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Contabilidade sexual

por José António Abreu, em 06.05.12
  

Nas cartas dirigidas a Flaubert, muitas delas de uma sã crueza de linguagem, Maupassant mostra-se orgulhoso da sua virilidade excepcional e chega a confessar-se farto de sodomizar judias!... A resposta foi simples: «experimenta pelo lado tradicional e pode ser que o teu tédio desapareça».

João Costa, no prefácio a As Sobrinhas da Viúva do Coronel, de Guy de Maupassant, Bertrand, 2007.

 

Será possível acharmos que vivemos numa época especialmente sexual – isto é, em que se faz mais sexo do que noutros tempos e de formas mais criativas? A década de sessenta, com a libertação feminina, o amor livre, o make love not war e o sex, drugs and rock ‘n’ roll, bem como a representação cada vez mais displicente (e inconsequente) do acto sexual na televisão e no cinema terão provavelmente contribuído para tal sensação. Mas corresponderá ela à realidade? Infelizmente, sendo, por um lado, os inquéritos sobre a frequência e os hábitos sexuais o que eram nos séculos anteriores ao último (inexistentes talvez seja o termo que procuro) e, por outro, os humanos (especialmente se possuidores de um cromossoma Y) propensos a mentir quando questionados sobre estas matérias, não é fácil ter certezas. Mas julgo podermos afastar desde já a hipótese de sermos mais criativos. Se as confissões de Maupassant, afloradas acima (e confesso tê-las usado essencialmente para vos chamar a atenção), não constituem grande indicador, há milhares de outras fontes onde podemos constatar que, basicamente, nos limitámos a melhorar alguns acessórios recorrendo à electricidade, à injecção de plásticos e aos circuitos integrados. Mas e a questão da frequência? O mesmo Maupassant terá possuído numa só hora, perante uma testemunha, seis mulheres num bordel parisiense. Mas relações envolvendo troca de dinheiro dificilmente representam a realidade ou a sensibilidade de uma época. Por outro lado, convém evitar dar excessivo crédito a declarações de machos com tendência para o priapismo – ou para a gabarolice. É por esta razão que os relatos do divino Marquês de Sade também não nos servem para caracterizar o que quer que seja. Podíamos ainda recorrer à Bíblia, que nos fala de Sodoma e Gomorra, ou a relatos gregos e romanos mencionando bacanais mas continua a ser difícil fazer comparações com os tempos actuais (como determinar se Calígula participava em mais ou menos orgias do que José Castelo Branco?). De resto, talvez seja melhor atermo-nos aos tempos e às regiões de influência cristã. Então, como fazer? Eu digo-vos: buscando na ficção não erótica de diferentes épocas a ideia que os autores transmitem sobre o que representa ter muitas relações sexuais. Claro que não obteremos o número de relações em que uma pessoa média se envolvia mas pelo menos obteremos uma noção do que era considerado excessivo. Sendo isto um post de blogue (necessariamente curtinho e to the point), vou limitar-me a um par de exemplos totalmente aleatórios e, dessa forma, estou em crer que totalmente representativos.

 

Comecemos pela actualidade e por uma série televisiva intitulada How I Met Your Mother ou, na versão portuguesa, Foi Assim Que Aconteceu. Nesta série, Barney Stinson, um awesome (definição do próprio) jovem mulherengo nova-iorquino com cerca de trinta anos, tem relações sexuais com a duocentésima mulher diferente durante a quarta temporada. Já perto do final da quinta, refere que a contagem vai em quase duzentas e oitenta (o que revela um considerável aumento de ritmo). Temos então que, de acordo com a mentalidade actual, fazer sexo com quase trezentas mulheres é mais do que suficiente para que um tipo de trinta e tal anos possa considerar-se (e ser considerado) um engatatão de primeira classe. Se Barney tiver iniciado a vida sexual aos quinze, isto dá uma média de catorze ou quinze mulheres por ano. Razoável, de facto, pelo menos quando comparado com a minha estatística pessoal – mas eu tendo a esquecer-me das coisas.

 

Antes de recuarmos no tempo e colocarmos à prova as façanhas de Barney Stinson convém explicar que toda a lógica deste post se aplica aos homens. E não por uma questão de machismo, pelo menos da minha parte. Apenas porque, no que respeita às mulheres, não há qualquer dúvida. Convenhamos que discutir o número a partir do qual uma mulher era classificada como – er, conquistadora nem sequer é o termo, pois não?... promíscua, então? – há um par de séculos não é mais do que escolher entre os algarismos um, dois e três, consoante se tratasse de um mulher solteira, casada pela primeira vez ou casada pela segunda vez após morte do primeiro marido. Felizmente, hoje a situação é bastante diferente (felizmente também para os homens, que têm – dizem-me – menores dificuldades em arranjar sexo barato). Ainda assim, sinto-me forçado a salientar que, décadas depois da tal «revolução sexual» dos anos sessenta, continua a notar-se uma diferencita no valor considerado excessivo para homens e para mulheres. Lembram-se da cena, em Quatro Casamentos e Um Funeral (de 1994, mas creio que ainda razoavelmente representativo) na qual a personagem interpretada por Andie MacDowell enumerava os amantes que tivera? Ela apenas chegou a trinta e qualquer coisa mas terminou corada de vergonha e, diante dela, a personagem interpretada por Hugh Grant começava a entrar em estado de choque. Ou seja, trinta e qualquer coisa parceiros sexuais já são demasiados para uma mulher de trinta e qualquer coisa anos mas quase trezentas parceiras sexuais ainda não embaraçam um homem de trinta e qualquer coisa anos (pelo contrário, ele continua a sorrir, orgulhoso).

 

Bom, mas então como era no passado? E a quem recorrer para obtermos uma ideia digna de crédito? Não existindo televisão nem cinema, resta-nos a literatura, o teatro e a ópera. Mantenhamo-nos nas artes performativas e usemos a última. Em Don Giovanni (parcialmente uma comédia, como How I Met Your Mother) Lorenzo da Ponte, o librettista que trabalhou com Mozart no mais famoso trio de óperas do pequeno génio austríaco, fez Leporello, o servo de Don Giovanni, explicar a D. Elvira, através da famosa ária do catálogo (ver abaixo Kyle Ketelsen como Leporello e Joyce DiDonato como D. Elvira na excelente produção da Royal Opera House de 2008, disponível em DVD e Blu-ray), que as conquistas do patrão ascendiam a:

In Italia seicento e quaranta;

In Alemagna duecento trentuna;

Cento in Francia, in Turchia novantuna;

Ma in Ispagna son già mille e tre.

Passando sobre a desfeita de Don Giovanni ter ignorado as mulheres portuguesas (porquê, João, porquê?), somem os números e chegarão a – prontos? – duas mil e sessenta e cinco conquistas sexuais. Ora Don Giovanni teria apenas vinte e dois anos de idade. Considerando uma vida sexual de sete anos, obtém-se a astronómica média de duzentas e noventa e cinco mulheres diferentes por ano. O que são, comparadas com isto, as catorze de Barney Stinson? A conclusão é dolorosa mas inevitável: a menos que na televisão actual se exagere afinal muito pouco, vai-se a ver e ainda temos muito que... muito que… ainda temos muito sexo a fazer.

 

 
(Imagens recolhidas aqui.)

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11 comentários

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De Rui Rocha a 07.05.2012 às 09:42

É sempre importante para um blog ter textos com a tag sexo. Se o texto for bem escrito, como é o caso, tanto melhor. Se a isso adicionarmos o facto de se apoiar em dados científicos irrefutáveis, como também é o caso...
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De José António Abreu a 07.05.2012 às 10:16

Obrigado. Mas as reticências finais deixam-me inquieto: não estás a duvidar de Mozart, pois não? Como sociológo, parece-me pelo menos tão credível como o professor Bonnaventura. Como compositor, então, nem se fala...
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De Rui Rocha a 07.05.2012 às 10:17

Bem, se invocas o argumento de autoridade do Professor Ventura, retiro as reticências com todo o gosto.
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De A. a 07.05.2012 às 12:25

Caro jaa,
O seu post remeteu-me para 2009, quando citei uns dados estatísticos deveras surpreendentes (e inverosímeis?). No que respeita às mulheres, tenho a impressão que hoje em dia não há respostas "certas" ou "normais". Seremos tão mal vistas pela abstinência como pelo excesso, seja lá o que isso for. Cheguei à conclusão que o melhor é abstermo-nos de comparar números, com os homens certamente, mas também com outras mulheres: não há como sairmos ilesas.
Aqui fica então mais um link, para compilação estatística:
http://apontoblog.blogspot.pt/2009/06/castas
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De José António Abreu a 07.05.2012 às 15:17

Andréa: respondo-lhe num post mais logo.
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De A. a 07.05.2012 às 12:30

Desculpem, o link não estava correcto:
http://apontoblog.blogspot.pt/2009/06/castas-senhoras.html
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De Ana Vidal a 07.05.2012 às 17:31

E nem sequer afloraste (credo, esta palavra aqui parece outra coisa) a velha e libidinosa Índia...
Seja como for, o grande mal dos D. Juans de hoje parece ser exactamente o que referes acima, mas noutro contexto: "curtinho e to the point" para tanta conversa. ;-)
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De José António Abreu a 07.05.2012 às 21:04

Disso não sei nada. Quer dizer, sei uma coisa: o actor que faz de engatatão de mulheres na série How I Met Your Mother é gay. :)
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De Ana Vidal a 08.05.2012 às 17:29

Sinais dos tempos, não há dúvida.
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De Fernando Lopes a 08.05.2012 às 10:04

Meu caro,

Sejamos honestos e to-the-point. Quase ninguém teve trinta parceiro sexuais durante a sua vida. Basicamente implicaria a profissão de sedutor(a) a full time. Pode acontecer esporadicamente em meios artísticos ou de celebridades, mas para o comum dos mortais isso assemelha-se a recorde do Guiness. Além disso, o número de parceiros é indiferente, pois se tive one-nigth-stand (em bom português queca-de-uma-só-noite) de quem nem me recordo, estou certo que não valeu a pena. Ou será que segui a carreira monástica sem me aperceber? :)
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De José António Abreu a 08.05.2012 às 16:53

Pois, daí eu ter escrito lá para cima que era difícil fazer um estudo comparando a "normalidade" de várias épocas. Gajos como o Maupassant e o Zezé Camarinha (credo, até faz impressão metê-los na mesma frase) distorcem as médias e provocam uma ideia errada. Isso e o cinema e as séries televisivas.

Quanto ao "sejamos honestos": bolas, depois de um post destes? :)

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