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Delito de Opinião

Cadáver esquisito (12)

José Maria Gui Pimentel, 07.05.12

1. UM LIVRO2. CA...... SARKIS G........N3. OLHOS4. ESCAVAR, 5. IN VINO VERITAS6. TO THE LEFT, AS PERNAS DE STELLA7. O MEDALHÃO8. O SEGREDO9. LABIRINTOS10. FRAGMENTOS DE HISTÓRIA11. UMA VIAGEM

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REVELAÇÕES E MAIS DÚVIDAS 

 

— 1937… cinco anos antes, portanto – reflectiu Helena Portas durante uns segundos, e o sorriso que deixou escapar antecipou a pergunta que Valerya temia. Oiça – tornou a inspectora encarando a criada  A senhora nasceu em Portugal?

Valerya sentiu o chão fugir-lhe debaixo dos pés. Tantos anos a aperfeiçoar a sua personagem, e de repente todos os seus pontos fracos começavam a sobressair. Mas que raio de ideia deixar o livro sobre a cama de João, indagava-se, embora não conseguisse, ainda, encontrar uma ligação entre esse acto e os eventos subsequentes, outra que não fosse a ligação ao seu passado escondido.

Porém, antes que a criada tivesse tempo de, em vão, procurar um meio de fintar a pergunta da inspectora, João Cosme, instintivamente, interveio para a salvar.

Nossa, cara – rugiu Cosme, deixando, como lhe acontecia frequentemente quando ficava nervoso, transpirar uma expressão absorvida numa qualquer telenovela brasileira. Senhora inspectora, com todo o respeito, julgo que antes das suas perguntas merecemos uma contextualização. Que assassínio está a investigar? E o que tem isso a ver com Os Freixos?

Helena Portas pareceu aperceber-se do modo desordenado como a conversa se havia desenrolado e decidiu aceder ao pedido.

Bom… Como dizia há pouco, foi encontrado um corpo, não longe daqui. O homem em causa parecia ser estrangeiro e estava estranhamente despojado de pertences, exceptuando dois pequenos objectos. O primeiro um papel amarfanhado onde se podia ler a direcção d’Os Freixos. Logicamente não conhecia a propriedade, mas conhecia o relato do incêndio, e numa terra pequena como esta não demorei muito a chegar a vossa casa.

Mas é o segundo objecto que mais me intriga – prosseguiu a inspectora Isto diz-vos alguma coisa? – inquiriu, enquanto arrancava do bolso um medalhão de São Rafael Arcanjo, em tudo idêntico ao que havia causado tanto sobressalto minutos antes.

Sem que ninguém tivesse tempo de responder, ouviu-se uma voz aguda.  

Meu Deus, nunca pensei voltar a ver esse medalhão em vida – lançou sorrindo a inefável madrinha de João Cosme, irrompendo silenciosamente pela cozinha. Valerya já não a ouviu, caída, de novo, desta feita no chão da cozinha.

 

(Este é o décimo segundo capítulo do nosso 'cadáver esquisito', explicado aqui. A próxima mão a embalar o cadáver é a do José Navarro de Andrade.)