Cadáver esquisito (12)
1. UM LIVRO, 2. CA...... SARKIS G........N, 3. OLHOS, 4. ESCAVAR, 5. IN VINO VERITAS, 6. TO THE LEFT, AS PERNAS DE STELLA, 7. O MEDALHÃO, 8. O SEGREDO, 9. LABIRINTOS, 10. FRAGMENTOS DE HISTÓRIA, 11. UMA VIAGEM
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REVELAÇÕES E MAIS DÚVIDAS
— 1937… cinco anos antes, portanto – reflectiu Helena Portas durante uns segundos, e o sorriso que deixou escapar antecipou a pergunta que Valerya temia. — Oiça – tornou a inspectora encarando a criada — A senhora nasceu em Portugal?
Valerya sentiu o chão fugir-lhe debaixo dos pés. Tantos anos a aperfeiçoar a sua personagem, e de repente todos os seus pontos fracos começavam a sobressair. Mas que raio de ideia deixar o livro sobre a cama de João, indagava-se, embora não conseguisse, ainda, encontrar uma ligação entre esse acto e os eventos subsequentes, outra que não fosse a ligação ao seu passado escondido.
Porém, antes que a criada tivesse tempo de, em vão, procurar um meio de fintar a pergunta da inspectora, João Cosme, instintivamente, interveio para a salvar.
— Nossa, cara – rugiu Cosme, deixando, como lhe acontecia frequentemente quando ficava nervoso, transpirar uma expressão absorvida numa qualquer telenovela brasileira. — Senhora inspectora, com todo o respeito, julgo que antes das suas perguntas merecemos uma contextualização. Que assassínio está a investigar? E o que tem isso a ver com Os Freixos?
Helena Portas pareceu aperceber-se do modo desordenado como a conversa se havia desenrolado e decidiu aceder ao pedido.
— Bom… Como dizia há pouco, foi encontrado um corpo, não longe daqui. O homem em causa parecia ser estrangeiro e estava estranhamente despojado de pertences, exceptuando dois pequenos objectos. O primeiro um papel amarfanhado onde se podia ler a direcção d’Os Freixos. Logicamente não conhecia a propriedade, mas conhecia o relato do incêndio, e numa terra pequena como esta não demorei muito a chegar a vossa casa.
— Mas é o segundo objecto que mais me intriga – prosseguiu a inspectora — Isto diz-vos alguma coisa? – inquiriu, enquanto arrancava do bolso um medalhão de São Rafael Arcanjo, em tudo idêntico ao que havia causado tanto sobressalto minutos antes.
Sem que ninguém tivesse tempo de responder, ouviu-se uma voz aguda.
— Meu Deus, nunca pensei voltar a ver esse medalhão em vida – lançou sorrindo a inefável madrinha de João Cosme, irrompendo silenciosamente pela cozinha. Valerya já não a ouviu, caída, de novo, desta feita no chão da cozinha.
(Este é o décimo segundo capítulo do nosso 'cadáver esquisito', explicado aqui. A próxima mão a embalar o cadáver é a do José Navarro de Andrade.)


