Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Sem a loucura o que é o homem?

por Pedro Correia, em 03.05.12

 

Texto reeditado, no dia em que a única das quatro versões d'O Grito que não está exposta na Noruega foi vendida pelo preço recorde de 119,9 milhões de dólares (cerca de 91 milhões de euros), tornando-se na obra mais cara de sempre em leilão.

  

Por vezes alguns dos aspectos mais secundários de um quadro são os que o tornam mais significativo. Acontece isso no célebre O Grito, de Edvard Munch (1893), peça essencial da iconografia do nosso tempo. Vi pela primeira vez esta tela densa e misteriosa ainda criança, reproduzida num selo norueguês que me fascinou. Norge, lia-se nesse selo branco e azul, como atestado de proveniência. Mirei-o e remirei-o incessantemente, sem nada saber da arte de Munch nem da sua existência atribulada. Fascinou-me ao primeiro olhar: jamais vira – jamais vi – os abismos da mente humana captados de forma tão verosímil pelos caprichos de um pincel lançado numa espécie de liturgia do expressonismo. Há vida neste quadro. Vida transtornada, transfigurada, trepassada por uma dilacerante angústia existencial, indescritível por palavras. Só vendo se percebe.
 
De há cem anos para cá, multiplicaram-se as teorias sobre a origem deste ‘grito’ tão singular. Houve quem mencionasse a hipótese de um ataque de pânico que o artista transportaria para a sua tela, falou-se em ansiedade e neurose. Houve até quem arriscasse que tudo se terá devido às frequentes libações alcoólicas de Munch. Não faltaram as teses psicanalíticas, aludindo à sucessão de dramas na infância do pintor, que ficou órfão de mãe muito cedo e viu a irmã mais velha desaparecer de forma trágica.
Filho de médico, o artista noruguês (1863-1944) habituou-se a acompanhar o pai, em criança, a diversas visitas domiciliárias que lhe causariam um permanente assombro perante os abismos da doença e o rasto inevitável da morte.
É o próprio Munch que nos ajuda a desvendar o que terá ocorrido naquele fim de tarde de 1892 numa rua de Cristiânia [a actual Oslo]:“Caminhava com dois amigos. O sol, vermelho-sangue, descia no horizonte – e senti-me invadido por um sopro de tristeza. Parei, num cansaço de morte. Sobre o fiorde negro-azulado e a cidade caíam línguas de fogo. Os meus amigos prosseguiram – eu fiquei, tremendo de medo. Senti um grito infinito através da natureza. Senti como se conseguisse de facto escutar esse grito.”
Não tardou a fazer um esboço daquele que viria a tornar-se um dos quadros mais célebres de todos os tempos, cheio de linhas irregulares e convulsivas: terra, água e céu parecem atingidas pela mesma vaga demencial de sangue e fogo. A paleta de Munch é única. E a sua visão sombria da existência também. No rosto da figura principal – de algum modo um símbolo do mundo contemporâneo – estampa-se a “imagem primária do medo”, como acentuou o britânico Iain Zaczek, autor da obra The Collins Big Book of Art and Masterworks.
 
Regresso ao princípio para acentuar um daqueles pormenores que fazem toda a diferença nos melhores quadros: as duas figuras de cartola que caminham impávidas na direcção oposta à da personagem principal. Elas – e só elas – nos elucidam de que tudo quanto ali vemos se passa apenas na mente perturbada do autor, estabelecendo um evidente contraste entre o que este imagina por sugestão de um pôr-de-sol e a realidade objectiva daquele plácido fim de tarde na capital norueguesa.
“Só podia ter sido pintado por um louco”, escreveu Munch, a lápis, numa das cópias deste quadro que lhe deu projecção universal. Um seu contemporâneo português, Fernando Pessoa, bem poderia responder-lhe nestes versos antológicos, adaptáveis a todas as estações da vida: “Sem a loucura o que é o homem / Mais que a besta sadia, / Cadáver adiado que procria?”

 

Outro quadro: Auto-Retrato com Cigarro, de Munch (1895). Tal como O Grito, pertence à colecção do Museu Munch, em Oslo.


20 comentários

Sem imagem de perfil

De am a 03.05.2012 às 18:40

Quando o BE souber que a compra foi do grupo Pingo Doce... passa-se!
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 03.05.2012 às 23:50

Aqui o desconto foi... para cima.
Sem imagem de perfil

De maria madeira a 03.05.2012 às 18:47

O quadro transtorna-me, Sempre me transtornou e não sei bem porquê.
Obrigada por este post.
Sem imagem de perfil

De Vasco a 03.05.2012 às 21:04

Eu sei por que me transtorna este quadro. Porque é mauzito.
Sem imagem de perfil

De Zorro, sem sombra de pecado a 03.05.2012 às 21:12

Não me admiro nada. Deve ter sido o transtorno do quadro que te amalucou para...tu sabes. Eheh...
Enfim! Mas passemos ao quadro propriamente.
Não dava cinco euros por ele e menos o pendurava em minha casa.
Horríveis cores e de muito difícil definição, para lá de uma espécie de fanrasma que a minha sobrinha de oito anos faz muito melhor.
Depois é sombrio, lúgubre, macabro sem movimento.
Paisagem estéril, natureza vazia, morta, esbatida a esfuminho.
Muito parecido com a comentadora acima.
eheh...
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 03.05.2012 às 23:53

Obrigado, Maria. Este quadro "transtorna", como 'O Processo', de Kafka, também o faz. E certa música. E certa arquitectura. A arte também serve para isso. Para nos dar murros no estômago, para nos desassossegar (e aí está 'O Livro do Desassossego', para fazer isso mesmo). É uma outra forma de nos fazer pensar.
Sem imagem de perfil

De zorro, dos grandes poemas trágicos a 03.05.2012 às 21:24

Só loucura é realidade
Acreditem nesta verdade
Só o estado de embriaguez
Vos trará a felicidade

Virem-se pois para o bagaço
Para o vinho e a água-pé
Na mesma vos apertam o laço
Morrem todos mas morrem com fé

Menos uma cobrinha marota
com cabecinha de marmota
Que acendeu um fósforo
p'ra ver se o bidão tinha gasolina
E tinha!!!

Imagem de perfil

De Pedro Correia a 03.05.2012 às 23:57

Parabéns. Nunca tinha visto ninguém fazer rimar fé com água-pé.
Sem imagem de perfil

De Vasco a 04.05.2012 às 10:30

Ahahah.
Sem imagem de perfil

De Gonçalo Correia a 03.05.2012 às 21:37

Um grito de loucura sempre fez, e sempre fará, parte das grandes realizações humanas, boas e más. A loucura é matéria-prima dessas grandes realizações. Não é coisa exclusiva do passado, faz parte do nosso presente e germinará igualmente nas futuras gerações, mais ou menos próximas. Haja audácia e engenho! O juízo imediato, tão fácil de sair para os escaparates das nossas palavras ditas e/ou escritas, nem sempre coincide com a razão do mediato, visto e analisado à distância. Infelizmente. O tempo (quase) tudo cura, sobretudo os disparates... Cada um de nós é louco à sua maneira. Felizmente.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 03.05.2012 às 23:56

Muitos dos maiores artistas foram considerados loucos pela opinião contemporânea. Eram afinal visionários na sua 'loucura'. É espantoso como estão hoje a ser reabilitados no mercado da especialidade. É o caso de Van Gogh, outro "louco" do seu tempo. Se vivesse hoje, seria milionário. Ou talvez não, porque nem sempre somos capazes de reconhecer os génios do nosso tempo. Quando isso sucede, geralmente, é tarde de mais.
Sem imagem de perfil

De Vasco a 04.05.2012 às 10:39

Apesar da sua estética desconcertante (a feitura tosca e desagradável), este quadro inaugura de facto o expressionismo - que inspirou criaturas tão estranhas quanto diversas, como por exemplo Schönberg e Kandinsky. É o exemplo acabado de um objecto que vale menos pelo que tem de intrínseco do que pelo que proporcionou depois de ter sido inventado.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 05.05.2012 às 18:59

Este quadro, parece-me, é sobretudo valorizado pelo seu carácter precursor, antecipando - numa pretensa idade de ouro, dominada pela "modernidade" - toda a corrente de angústia existencial que viria a percorrer o século XX.
Sem imagem de perfil

De am a 04.05.2012 às 11:36

Caro P. Correia

A minha opinião sobre o valor atribuido a certas obras d'arte e artistas ( sem arte para a explicar correctamente)
-
Se, por ventura, a "arte pictórica" deixá-se de ter valor comercial,a grande maioria dos quadros expostos em museus e de colecções particulares seriam atiradas para o lixo... Há todo o interesse em preservar o seu valor... dái a razão de a analtecer!

Imagine que as obras de Picasso deixariam de ter valor comercial... Quantos quadros não iriam parar à reciclagem? ... Agora... não... valem ouro!

Mal explicado ... fica a ideia.
Sem imagem de perfil

De arlequin a 04.05.2012 às 23:31

Chama-se "ideia" a coisas tão estranhas! Dá que pensar.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 05.05.2012 às 19:05

Não é possível estabelecer uma relação directa entre o preço de um quadro e o seu valor intrínseco. Tal como um filme não deve ser avaliado pela audiência conseguida nas bilheteiras. Mas 'O Grito', de facto, tornou-se um ícone que perdura há várias gerações. Não deixa de me fazer confusão, de qualquer modo, como é que alguém compra um quadro (seja ele qual for) por um preço destes.
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 04.05.2012 às 11:44

O próprio interesse desmesurado que este quadro provocou desde sempre nas pessoas diz muito sobre a natureza humana. Inquieta porque já nos identificámos com este estado de espírito pelo menos uma vez na vida, e o medo é uma prisão poderosa que distorce tudo à volta. Gostei de ler-te, como sempre.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 05.05.2012 às 19:00

Obrigado, Ana. Um dia destes poderíamos retomar a nossa série dos quadros, que foi tão fugaz mas deixou rasto.
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 06.05.2012 às 12:15

Acho uma boa ideia. Deixa-me passar esta fase mais atrapalhada e prometo colaborar.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 06.05.2012 às 12:59

Excelente. 'Bora lá.

Comentar post



O nosso livro



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D