo mundo devolvido nas páginas do Memorial ao qual tenho sempre vontade de voltar quando faço uma visita ao Palácio ou quando o contemplo cá de baixo. E um enorme orgulho que aquelas pedras e quem as ergueu tenham sido levadas mundo fora pela mão exímia da Literatura.
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De Adolfo Mesquita Nunes a 09.05.2012 às 16:50

"Um escritor não escreve contra o Mundo, o Mundo ordena-se para ele e ele devolve-no-lo, ordenando as palavras na ordem que mais lhe aprouver".

É por causa de pessoas como tu que me vejo na contingência de comprar mais e mais gavetas.
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De Ivone Mendes da Silva a 09.05.2012 às 17:08

Que exagero, Adolfo :)
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De da Maia a 09.05.2012 às 17:50

Ainda bem que o seu mundo se ordenou assim, e nos devolveu essa sua visão. Obrigado.
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De Ivone Mendes da Silva a 09.05.2012 às 19:00

Ora essa! Obrigada digo eu.
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De Bartolomeu a 09.05.2012 às 16:42

Em primeiro lugar, confesso o pecado de inveja. Inveja dos alunos que receberam a graça de ser ensinados por quem concebe um raciocínio como este que se revela no texto.
Se a mesma me tivesse sido concedida, o que seria temporalmente impossível, dado o avançado da minha idade; teria sido melhor aluno na disciplina que sempre adorei, mas com a qual sempre me incompatibilizei.
Bom, verdade seja dita, nunca achei em mim memória capaz, que guardasse nomes e datas, sem que trocados e colocados em tempos estranhos, fossem.
Mas tenho de confessar mais alguma coisa, manda-me a verdade que o faça; fui leitor de Saramago e alguns dos seus romances deram-me imenso prazer de leitura: o Memorial foi um.
Quanto ao resto, na parte dos vestidos... passo!
;)))
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De Ivone Mendes da Silva a 09.05.2012 às 17:12

Ora pois, caro Bartolomeu, fala assim porque está aí posto em sossego. Aqueles que diz invejar queixam-se do massacre a que os sujeito :))
Obrigada.
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De Bartolomeu a 09.05.2012 às 17:17

Mas estou disposto a trocar de lugar com eles!!!
;)))
Só mais uma confissãozinha, se me dá licença; o nick-name que escolhi para me referenciar nestes passeios virtuais, deve-se precisamente à simpatia (e até à cumplicidade) para com a pessoa do padre voador.
Em muitas ocasiões da vida; voar, é preciso...
;))
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De cr a 09.05.2012 às 17:46

Oh Ivone que ditoso massacre...
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De Ivone Mendes da Silva a 09.05.2012 às 19:01

Vá lá perguntar-lhes ... :))
Obrigada pelo ditoso.
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De Rui Rocha a 09.05.2012 às 17:58

Lamentável. Quando um tipo se convence que é capaz de alinhavar duas ou três baboseiras em português minimamente escorreito, cá vens encarregar-te de colocar as coisas no seu devido lugar...
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De Ivone Mendes da Silva a 09.05.2012 às 19:02

Rui Rocha, o exagerado. Obrigada.
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De Ana Vidal a 09.05.2012 às 20:36

Laisse-moi devenir l'ombre de ton ombre? Bah, o Brel disse isso primeiro.

Quanto à história da casaca, acho que fui eu que a contei aqui. Talvez tenha sido assim que a soubeste, seria? :-) Mas o que interessa é que o teu texto me encheu as medidas. Só não tenho inveja dos teus alunos porque também tive uma excelente professora de português...
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De Ivone Mendes da Silva a 09.05.2012 às 21:19

:)
Talvez, Ana, li a história, mas não consigo lembrar-me de quem a contou.
Gostei muito de teres gostado.
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De Pedro Correia a 09.05.2012 às 20:40

Num blogue onde já houve tantos textos excelentes, este é um dos melhores, Ivone.
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De Ivone Mendes da Silva a 09.05.2012 às 21:21

E eu respondo o quê a esse comentário?
Merci, Pierre.

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